Pj Harvey, eu queria ser você

I was born in the desert
I been down for years
Jesus, come closer
I think my time is near

And I’ve traveled over
Dry earth and floods
Hell and high water
To bring you my love

Houve um tempo em que eu fui muito obcecada com a PJ Harvey. Acho que ela foi um pouco minha transição do punk rock/hardcore para coisas um pouquinho mais elaboradas e um pouco mais leves, o meio do caminho entre Sex Pistols e Fiona Apple. Ela era barulhenta, desesperada, sexy de um jeito cru, violento, e tudo isso, por um bom tempo, me atraiu incontrolavelmente.

Eventualmente a obsessão passou, embora ainda seja das minhas cantoras preferidas, mas algo nela me fascina muito até hoje: a capacidade de expressar tanto desejo, de se colocar inteira ali como ser que quer, desesperadamente.

C’Mon Billy, por exemplo, implora tanto, mas tanto, de uma forma tão absoluta, tão entregue, para que o homem volte. Ou Oh My Lover em que ela vai dizer “you can love me and you can love her at the same time” e Send His Love To Me. São muitas músicas em que tudo que ela quer é alguém de volta.

Me fascina porque eu sou incapaz de chamar um cara para o cinema. Não é timidez, nem falta de traquejo social (embora eu seja sim bem socially awkward), é só absoluta incapacidade de me colocar em um lugar vulnerável, uma fobia irracional de ser aquela que quer e não pode ter, de dar a carta de que me importo.

Se eu me importo, eu sofro.

Vejam bem, eu não demonstrar não quer dizer que eu não queira. Eu não demonstrar não quer dizer que eu não acabe chorando durante todo um jantar no PJ Clarks em que um conhecido estava na mesa ao lado só porque tinha perdido alguém (pelo menos eu reconheço todo o ridículo dessa história, não é mesmo?). Mas no meu cérebro doentio algo diz que se eu não abrir a brecha, se eu não assumir que me importo, então talvez isso não seja de verdade.

O meu maior desejo era conseguir, afinal e realmente, ser fria, gelada, distante. Eu não quero, não me importo, não sinto mais nada.

Tenho falhado terrivelmente nesse objetivo.

E daí eu me encanto com a Pj Harvey que é o oposto disso. As metáforas dela todas tem a ver com fogo, inferno, deserto. Ela rasteja no chão, se contorce de desejo, se expõe inteira e deseja. Eu fico maravilhada com alguém que escreve letras, constrói músicas e canta de um jeito que é todo exposição, todo entrega, como quem arranca a própria pele para se dar para o outro.

E não é que eu não me exponha. Vamos parar um minuto e clicar naquela categoria ali do lado chamada “overshare”. Eu me exponho, muito, mas é diferente. Cada texto aqui que é um overshare enorme ganha ares de metáfora, uma reflexão sobre um assunto qualquer e mais que tudo, eu não peço, eu nunca peço. Nem no simples pedir concreto nem nos textos. Tem muita dor exposta aqui, muita quebra, jamais desejo.

Eu gostaria de conseguir assumir um pouco disso, formalmente eu gostaria dessa visceralidade, dessa coisa carnal, impulsiva, menos limpa, menos poética. Desse exposição que parece mais suja de sangue e ossos, que é atirada na cara daquele que ouço. Eu gostaria que a minha escrita tivesse esse tipo de força. Eu gostaria que ela fosse uma escrita menos do que eu já perdi e mais do que eu ainda quero.

Eu gostaria de ser capaz de assumir tudo que eu ainda quero.

Eu não gosto nenhum pouco na verdade dessa imagem de rainha do gelo. No meu desespero e no meu cansaço eu desejo muitas vezes não sentir mais nada, não querer, não me afetar, mas no fundo eu detesto a ideia.

Parte de mim anda muito cansada de se dizer o tempo todo que sentir é errado, que querer é errado, que eu estou sendo ridícula cada vez que permito me apegar um pouquinho.

(Não que as estatísticas dos tempos recentes não confirmem a ideia de que é ridículo sim)

Uma parte de mim gostaria de parar de pedir desculpas por se envolver. Parte de mim queria ser capaz de ser Pj Harvey dizendo “I can’t belive that live is so complex, when I just wanna sit here and watch you undress”. Simples, simples expressão de que quero sim, sofro sim, não sou essa pedra de gelo que quero tanto parecer ser.

Acho que o que mais me encanta na Pj Harvey não é apenas esse desejo louco e desesperado e a coragem em expressa-lo, mas o como isso, ao mesmo tempo que a torna tão obviamente vulnerável, não faz dela a vítima. O desejo, mesmo não correspondido, é ativo, é dela. Mesmo o sofrimento absurdo por alguém que não está, a confissão de que se faria de tudo para que ele voltasse não há torna ridícula.

Acho que tem algo de trágico ali. Algo de defeito trágico no desejo da Pj Harvey, sabe, como todo herói de tragédia grega tem uma falha que inescapavelmente o destrói. Ela se auto-destrói no tanto que deseja e isso de certa forma a descola do outro. Ela existe sem ele, ela existe em sua dor e vontade e sacrifício. Há uma espécie de força nesse rastejar todo.

Não tenho certeza se o último parágrafo fez algum sentido.

Mas eu admiro, e invejo, a coragem de quem rasteja no chão e se expõe no risco de não ser correspondida. Eu não consigo. Eu recolho bloquinhos de gelo enquanto queria mesmo rastejar em areia do deserto. Rastejamos hoje na aula de dança moderna, achei poucas coisas que já fiz na vida tão sensuais quanto rolar no chão, andar como um gato e sentir o peso do meu corpo estirado, mole, se movimentando de uma forma muito lânguida, nessa ideia de estar toda em contato com uma espécie de terra (chão de tacos de madeira, mas enfim né). Às vezes noto o quanto tenho retirado o calor do meu rosto, o quanto assumo uma beleza de princesa das neves, fria, inatingível. É mais desejável a pessoa que deseja, há uma energia sexual imensa na PJ Harvey que implora, há vida.

Nessa busca por ser inatingível eu mato muita coisa, eu arranco muito do que é vivo em mim.

Não queria, não queria a proteção que vem as custas dessa morte. Não queria essa segurança que é Admirável Mundo Novo, essa ideia de que é melhor ficar mais ou menos bem o tempo todo do que arriscar sofrer. Aquele discurso, “I want laughter, I want real sin” é uma das minhas partes preferidas da literatura.

E nem é como se eu estivesse bem, para começar.

Talvez eu preferisse passar a sofrer de desejo, essa dor que sangra de verdade, sangue quente e vivo, do que pelo que não pode ser e só faz necrosar partes minhas que eu ainda quero.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s