Sobre uma metáfora estranha entre estrelas e obsessões

Não sei por que, como, por que motivo ou alinhamento cósmico, enquanto alimentava um câncer de pele  tomava sol estendida na areia nesse feriado, me lembrei que, há dois anos atrás, eu estava naquele primeiro Lollapalooza, aquele que teve Foo Fighters.

Foo Fighters foi um show que eu esperei. Um show de uma banda que eu já não ouvia muito naquela época, já não ouço tanto hoje em dia, mas que era importante, por causa de outros tempos, outras histórias, outra vida. Foi um show que me fez feliz e que me fez sair dali para encontrar alguém que entendia, entendia a importância de tudo aquilo, a felicidade, a nossa obsessão com aquela banda e aquelas músicas e as bandas e as músicas em si.

Eu acho que um bom jeito de conhecer uma pessoa seria traçar um mapa das suas obsessões.

Nós todos somos um pouco obcecados com alguma coisa. Não necessariamente obcecados de um jeito doentio personagem de filme do Aronofsky, mas todos nós temos qualquer coisa que desperta uma paixão teoricamente não proporcional ao que é.

A música foi assim para mim por muito tempo. A minha versão adolescente abarrotava o quarto de cds e esperava por downloads que demoravam dias de bandas de hardcore da Armênia. Eu tinha orgulho, de um jeito nojentinho porém simpático meio Alta Fidelidade, de ter um ipod bem mais cheio que a maioria dos meus amigos, mas não todos. Tinha aqueles dois ou três obcecados que compartilhavam o mesmo tipo de obsessão. Tinha ele, que compartilhava o mesmo tipo de obsessão.

O tempo passa, nossas obsessões mudam, eu troquei a música pelo cinema e as bandas de hardcore da armênia por filmes da nouvelle vague tcheca, mas ainda assim, me parece um movimento profundamente importante esse de aceitar, entender, abraçar, as paixões irracionais do outro.

(a frase anterior foi possivelmente um pleonasmo, porém se eu sair falando disso vai ser todo um outro post e deixa pra depois até porque ideias estão raras preciso fracionar a coisa pra manter o blog andando)

Eu tive um namorado por muitos anos. Dito cujo namorado já foi citado aqui algumas vezes como um grande erro. De fato foi e às vezes eu me pergunto por que não consigo parar de falar nele, meio que deveria parar de falar nele antes que um processo por difamação (calúnia não porque nada é mentira) chegue aqui em casa. Por sorte tenho muitos amigos advogados, tenho até uns casos por aí que acho que só cultivo para ter advogados que posso pagar com o corpo. ESQUECE, VAMOS VOLTAR AO ASSUNTO DO POST.

Enfim, dito cujo namorado que foi um erro aparece aqui com frequência porque erros são muito bons para te fazer pensar sobre alguma coisa. Não naquela história clichê de “ai, você aprende com os erros”. Aprende bosta nenhuma tá? Estou aqui, fielmente cometendo os mesmos erros repetidamente sem nenhuma sabedoria para me impedir, porém, sempre se pode parar para pensar sobre eles e fazer um texto pseudo engraçadinho como forma de achar que o erro não foi tão em vão quanto parece.

(minha ironia está com fogo no rabo hoje, perdoem as piadas cretinas, voltaremos a programação normal de melancolia no próximo post)

Me pergunto quantos textos sobre o ex namorado preciso escrever para parar de sentir que desperdicei quatro anos.

Tenho esse gosto muito amargo de anos perdidos, de tempo desperdiçado quando ele passa tão rápido. Não é porque acabou (imaginem se eu começo a achar que desperdicei todo tempo que passo em relacionamentos que acabam? só imaginem!), nem porque acabou mal, mas porque, enquanto ainda não tinha acabado, ele não conseguia abraçar minhas obsessões.

Ele nunca conseguiria entender porque estar naquela plateia do Foo Fighters era tão importante para mim. Ele nunca conseguiu, e mais do que isso, nunca quis, entender as caixas de cd que na época eu ainda carregava de um apartamento para o outro. Enquanto eu estive com ele, eu parei de ouvir música. Não parei, parei, mas parei de descobrir coisas novas, de investigar, de saber o que acontecia. Eu não fui a um show do Smashing Pumpkins que, mesmo sabendo que era só o Billy Corgan e uns caras aleatórios, queria muito ir; quase não fui ao show do Radiohead.

Não fui porque cada ingresso comprado requeria que eu me explicasse, que eu tentasse expressar porque aquela experiência era válida, porque eu “podia” ir em shows, porque aquilo não era uma simples expressão do culto burguês mercantil da personalidade (eu JURO que esse termo foi usado, provavelmente desse jeitinho mesmo). E é algo muito exaustivo e muito violento tentar explicar suas obsessões.

É violento porque é quase como uma justificativa de quem você é. Tentar explicar racionalmente uma obsessão é tentar fazer seu ser caber em explicações de causa e efeito que respondam a um conceito abstrato. Eu passei anos fazendo isso e não recomendo nem a esse mesmo ex namorado.

É possível conhecer alguém pelo mapa das coisas que a fazem feliz sem motivo, que a fazem começar a falar sem parar quando outros nem imaginavam que havia tanto a se dizer.

Eu passei a preferir os confessadamente obcecados.

É uma investigação interessante essa das obsessões. Por que Bergman? Por que Sylvia Plath? Por que Nine Inch Nails? Por que Pollock? Eu não sei responder para mim mesma, mas tenho uma vaga ideia, uma intuição. Eu consigo intuir algo dos outros quando eles me contam as coisas pelas quais são obcecados. É quase como montar constelações.

Gosto tanto de constelações que penso em tatuar uma.

Mas é quase como pegar pequenos fragmentos do que nos move e tentar ligar os pontos, formar uma imagem, dar algum significado. Uma obsessão é significativa porque fala a uma parcela instintiva, ela te pega pela mão e leva sem que isso passe pelo cérebro, sem que você saiba dizer por que aquilo te fascina tanto.

Fascinar é uma das minhas palavras preferidas, justamente porque diz respeito a algo que não se pode explicar, uma atração de uma ordem estranha, meio mágica, meio onírica. E tudo que atrai alguém como mágica, como sonho, deve dizer muito a respeito dele.

Eu gosto de conhecer as pessoas. De montar esses quebra-cabeças com o que elas me mostram. Acho que uma das minhas fases preferidas de relacionamentos é aquele início muito início em que as conversas ainda não tem fim porque estamos brincando de dar ao outros as estrelas da constelação. Justamente por isso é tão dolorido quando essas estrelas não são aceitas.

É profunda a dor de de dar peças a alguém e as ter devolvidas. Não, isso não serve, essas coisas que você ama não servem, você não serve. Não quero discorrer sobre o porque de alguém continuar com alguém mesmo depois de devolver tudo aquilo que o forma, tenho hipóteses, mas não me interessa falar sobre isso agora. Mas das poucas decisões confiáveis da minha vida, uma é essa:permanecer onde possam estar minhas obsessões.

 

 

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