Aquela última vodca que eu não devia tomar

Às vezes, muitas vezes, muito mais vezes do que eu gostaria, eu me deparo com a pergunta: por que a auto-sabotagem? Minha, sem dúvidas, o tempo todo. Mas de mais gente. Eu observo ao meu redor repetidas vezes, pessoas que de alguma forma, conscientes ou não, puxam o próprio tapete.

Eu faço isso o tempo todo. Eu sistematicamente explodo cada chance de algo dar certo que me aparece, com toda a consciência do mundo. Toda a consciência do mundo e é isso que mais me perturba. Não é inconsciente, eu não acho que estou fazendo a coisa certa quando estou obviamente indo na direção errada, eu não me engano nem por um segundo, eu sei perfeitamente que estou fazendo aquilo que não deveria, aquilo que vai estragar algo crucial e me jogar de volta para o redemoinho de frustração. Eu só não consigo parar.

Eu não consigo falar o que deveria, ou segurar a frase desgraçada que começa a sair da minha boca. Eu não consigo não me afastar quando deveria chegar perto e não ir atrás quando sei que deveria manter a distância. Eu sei, com toda a clareza possível, que estou deliberadamente estragando algo, mas faço mesmo assim.

Mas eu não sou a única. Eu me lembro do dia em que meu analista (foi abandonado o pobre do analista, foram abandonados os remedinhos para dormir, desconheço auto-sabotagem) me perguntou se eu não queria os caras que não gostavam de mim. Se algo em mim não precisava do desafio, da autoafirmação, do que quer que seja que quando um homem decide não me querer eu preciso dele desesperadamente. Na época, eu não consegui encontrar uma alternativa razoável, embora não conseguisse sentir que fosse realmente assim. É impossível que fosse coincidência, mas essa explicação não me convencia.

Meses depois faz mais sentido pensar que eu saboto cada relacionamento que queria. Mesmo no que nem é um relacionamento, é possível apostar (e ganhar sempre) que vou fazer o oposto daquilo que senti que era necessário. Que vou sumir e me afastar e ignorar ou fazer a psicopata mais interessada do que o necessário ao menor sinal de uma mão que aperta minha cintura significativamente.

Acontece que esse diagnostico de querer o que não se pode ter, quem não se pode ter, não é só meu. É possivelmente uma das reclamações mais comuns em divãs de analista, mesas de bar e cadeiras de manicure. Todo mundo já ouviu a história daquela pessoa que decidia só gostar de quem não queria de volta.

Eu consigo entender porque faço isso. Eu estou acostumada ao ódio e a auto-punição e a parte do meu cérebro que decidiu há muito tempo que I can’t have nice things. Mas é mais que isso. É o medo também. Aquele medo ruim, paralisador. Se você não se deixa ganhar nada, não tem nada a perder.

Se você sabota a coisa no primeiro toque, não corre o risco da dor quando perder. Ou do relacionamento real. Eu aprendi da forma mais dolorosa possível todo o custo pessoal envolvido em se envolver com alguém. Nós fazemos isso o tempo todo achando que é uma aposta baixa, um salto pequeno, e não é. Talvez nossos inconscientes saibam disso.

Talvez ele saibam o tamanho do salto, o preço da aposta e decidam, antes que isso passe pelo nosso ser racional e articulado, que não vale a pena. Ou que não é possível pagar. Talvez eles digam qualquer bobagem, ou digam “volto em dez minutos” para se perder bêbada por aí por três horas, talvez eles não consertem a cagada perfeitamente consertável porque sabem que aquilo não é possível.

Qual o limite da autopreservação? Qual o momento em que vale  a pena tentar superar o medo, freiar a auto-sabotagem? Eu tenho me feito essa pergunta sem parar: como saber o quanto eu posso pagar? Como saber o que eu aguento? O medo que posso tentar superar em segurança?

Não faz muitos meses eu quebrei pelo contato mais ínfimo. Em algo que não foi culpa dele, nem minha, nem dela, nem da situação em si. Era só algo que eu não podia aguentar. E que, como sempre, eu auto-sabotei. Não consigo decidir se foi melhor ou pior assim. Eu quebraria de qualquer forma, ali ou um pouco depois. Foi melhor ter explodido a coisa toda muito no início? É de alguma maneira melhor bagunçar e confundir e jogar fora tudo que tive de encantador e desejável no primeiro momento porque assim termino tudo antes que o contato seja algo mais que um toque furtivo no meio de uma festa?

Valeria a pena ter tentado falar algo apropriado, engatar a conversa fluída que eu sabia que podia, ter agradecido genuinamente, com meu melhor sorriso, a informação de que meu texto era incrível? Ou é melhor assim?

Seres humanos vão contra eles mesmos com uma frequência extraordinária. Roubam de si mesmos aquilo que desejam e eu fico obcecada com o por quê. O tanto em que eu afasto coisas e pessoas de mim é a loucura toda, o ódio e a insegurança toda ou um mecanismo estranhíssimo de autodefesa que me afasta daquilo que não posso bancar? Pessoas que aparentemente se odeiam menos do que seu se auto-sabotam com tanta frequência? Menos? Nunca? A queixa é tão comum quanto me parece?

Roubei de mim mesma momentos que eu queria muito nesse fim de semana. Me recusei a receber elogios e ter conversas que eu gostaria. É curioso isso de quebrar tão profundamente, de sentir tanta dor, o medo extremo de não querer que isso aconteça de novo. E a certeza de que mais cedo ou mais tarde vou ter que pagar pra ver, não sei confiar se há sabedoria na minha auto-sabotagem.

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