“Minha doce Norazinha putazinha…”

Eu acho interessante, engraçado, como às vezes parece que coincidentemente as coisas se acumulam dizendo a mesma coisa. Um livro, um filme, uma série. Como se todas as escolhas que você faz secretamente se arranjassem para reforçar o mesmo tema, a mesma ideia infiltrada. Ou talvez, seja apenas eu que vejo o que quero ver em repetidos lugares.

Sempre me lembro daquela aula de filosofia, de Freud, de aprender que a paranoia é o oposto do sentimento da ausência de sentido. Na paranoia tudo tem sentido. A paranoia é a resposta do ego (talvez fosse uma aula de psicologia?) que não consegue encarar de frente a falta de sentido e a aleatoriedade do mundo. Na paranoia tudo tem sentido mas ele é sempre contra você.

Divago. Paranoia não tem a ver com esse post, embora essa frase tenha grudado em mim de uma forma que cada vez que ensaio ver uma correlação em eventos que sei que não tem qualquer conexão me paro e digo não, paranoia não. Meu rol de distúrbios diagnosticados já é suficiente sem ela e eu acho neurose uma palavra mais sonora. Saia daqui otimismo, não posso pensar que algo a noite vai dar certo só porque deu de manhã, fique longe de mim.

Mas enfim, não, paranoia não é o tópico. O tópico começa pelo acúmulo coincidente do mesmo tema.

Eu li hoje as Cartas a Nora, do James Joyce. Acho Joyce algo de maravilhoso porque quando você acha que está no domínio da extrema intelectualidade, do experimento formal hiper racionalizado, da linguagem pura que é dissociada da experiência vivida cotidiana, ele vai e te joga um “de sentir teus lábios chupando-me de te foder entre as maminhas”. Você começa Ulysses achando que jamais vai conseguir ler aquela coisa, que aquilo é pura especulação filosófica avançadíssima e de repente percebe que é só uma gente batendo punheta na praia. As cartas começam parecendo declarações repetidas de um amor ideal, do amor denso, intoxicante, mas etéreo e de repente, na virada de uma página, é tudo sobre o cu da Nora e de como ela tem a fantasia de cagar na frente dele.

Eu gosto desse vai e volta entre o extremo intelectual e fisicalidade bruta. Mas eu gosto mais de como Joyce ancora no corpo feminino esse desejo cru. A Nora que nunca vemos falar, como a Molly, como a personagem em Os Mortos, são seres cujo desejo é forte, pulsante, personagens tomadas pela dimensão física do sexo. E é tão raro a literatura, ou mesmo a história, nos contar de mulheres dominadas pelo próprio desejo.

Homens há vários. Desde Marco Antônio há histórias de homens que colocaram tudo a perder pelo desejo carnal, pela impossibilidade de controlar as ondas de sangue que descem pro pinto. De Tolstoi a Philip Roth temos homens que se arruinam por serem incapazes de resistir a pernas que se abrem na frente deles. Parece razoável, não parece uma construção de personagem clichê, mas muito mais a exploração de um arquétipo, a possibilidade de resistir ao desejo é uma questão tão fundamental quanto a aceitação da mortalidade.

Quantas mulheres a literatura conta que se arruinaram por desejo? Lady Chatterley. E não consigo lembrar de mais nenhuma. Emma Bovary se arruina pelo ideal romântico, pela paixão como um todo, não só pelo sexo. As Brontë jamais colocariam em palavras assim, mas desconfio que Catherine se arraste para Heathcliff por desejo carnal, assim como o apelo de Mr. Rochester é tão sexual que a única escolha possível para vivê-lo em um filme é Michael Fassbender. Ainda assim, Jane Eyre embora magnetizada mantém o domínio sobre si mesma, o desejo não a engole como aos personagens de Henry Miller ou Humbert Humbert. Chip, em The Corrections, é engolido pelo desejo, o Caçula, em Dois Irmãos, o personagem de Marcello Mastroiani em 8 1/2, Portnoy, o protagonista de O Museu da Inocência… todos eles.

As mulheres padecem de amor. Margarida, Aida, Sonia, Marianne, etc, etc. É preciso salvar Tolstoi, Anna Karenina é tomada de algo tão sentimental quanto físico. Ainda assim, não é por sexo que ela se joga embaixo de um trem. E acontece que ela poderia.

As cartas de Joyce se acumularam com um episódio de Game of Thrones em que Varys diz “quando eu vi o que o desejo faz com as pessoas, eu fiquei feliz por não tomar parte dele”. Desejo, mais do que sexo, o momento anterior ao sexo, é possivelmente uma das forças mais poderosas do mundo. É algo que toma, engole, enlouquece, controla o sangue o corpo e é capaz sim de fazer com que alguém se destrua. Mas nas histórias isso só acontece com os homens.

Me incomoda que as mulheres sejam colocadas nesse local em que não é que são capazes de dominar o próprio desejo, mas que não chegam a senti-lo com essa intensidade enlouquecedora. E talvez seja o desejo de mais coisas, o desejo como essa força incontrolável de querer algo que te faz ignorar o custo. Fausto, é o grande exemplo. Lady Macbeth talvez seja a única mulher que deseja com a força de Fausto, ainda assim, ela é mais prudente. Não consigo lembrar de uma história verdadeira de alguma mulher famosa que era publicamente enlouquecida por algum homem. Mas acontece.

E é interessante o tamanho do gênio e da complexidade da estrutura mental do Joyce. As mulheres dele estão fora da curva, elas são depositório de uma sensualidade poderosa, enlouquecida sim. Gosto de como ao escrever para Nora sobre o que quer fazer, ele chame aquilo de sujo, de feio sem que isso acarrete necessariamente em errado. É sujo porque envolve merda, semens, sangue, fluídos, cheiros ruins, gosmas. Amo quando o Pedro-Juan Gutierrez fala que sexo não é pra quem é higiênico. Chamar de higiênico, de limpo, de belo exige que ele caiba em um conjunto de valores do funcional, do bem-organizado, do dirigível. Ele não deveria caber ali, não sempre.

Quando Joyce coloca mulheres absolutamente sexuais e chama suas fantasias de feias e sujas, ele mantém o desejo como esse algo mágico, obscuro, poderoso por escapar a lógica racional cotidiana. Ele se recusa a ignorar a sujeira, ele reconhece a importância do tabu até um certo limite (como o medo, há o medo que impulsiona e o paralisador, dá pra importar a mesma lógica), reconhece a força de dar algo de porco, de animal a Molly Bloom. As mulheres de Joyce perderiam o controle por desejo, em uma narrativa que me incomoda que não aconteça mais vezes.

 

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