Fausto aprendeu no que dá querer demais

Não precisa de um passeio muito longo pela literatura pra perceber que nós estamos constantemente sendo punidos por querer demais. Prometeu, Fausto, alguém do Shakespeare que eu suspeito seja Macbeth (desculpa, meu repertório de Shakespeare é um negócio BEM falho, pretendo resolver algum dia), Raskolnikóv, até o Swede em Pastoral Americana.

Digo até o Swede porque parece que mesmo em um universo completamente aleatório, dominado pelo acaso que é um animal cruel (já falei disso aqui) se é punido por querer demais. Ele quis ser americano, ao invés de judeu, o que é um passo maior que as pernas, mas possível. Mas ele não quis apenas ser americano, quis ser a América de certa forma e daí a tragédia é inevitável.

A maior lição do personagem, e uma das melhores passagens da literatura contemporânea, é que a vida não faz sentido. Mas ainda assim, será que toda a tragédia ali é aleatória mesmo? Sem nenhuma conexão com o que ele quis, quem ele é, com o fato de ele querer demais?

Nós queremos relacionamentos que deem certo com alguém por quem sejamos perdidamente apaixonados. Queremos empregos que não sejam detestáveis e queremos um milhão de outras coisas como roupas, móveis, viagens, etc, etc, então tem que pagar bem também. Eu quero ler todos os livros, ver todos os filmes, assistir todas as séries, escrever todo dia, uma indicação de publicação pro mestrado, um doutorado em Paris, uma passagem pra Índia e ter minhas unhas feitas.

Eu quero ser amada por pessoas e quero ir embora. Tudo ao mesmo tempo. Como se fosse possível.

Eu quero laços e quero a liberdade suprema da ausência deles. Eu quero ir e quero estar aqui, eu quero o mundo todo e ainda quero pessoas em volta de mim. Não dá, ou se ganha o mundo e se perde o aqui, ou ao contrário. Eu estou em um caminho bem claro de ser punida por querer demais.

Eu me assusto muito cada vez que quero algo. Deve ser algum tipo de culpa judaica bizarra ou só minha cabeça um pouco defeituosa, mas eu tenho muito medo quando quero algo porque meu instinto é dizer a mim mesma que não mereço. Que não posso ter. Que a existência é só essa condenação de desejar coisas, eternamente.

Acho que algum filósofo grego comparou homens com cavalos com a cenoura na frente. Schopenhauer (rolou um google pra saber como escreve, um beijo pra acadêmica disléxica) falou muitas coisas, muito deprimentes, sobre ser escravo da própria vontade. Eu tenho pouca tendência a achar que devemos para de desejar, não me atrai em nada a ideia de que algum tipo de felicidade possa estar na ausência de coisas, não gosto da ideia de equilíbrio, meio termo. Sou mais fatalista que isso: acho que estamos condenados a desejar coisas, sempre, a querer demais e sofrer por isso.

E querer coisas e querer mais coisas assim que conseguimos essas primeiras. Lembro daquele moço que eu saia que gostava de dizer que todo objetivo é ouro de tolo porque uma vez que você chega lá passa a querer outra coisa. Achava isso extremamente sábio da parte dele, que sempre me pareceu ao mesmo tempo em paz e atormentado com o fato de que ele também queria demais.

Eu não sei se tenho mais medo de conseguir o que quero ou de não conseguir. Não sei se meu medo é pura e simplesmente da intensidade com que quero as coisas, quando quero. É engraçado que eu já ganhei algumas vezes a interpretação de ser fria, ou distante, ou pouco interessada em sentimentos por conta desses anos solteira. Ao contrário, acho, eu acabo querendo tanto e me apaixonando tanto e ao mesmo tempo eu quero tanto a mim mesma, ao mundo que não se pode querer tanto duas duas coisas sem enlouquecer.

Talvez não se possa querer nada nesse tanto sem enlouquecer.

Tem aquela frase da Sylvia Plath também que diz que quando queremos desesperadamente coisas demais, estamos muito próximos de não querer nada. Talvez. Acho que faz algum sentido. Isso de querer tudo, querer o mundo, querer todas as coisas é só uma forma de lidar com esse desejo todo quando não se quer nada, especificamente. Eu detesto a maneira como me sinto esvaziada quando passo a querer demais uma mesma coisa, eu detesto quando esse querer todo se concentra em alguma coisa. Detesto e tenho medo.

Querer alguma coisa, uma coisa real e concreta e possível de ser apontada, é arriscar perder. Eu tenho dificuldades enormes de admitir, pra mim mesma, o quanto quero algumas coisas, o quanto não ter pode puxar meu tapete, eu detesto olhar de frente quando essa intensidade de querer se transforma na intensidade da dor de não ter. Provavelmente por essa certeza de que não posso ter o que quero, ou por medo de ter e não ser aquilo, não estar satisfeita.

Eu passei anos querendo algo, alguém, achando que as coisas fariam mais sentido, eu faria mais sentido, uma vez que conseguisse. E quando eu consegui já não fazia mais sentido, nenhum, eu já não queria aquilo. E de alguém que tinha metade eu passei a ser alguém que não tem nada. Já perdi muita coisa nessa vida, nada nunca doeu como isso, nenhuma dor nunca foi tão quieta e tão persistente, nunca houve uma falta mais torturante.

Então melhor não querer nada.

Querer algo e fazer coisas a respeito disso requer um mínimo de fé que se vai conseguir. Quando a Capes me faz aquela pergunta muito idiota de por que eu mereço uma bolsa, eu só posso responder se achar, pelo menos um pouco, que mereço. Acho razoavelmente possível quando sou capaz de listar critérios objetivos, sou completamente incapaz quando preciso dar um salto de fé em mim mesma.

Por exemplo, quando se quer uma outra pessoa. Ir atrás requer um mínimo de fé que algo em você é interessante, desejável, que é possível querer estar com você. Kierkegaard que me perdoe, mas tenho achado mais fácil saltar na fé em deus do que acreditar nisso. E eu definitivamente não acredito em deus.

Talvez eu tenha lido literatura demais e tenha aprendido muito bem que sempre se é punido por querer demais. Eu certamente li livros do Philip Roth o suficiente para saber o quanto somos escravos do desejo e o quanto a verdadeira comunhão humana é impossível. Bergman pode até dizer o contrário, eu posso até ter escrito todo um mestrado sobre saltar no outro independente de garantias, mas isso é muito mais uma versão da coisa que eu quero comprar, mas não consigo. Mais do que qualquer desejo, querer uma outra pessoa vai inevitavelmente atrair uma punição.

Falei ali em cima que tenho muito pouco interesse por quem vem dizer que abandonar vontades ou achar uma espécie de equilíbrio no desapego gera felicidade. Não acho, mesmo, sou daquelas que acredita em intensidades, em sofrer muito e ser muito feliz por espaços curtos. Mas nem sempre é uma aposta que se pode bancar, eu acho cada vez mais que não posso. Que preferia não querer absolutamente nada e a abrir mão dos dois lados da moeda, preferia a imagem de distante e inatingível que de vez em quando fazem de mim. Eu queria mesmo partir corações sem remorso como as vezes acham que eu faço. E eu queria realmente parar de partir o meu.

E não só com pessoas. Com textos, com tudo. Com a pessoa que eu sou. Eu queria realmente parar de atrair a fúria do universo sem sentido para mim porque quero demais. Mas eu li literatura suficiente pra saber que isso é impossível.

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