Texto número 212909 sobre voltar para casa

Estou lendo aquele livro do Zambra chamado Formas de Voltar Para Casa. Acho engraçado que depois que comecei a conviver com “gente dos livros” tem umas épocas em que todo mundo parece estar lendo a mesma coisa, em geral algo razoavelmente curto e que acabou de ser lançado e que lemos por curiosidade, recomendação, vontade de falar sobre o livro com alguém.

Tenho na lista os outros dois do Zambra, mas por já ter uma pilha de livros emprestados que preciso devolver, vinha adiando o pedido para as pessoas que sei que os tem. Mas não pude escapar de um livro com esse título. Em primeiro lugar porque é um belo título e em segundo porque não sei voltar para casa e quero desesperadamente aprender.

Há uma frase, que fica bem no topo de uma página e que diz “aprender a contar sua história como se não doesse”. Aprender a contar sua história como se ela fosse mais uma, como se fosse igual a do próximo. Todo mundo dói, todas as famílias tem problemas, toda criança tem traumas. Imagino que tudo isso seja verdade, mas também imagino que algumas famílias sejam piores que as outras e algumas pessoas precisem aprender a contar sua história como se não doesse.

Famílias felizes se parecem. Cada família infeliz é infeliz a sua própria maneira.

A literatura é fascinada com as famílias infelizes. O cinema também. Talvez porque famílias felizes se pareçam. A história de uma família feliz é a história de muitas famílias felizes e dia desses li um jovem escritor em um belo texto no jornal dizer que literatura se faz de sangue, morte e tragédia. Ninguém quer saber do que dar certo. Ninguém quer saber das famílias felizes.

Formas de Voltar Para Casa é, de alguma forma, a história de uma família feliz. Ou a história de como não se conta a história de uma família feliz, mas da família infeliz da casa ao lado. É a história da culpa porque sua família é feliz. Porque na sua família não há mortes, desaparecidos, torturados. E se surpreender porque alguém cuja história contem mortos, desaparecidos e torturados eventualmente te conta sobre tudo isso entre cafés do starbucks, como se nada fosse, como quem conta do playground que brincava na infância, como se não doesse.

Esses dias me peguei, entre um gole de mojito e uma batata frita, contando minha história como se nada fosse. Contando que aos cinco anos me perdi no Louvre e minha mãe levou mais de duas horas para perceber. Contando que casa sempre foi sinônimo de algo que era uma merda e até hoje eu tenho dificuldades para entender que não é. Com meu rosto apoiado na mão, do jeito que sei que faço quando estou muito atenta a alguma coisa, eu o ouvi contar a história dele, que talvez também doesse, mas que ele narrava como se não.

Fico me perguntando quantas vezes na vida fui beijada porque contei minha história como se não doesse e meu interlocutor achou que ela deveria sim doer. Me pergunto quantas vezes na vida fui beijada por dó, por puro carinho, como uma maneira de me agradecer por ter contado aquela história como se ela não doesse. Ou como uma forma de me dizer “calma, vai ficar tudo bem”.

Voltei hoje de manhã para a casa da minha mãe. Volto para ir embora. Entro no meu quarto e percebo que nada mudou desde que saí de casa, 8 anos atrás.

Pompeia é o lugar mais impressionante que já estive. Um dia falei aqui sobre Pompeia, Hiroshima e Ai Weiwei, tempo congelado e memória. Pompeia é impressionante porque ela não decaiu, não morreu como Éfesos, Machu Picchu, ou outras ruínas em que estive, ela simplesmente parou. Em um momento, o tempo congelou.

Me sinto um pouco assim ao entrar no meu quarto. Ali, em janeiro de 2006, o tempo parou. Os livros nas estantes são os mesmos, as fotos nas paredes são as mesmas. Fotos de gente que já não significa mais nada para mim e fotos de gente que ainda significa o mundo. Em uma foto somos tão novinhos, eu estou tão bronzeada, nossos rostos eram menos bonitos, ainda não haviam assumido os traços que assumiriam alguns anos depois.

Olho para foto e vemos que éramos, somos talvez, ambos, muito bonitos. Mas nos nove anos desde essa foto nossos rostos adquiriam um tipo diferente de beleza, nossos olhos se tornaram menos transparentes.

Mas naquele quarto o tempo parou. Naquele quarto meus cabelos batem no ombro e são um loiro escuro e cinzento, uso uma camiseta do Bikini Kill e abraço pessoas que não vejo já nem sei há quanto tempo.

É muito estranho voltar para casa.

Me pergunto por que nunca joguei fora essas fotos, por que minha mãe nunca reformou esse quarto. Vejo mais uma foto, minha prima aos treze anos em um vestido preto de renda, aquele ano em que vimos a guerra. Sento no chão e entendo que voltar para casa é como brincar de quebra-cabeças, que não retiro as fotos ou jogo fora aquele cachorrinho de pelúcia ridículo porque me contam minha própria história. Me contam como eu cheguei aqui. Como meu cabelo deixou de ser loiro de água suja para ser loiro dourado, loiro platinado, ruivo, loiro dourado outra vez; nos ombros, curto, longo, muito longo, muito curto, médio, longo.

Porque são as peças da história que eu conto casualmente enquanto examino o molho em um potinho e provo devagar com a batata frita. Como se aquele molho fosse algo que me importava mais do que o que eu estava dizendo. Peças da história que eu paro de contar para dizer “por que estou falando disso mesmo?”, me lembro e volto a falar de museus de Paris, você sabia que no Pompidou eles expõe filmes? Quase chorei de amor quando vi que tinham La Jetée.

 

 

3 comentários

  1. Bauman escreveu que o sofrimento de um único indivíduo é maior que o sofrimento de todo o mundo, maior que todas as guerras, que todas as fomes, que todas as carências. Acho que o mesmo vale para os problemas de cada um.

    E daí lembrei de uma Virginia Woolf fatal:

    “Não são as catástrofes, assassinatos, mortes, doenças, que nos envelhecem e nos matam; é a forma como as pessoas olham e riem, e apressam os passos para os ônibus.”

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