There’s too much love to go around these days

Há pouco mais de duas semana longe de casa, há nem sei quanto tempo longe daqui, eu começo a querer escrever nos meus postais: “me desculpem, eu fugi”

É uma fuga glamurosa, sem dúvidas. Escrevo isso sentada em um trem italiano e por uma janela vejo campos de trigo, pela outra o Adriático (ou seria o mediterrâneo? Mediterrâneo é meu mar preferido, em parte porque ele não tem a mesma cor dos meus olhos e não me lembra da minha própria inconstância). Mas uma fuga é sempre uma fuga e há sempre um gosto amargo lá no fundo da boca.

Estou feliz, claro. Estou mais feliz do que me lembro de ter estado nos últimos 9 anos.

Não, mentira. Estive tão feliz assim em praias da Turquia e estive tão feliz assim mais perto de casa também, é dessa lembrança que eu fugi.

Eu fui embora porque podia ir, foi fácil ir embora, pouca coisa (para não dizer absolutamente nada) me prendia em casa. Mas eu teria ido mesmo que precisasse revirar tudo e desmontar minha vida. Era isso ou ficar louca.

Ainda não sei se vai me impedir de ficar louca, a razão é algo muito frágil, afinal. Há essa frase em Através de um Espelho que gosto muito “é horrível ver sua própria confusão e entendê-la.” Sylvia Plath, Zelda Fitzgerald, Virginia Woolf falaram disso: pior do que perder a razão é o momento anterior, a consciência muito aguda, perfeitamente clara e lúcida de estar perdendo o controle.

Eu perdi o controle.

Sobre mim mesma, sobre a minha mente, sobre o efeito que os outros tem sobre mim, sobre o que era real ou não.

É como se eu vivesse muito perto das portas do inferno e elas estivessem muito mal fechadas. As vezes eu simplesmente não tenho mais forças e deixo abrir.

No museu Rodin eu vi as portas do inferno. Um milhão de pequenas figuras de bronze torturadas, retorcidas, seus rostos repletos de agonia. Gosto da palavra agonia, acho preciso e interessante o conceito de algo que está em processo de morrer, sentindo a vida se esvair de tal forma que a morte parece uma benção. Uma misericórdia ao menos.

A agonia é pior do que a morte. Pior do que a loucura completa.

Acho irônico quando esses textos surgem, quando eu deixo de lado a ironia e as gracinhas e torno público algo brutalmente honesto. Eu faço tanto esforço para esconder a agonia. Já citei Bergman, então estou liberada para citar Game of Thrones, existe um episódio em que o Tyrion vira para o Jon Snow e o aconselha a vestir a falha como uma armadura. Ninguém nunca vai esquecer quem você é, dói menos se você lembra primeiro.

Eu não posso me livrar do tormento da minha própria cabeça, então eu a visto como uma armadura. Eu faço tipo, eu rio irônica, eu faço um charme de fazer péssimas escolhas e ter uma tendência a pouca autropreservação como se fosse uma escolha. Não é. Eu bebo como se não tivesse medo da minha relação com o álcool. Eu tenho.

Eu fujo pra Europa quando minha vontade era fugir pro fundo do mar. Muito literalmente, mais de uma vez.

Eu fujo sozinha, não passo mais de 5 noites no mesmo lugar, saio de manhã muito cedo sem me despedir. Eu preciso fechar feridas que a proximidade com os outros alimenta. Eu preciso do isolamento para costurar devagar os meus pontos. Pelo menos eu costuro bastante bem, se me dão o tempo.

Eu falei sobre isso aqui já, sobre a tendência que temos de esquecer que cicatrizar é um processo, da mesma forma que eu talvez não deva beber após uma intoxicação alimentar, eu não deveria ter chegado perto antes das coisas fecharem.

Sendo sincera, tenho poucas esperanças de realmente fecha-las, mas se pararem de soltar sangue e pus amarelo repugnante, já é alguma coisa.

Ao mesmo tempo me sinto egoísta, me sinto quase culpada que eu precise me afastar de todo tipo de proximidade, não só daquela que é nociva. There’s too much love to go around this days. Há muito amor, eu nunca consegui agradecer com a sinceridade merecida a todo mundo que realmente foi ser feliz comigo no frio e na chuva.

É por isso que minha vontade é pedir desculpas. Desculpas por não sentir falta, não ainda, por não querer voltar pra casa, embora eu ache que vá. Guardo a pequena possibilidade de não no fundo do meu cérebro como um torturado que guarda um pouco de veneno.

No fundo ele não quer morrer, no fundo eu não quero ir embora assim. Não fugida, não dessa forma. Não como quem se levanta e se veste muito silenciosamente e parte deixando para o outro apenas uma cama ainda quente.

Quando eu for, eu não quero fugir. Há uma tremenda teimosia nessa decisão, a teimosia de prova-los errados e de não ser como ele, não ter tanto medo, não ser tão covarde. Nós somos terrivelmente parecidos, é claro, nós fomos almas gêmeas, mas eu não quero.

Em algum lugar, deuses gregos riem de mim. Moira, eles dizem. O quinhão que me cabe. Se o quinhão que me cabe é fugir, então eu vou apenas rodar e rodar e acabar como Édipo. Cego por ter tentado fugir da própria tragédia.

As vezes acho que quero me consolar da dor transformando-a em tragédia. Outras, creio que todo ser humano é trágico e pego um livro do Philip Roth em busca de confirmação do velho amargurado e misógino. A literatura dele é exatamente sobre isso, o que há de trágico no que é cotidiano e ordinariamente humano.

Pastoral Americana é a tragédia de querer ser normal. Complexo de Portnoy a tragédia (uma tanto engraçada) do desejo.

Me pergunto se estou condenada a um velho detestável e mocinhas que escreveram sobre estar nas raias da loucura.

Depois de pouco mais de duas semanas de fuga, eu sinto o controle voltar. Minhas mãos pararam de tremer, eu parei de chorar de forma convulsiva, eu voltei a dormir, eu diminui os cigarros, eu bebo um pouco menos. Eu fui capaz de dizer para mim mesma que não entraria em pânico e não entrei. Sentir que cérebro e corpo são uma coisa só é uma sensação reconfortante, nunca a subestimem.

Eu falo devagar porque tenho medo das minhas palavras. Eu ainda tenho meu corpo tenso porque tenho medo dele, da determinação em se ferir que ele tem as vezes.

5 comentários

  1. “No museu Rodin eu vi as portas do inferno” fui para o Rodin a pé, partindo do D’Orsay, no caminho parei numa encantadora doceria e me empanturrei com uma deliciosa torta de framboesa acho que o alto nível de açúcar no sangue me privou dessa visão dantesca que você presenciou, mas deixando as brincadeiras de lado, desde que me deparei com “Então eu voltei de Paraty” a leitura de seus textos Isadora, tanto aqui quanto no Posfácio, se tornaram um tipo de vicio incontrolável.

    1. Uau, muito, muito obrigada! A verdade é que o dia que foi ao museu Rodin era um dia agradável também, as portas estão no jardim, perto das três sombras (que aliás, ficam em miniatura no topo das portas)

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