Só se pode quebrar o mesmo braço duas vezes

Parece algo muito óbvio que, quando se remenda algo quebrado, aquilo nunca volta a ser o que era. Eu me lembro quando era criança e um enfeite da minha penteadeira (eu tinha uma penteadeira de princesa quando era criança, ainda não superei a perda dela, me perdoem) caiu no chão e o como eu chorava enquanto minha mãe dizia “não espatifou, é só colar”. Tenho a impressão de que parei de chorar por um minuto, olhei bem para cara dela e disse “continua quebrado”, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

E é, mas a gente se esquece. A gente se esquece muito fácil que mesmo que você conserte, as coisas continuam quebradas.

Eu me lembrei disso porque estava lendo um livro cujo narrador é um menino extremamente inteligente, mas autista. E a mágica de um livro com esse narrador é a absoluta literalidade com que ele vê o mundo e nós, nessa vontade de ser extremamente complexos e querer que nada seja preto no branco, esquecemos. Ele não pode mentir, ou usar metáforas, porque elas são uma forma de mentira. Ele não pode contar mentiras pra ele mesmo. Não pode esquecer que quando uma outra criança rasgou um desenho, mesmo que a professora remende, o desenho segue rasgado.

Eu quebrei meu braço esquerdo duas vezes na infância, se quebra-lo de novo, ele não se calcifica mais. Precisaria tirar um pedaço de osso da perna e colocar no braço porque há um limite na capacidade de recuperação dos ossos. Não tenho ideia se é possível ver algum tipo de linha, rachadura ou falha, caso eu tire um raio-x do braço, chutaria que não. Mas eu não posso esquecer que ele foi quebrado. 15 anos depois e eu ainda preciso me lembrar que meu braço esquerdo não pode mais se quebrar sem que eu passe por uma cirurgia relativamente complicada.

Talvez todas as coisas do mundo tenham um limite de recuperação, não apenas ossos. Mas a gente esquece. A gente esquece que não vai se recuperar pra sempre, que não vai ficar igual era antes, que não pode continuar quebrando o lado de dentro para sempre.

Não consigo imaginar porque meu braço esquerdo pode ser quebrado apenas duas vezes, mas meu cérebro acha que pode levar infinitos golpes e continuar funcionando.

Quase disse “coração partido”, mas não é isso, embora eu goste da expressão. É brega, mas eu gosto, gosto de muitas coisas bregas, o Romeu e Julieta do Baz Luhrmann é a principal delas. É porque não é exatamente uma questão de coração partido, não é exatamente uma questão de amor (ou paixão vai) não correspondido. É se colocar em infinitas situações que você sabe que vão te quebrar e pode ser ter gostado de um cara, mas pode ser tantas outras coisas.

É engraçado, ou irônico de uma forma trágica, que passamos a vida ouvindo, e nos convencendo, de que  não se morre de coração partido. De que passa, recupera, remenda. “It’s not like I’ve been send up to war, there are worse things in this world”*. Mas sanidade mental é um negócio tão frágil e conheço gente que foi mandado para guerra e também teve o coração partido e eu não sei qual das duas coisas o quebrou irremediavelmente. Se a guerra, ou o amor, ou tudo que veio antes ou tudo que veio antes que precisou mandá-lo para a guerra.

Nós vivemos nos convencendo que os golpes não são tão violentos assim, que é possível continuar, passar por cima, recuperar. Mas os remendos vão acumulando e eles são remendos, nada volta a ser o que era. E eu não quero dizer com isso que realmente se morra de coração partido, mas que é uma atenção válida, uma percepção que deveríamos ter com mais frequência, esse de que sempre é possível ver a linha de remendo.

E entender que algumas coisas talvez só façam sentido se forem perfeitas.

Me lembro também de algum projeto de artes que envolvia fazer muitos círculos e da professora me ensinando a usar o compasso e dizendo que eu não poderia parar a volta, ou retirar o grafite do papel porque senão o círculo não seria perfeito. Eu jamais conseguiria emendar de um jeito imperceptível, era preciso que não tivesse um ponto de interrupção, ou não funcionaria.

Enquanto estou as voltas com uma das coisas mais importantes que já fiz, me pergunto muito se não há um conserto que eu queria tentar fazer. Um remendo que talvez valesse a pena, mesmo que eu pudesse ver a rachadura, mesmo que não fosse como antes, mesmo que não pudesse ser quebrado uma segunda vez porque já alcançamos o limite da recuperação.

A resposta a que tenho chegado é: não.

Há muito tempo, nós estávamos em um ônibus que cruzava um país em guerra e ele me disse que achava uma pena as crianças que cresciam ali, dos dois lados. Porque era importante saber que o mundo era um lugar defeituoso, quebrado, imperfeito, mas era necessários aqueles anos antes disso em que se acredita que as coisas fazem sentido e são perfeitas e tudo funciona. Como se aquelas crianças nem tivessem a chance de uma perda da inocência.

Eu estava olhando pela janela e não me virei para dizer que tinha sido a mesma coisa com a gente, de alguma maneira. Nem eu, nem ele, por motivos que são diferentes de crescer em um país em guerra, tivemos a ilusão de que as coisas estavam perfeitas, de que não existia dor. Algo sempre faltou e eu me pergunto se sua cota de consertos diminui porque você nunca imaginou que as coisas poderiam ser perfeitas.

Não lembro se ele realmente tocou meu cabelo ou só estou completando com o que era um hábito nessas horas. Uma vez ele também me disse que chegaria o dia em que eu não precisaria mais dele e eu não disse que era uma bobagem, eu acreditei, eu também achava isso. Na época eu era mais otimista.

Tem coisas que só fazem sentido se são tudo que você conheceu de perfeição na vida. Tudo que você conheceu de amor incondicional e cuidado e colo e casa. Talvez seja como crescer. Como sair da casa dos pais. Se eu deixo cair uma daquelas taças de cristal tcheco finíssimo que existem na casa da minha mãe, faz algum sentido tentar cola-la? Supondo que quando ela caiu não tenha se espatifado em pedaços impossíveis de se juntar.

Entender que nem tudo pode ser consertado me parece uma lembrança que falta a quase todo mundo, quase o tempo todo. É claro que você pode tentar colar, mas continua quebrado. E `as vezes não faz sentido.

 

https://www.youtube.com/watch?v=K3xIib0VE_4

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