Noite passada foi a madrugada mais curta do ano

Em algum momento você me pediu desculpas porque tinha fumado demais, estava com gosto de cigarros. “Não tem problema”, eu disse. Queria ter dito “eu gosto de gosto de cigarros. Gosto ainda mais do gosto de cigarros diferentes dos meus, mais fortes que os meus. Eu gosto de como o cheiro de fumaça mistura com o perfume, nunca mistura da mesma forma, mesmo em homens que usam o mesmo perfume e fumam os mesmos cigarros.”
“Eu gostaria de acreditar em algo, como aquele homem saindo agora da igreja”, você me diz. Eu concordo, eu também. Invejo as pessoas que vejo beijarem as portas das catedrais ortodoxas, invejo os homens que batem a cabeça até sangrar no kotel, invejo esse homem saindo da igreja as 5 da manhã, em uma madrugada gelada do verão em Sarajevo.
Invejo as pessoas menos conformadas com a ordem do mundo. Menos conscientes de que uma madrugada de verão é só uma madrugada de verão. Menos lúcidas e racionais quanto a insignificância das coisas. Pessoas que teriam por 5 segundos achado que valia a pena anotar seu nome inteiro.
Eu não anotei. Mesmo bêbada, vendo o sol nascer nas ruas de uma capital europeia, há um tipo de ilusão que não me permito. “E se nós ficássemos mais uma noite aqui?” Você me pergunta, sem qualquer pingo de seriedade. Eu sorrio, solto da sua mão, examino os furos de bala nas paredes de um prédio, me viro e respondo “e se nós fossemos para o meu quarto agora?”
Drina, você me contou, é o nome de um rio. Também é a marca de cigarros que você fuma quando está na Bósnia. Ivo Andric escreveu um livro chamado a ponte sobre o Drina. Interrompo, comprei um livro dele uma vez, ainda não li, mas não é esse. Esse é realmente muito bom, você me diz, e você costuma ser exigente com as coisas, os livros que lê ou as meninas que beija no meio da rua, então eu deveria confiar.
Rio. Mas não, o que eu comprei se chama “The Damned Yard”, provavelmente porque me lembrou graveyard e tenho uma certa obsessão com cemitérios. Não faz sentido, você diz. Não, não faz, eu sorrio de novo, balanço a cabeça em negação por trás do copo de cerveja e então trago meu próprio cigarro, que é só o último marlboro light de um maço escrito em húngaro.
Você gosta do meu sorriso. Reparou em mim porque eu ria alto no meio da rua e batia palmas como uma criancinha. “You smile like you mean it”. Rio mais ainda, digo que isso é uma música do The Killers. Que banda ruim, você diz, rindo. Concordo, rio de novo. Você não ri tão fácil quanto eu, mas gargalha quando o americano que anda com a gente imita um inglês aristocrata. Eu não consigo dizer porque é tão engraçado, mas nós dois concordamos que é terrivelmente engraçado e não conseguimos parar de rir.
Concordamos também que The Killers é uma banda ruim. Você pergunta se gosto de jazz, não, não gosto, mas ouvi você e o americano falando sobre um bar de jazz e podemos ir. Vamos e no telão tem Tina Turner, voz e cabelão, no auge dos anos 80. Desconfio que o lugar tenha sido um bunker nos anos 90, também desconfio que saímos sem pagar. Você pede uma cerveja preta, diz que preciso experimentar e pede uma pra mim, também pede um copo de rakia. Pergunta se já provei rakia, sim, conto do meu aniversário na Capadócia, de como fiquei amiga do garçom e virei uma dose de raki, que me disseram, é a mesma coisa,
Sim e não. Sim, mas eu preciso provar o desse lugar. Dou um gole do seu copo, é melhor sim. Você se vira e me beija de repente, muito rápido, antes que o gosto da bebida tenha a chance de sair da minha boca. Gosto disso. Quando você faz isso, decido que quero te levar para cama.
Também decido que quero te levar para cama porque é isso que isso é. Sexo. Porque quero mandar mensagens contando como transei com um bósnio, não como passei uma madrugada inteira trocando de bares e me perdendo pelas ruas de Sarajevo até o sol nascer.
Quando fui comprar cigarros hoje vi um maço de drinas. Quase comprei apenas para lembrar do gosto. Percebi que nem te pedi para experimentar um. Seria um gesto inofensivamente poético, comprar cigarros da marca que o moço da noite passada fumava. O que não vou ver de novo e não me permiti, nem por um ínfimo tempo, imaginar que seria diferente.
Quando o sol começou a nascer, você se espantou. O jogo começou meia noite, que horas você achou que seriam? Tempus fugit, você me diz. Time flies, eu traduzo, mais para mim mesma, enquanto estou muito compenetrada lendo sobre o bombardeio a essa rua. E se nós ficássemos mais uma noite em Sarajevo? E se fossemos para o meu quarto agora?

Um maço de marlboro lights, por favor.

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