Já que tenho nome de bailarina

Na Mostra do ano passado, vi um filme grego chamado Todos os Gatos São Brilhantes (melhor nome, sim, eu sei) que era sobre uma moça com um pouco menos de 30 anos, um diploma de artes de uma faculdade importante, mas que não sabia bem o que queria da vida. Não que ela não pudesse ir estudar fora, ou ser indicada pra um trabalho na faculdade ou em alguma galeria pelos pais, professores universitários, ela só não sabia se era isso que queria.

Ela vai flutuando pelo filme, vagando pela vida dela, sendo  babá de um garotinho fofo, encontrando pessoas e desencontrando como se estivesse apenas se deixando levar. Na cena final, que eu procurei no youtube, mas não consegui encontrar, ela está em uma festa e começa a dançar, um pouco tímida, um pouco desconfortável, olhando para fora e tentando entender o que os outros estão fazendo. Até que ela entra por completo em si mesma. Fecha os olhos e balança a cabeça e dança, só dança, sozinha, imersa na música e nela mesma.

Gosto muito desse final e dessa metáfora sobre encontrar seu próprio ritmo.

Me lembra a cena da festa em Azul É a Cor Mais Quente  que resume tudo que eu mais gosto no filme: um espectador da vida, a câmera que observa, silenciosa, a Adele. Eu disse algumas vezes que gosto mais do título francês, La Vie D’Adele, porque resume mais o que é o filme, o estudo, o registro miuncioso e obsessivo, da vida de alguém. Não é sobre a relação das duas moças, é sobre perseguir obsessivamente uma delas.

Eu gosto dessa cena mais do que de todo o resto do filme (que, não me levem a mal, eu gosto muito!) porque resume esse espírito que me interessa muito. Ela está sozinha, em um misto de feliz e desconfortável, sexy, entregue. Consigo imaginar a Adele Exarchopoulos ignorando a câmera, as luzes infernais, o set de filmagem, tudo, e só dançando.

Poucas coisas te permitem um isolamento tão grande do mundo exterior quanto dançar.

Eu faço aulas de dança moderna e enquanto improvisamos, a professora pede diversas vezes para que a gente tome consciência umas das outras ou, ao contrário, para que cada uma se desligue da sala. `As vezes fechamos os olhos e temos que ter consciência do movimento externo. É uma sensação muito estranha de estar presente e ausente, junta e sozinha. Quando ela pede por uma composição, que cada bailarina preste atenção na outra, responda e interaja com a outra, sem perder sua vontade de movimento, eu tenho a sensação que queria meus relacionamentos assim.

Queria meus relacionamentos como aulas de dança moderna em que meu movimento é meu, só meu, expressão do que eu quero, sinto e penso naquele momento, mas ao mesmo tempo preciso olhar para as outras meninas na sala. Às vezes vou em direção a elas, as vezes recuo, respondo, encaro, às vezes rodamos uma em volta da outra, brincamos de seduzir. Tem na aula uma menina que deve ter seus dezessete anos, é alta, magrinha e tem os cabelos muito compridos e eu acho terrivelmente sexy. Imagino que ela nem saiba, que quando ela descobrir talvez se torne menos, mas fico completamente fascinada com a elegância dos movimentos dela, com a entrega, com o mundo só dela em que ela entra quando dança.

Sempre saio das aulas de dança moderna me sentindo também terrivelmente sexy. Algo a ver com a consciência do próprio corpo, com utiliza-lo como expressão, com a busca por uma organicidade. “Vocês tem que ser meio bicho”, não cansa de repetir minha professora. Tenho achado essas aulas a melhor decisão que já tomei, poucas coisas me ensinaram tanto sobre o que é a arte (ouviu bem Argan???)

Domingo fui sozinha ao show do Au Revoir Simone e em algum momento me peguei dançando como Elektra (a protagonista de Todos os Gatos São Brilhantes) ou Adele. Sozinha, jogando meu cabelo de um lado para o outro me importando pouco, na verdade, me importando nada, com tudo que não fosse eu. Foi um dos shows mais felizes, mais adoráveis que já estive. Três meninas lindas, fazendo dancinhas queridas e aquele som um pouco de sonho. O que eu mais gosto em sintetizadores é o som que não parece de verdade, que não vem de nenhum instrumento de “verdade”.

Me lembro quando era criança e tinha aulas de música na escola, uma vez tivemos aulas sobre instrumentos e eu aprendi o que era um sintetizador. As crianças insistiam em dizer que o sintetizador estava imitando algum som: “agora é som de piano/agora de gato/agora de chuva” e a professora dizia “não é som de nada, é som de sintetizador”.

Quero uma banda de synth pop. Quero uma banda de som que não é de verdade e que faça shows onde as pessoas podem balançar a cabeça, dançarem sozinhas e esquecerem que há um mundo em volta.

A entrega da dança é diferente de quando me trancafio em mim mesma. A entrega da dança é entrega mesmo, é como se eu me puxasse pela mão, suave, gentilmente, e me levasse para dentro de mim com suavidade. O eu que encontro na dança é um eu que eu gosto, é um eu que se move com graça, que cria algo interessante, que pode ser olhado sem repulsa. Acho curioso que durante toda a vida, o ballet da infância, o sapateado, o ballet agora, a dança moderna, eu ouço das professoras que tenho leveza. Que posso errar, não ser tecnicamente tão boa, mas que salto sem fazer barulho, que me movo como se não pesasse nada e isso tem pouco a ver com peso corpóreo. Muitas vezes, a professora de moderna me pede para ter peso, porque não tenho.

Nunca quis ter peso, não é mesmo? Vou tatuar uma âncora próxima ao pé para me lembrar de ter, para me lembrar de voltar.

Eu não quero voltar.

Eu estou indo embora em 9 dias. Sozinha. Estou indo ver o mundo, mas mais que isso, estou indo ver a mim mesma. Estou indo passar tanto tempo comigo mesma que não vou ter opção a não ser parar de me odiar. É um tratamento de choque. Não sei se vai dar certo, não sei se posso sair por aí tendo a mesma sensação que quando danço sozinha. Acho tão irônico que eu me odeie tanto e ao mesmo tempo me recuse tanto em perder, queira me agarrar tão fortemente ao que eu sou, quero meu movimento, minha dança, mesmo que ela olhe para o outro, quero que seja minha.

Acho que o arranjo mais delicado do universo, mais que qualquer jogo de moléculas, ou átomos que forme uma nebulosa, é esse entre eu e o outro. Entre minha dança e do outro. É saber que há alguém ali, compondo comigo, mas ser minha mesmo assim. Três anos atrás eu achei que era minha outra vez, mas não era. Estou indo ver se descubro como se faz. Estou indo ver ser aprendo a ser sozinha o suficiente para poder ser com outro.

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