In the suburbs I learned to drive

And show her some beauty
Before all this damage is done

Tenho alguém que me diz que, de todas as coisas que poderiam dizer muito sobre mim, o fato de minhas duas bandas favoritas serem Belle and Sebastian e Nine Inch Nails é a maior delas. Eu dava risada, bagunçava o cabelo dele e disfarçava que eu sabia muito bem o quanto isso era verdade e que ele havia voltado para minha vida no show de uma banda que parecia “Nine Inch Nails meets Belle and Sebastian” só para sair de novo.

Eu sempre pude entender, e explicar, porque Belle and Sebastian. Porque algo que parece fofo, mas é terrivelmente melancólico, as letras sobre tédio, desajuste e sobre saber que no fundo não se morre de amor, há coisas piores, há dores piores. Eu sempre pude ler as letras das músicas e me sentir exatamente como um personagem nelas. É como aquele amor pela pessoa que tem gostos em comum, que você pode explicar o que ama nela, porque se apaixonou.

Nine Inch Nails é diferente. É a banda que eu escolheria se precisasse escolher apenas uma banda favorita, embora existam algumas coisas que eu ouça com mais frequência. Eu não consigo viver de ouvir o The Downward Spiral, nem mesmo o The Fragile o tempo todo, como talvez eu não conseguisse viver com o cara pelo qual eu fui desesperadamente apaixonada, porque tudo era tão envolvente que era tóxico demais.

Mas nesse fim de semana, vendo o show deles de novo, depois de dez anos, algo fez muito sentido. Nine Inch Nails não é minha banda preferida por qualquer motivo articulável ou explicável, mas porque o Trent Reznor transforma em som o barulho dentro da minha cabeça.

Não é algo agradável de se perceber, nem uma resposta que eu estivesse ativamente buscando. Eu só estava ali, no alto de uma colina, ao mesmo tempo feliz e angustiada como nunca (porque se você está apenas feliz em um show do NIN supondo que esteja fazendo errado) em um dos momentos entre as músicas em que tudo era barulho, estranho, esquizofrênico, claustrofóbico, e eu percebi. March of the Pigs é como viver dentro da minha cabeça.

Se não é uma percepção exatamente desejável, há algo muito reconfortante nisso. Há algo de um acolhimento enorme em se perceber que alguém pode fazer algo que traduz perfeitamente a experiência de ser você. Você não está sozinha. Não é assim tão defeituosa, quebrada, incompreensível quanto querem te fazer acreditar que é. Mais do que tudo: você não está sozinha. Sei que repito, mas não sei se conseguirei algum dia expressar o como me sinto quando percebo que não estou sozinha.

E talvez seja esse um dos grandes motivos porque somos tão atraídos pela música, ou pelo menos pelo qual eu sou tão atraída pela música: é um jeito de perceber que não estamos sozinhos.

Eu gostaria muito que a Lorde existisse quando eu tinha dezessete anos. Eu gostaria demais de um álbum que é tanto sobre tédio e matar o tédio em outra pessoa e a sensação de estar esperando para que sua vida aconteça. Eu não tenho dezessete anos há muito tempo, mas ainda há algo nas letras dela que me transporta de volta, que me lembra daquele tédio gigante, onipresente, dominador. Acho que poucas experiências da minha vida foram tão formadoras quanto aquele tédio e eu gostaria muito de não ter estado sozinha.

Tenho pelo The Suburbs o mesmo amor da experiência compartilhada de tédio. Do tédio olhado para trás, anos a frente, quando nos tornamos outras pessoas e declaramos guerra ao passado, aos subúrbios, ao tédio. “They told us we’d never survive” e não sobrevivemos mesmo. Nem juntos, nem separados.

No show o Win Butler disse que The Suburbs, e possivelmente todas as músicas deles, são sobre saudades. Entendo, sempre achei que eram mesmo, sempre senti essa saudades agridoce de algo que não foi bom, mas que hoje por qualquer motivo há saudades. Tenho saudades dele, tenho saudades do vento no meu cabelo quando descia ladeiras de bicicleta, tenho saudades do sol de fim de tarde na beira da piscina em verões infinitos. Mais que tudo tenho saudades de quando eu ainda achava que as coisas poderiam fazer sentido.

Ouvir The Suburbs, poder não ter limites ao gritar “when the first bombs fell we were already bored” foi uma das melhores experiências da minha vida. Ao contrário da noite anterior, no show do Arcade Fire eu estava apenas feliz, porque não era como um mergulho no ruído do meu cérebro, mas como um abraço de alguém que por dez anos vem cantando essa coisa extremamente amarga e linda e doce e sofrida que foi virar adulta. Em mais dias do que eu gostaria eu penso que deveria tatuar “businessmen drink my blood like the kids in art school said they would” na minha testa, só pra não esquecer do quanto é verdadeiro.

Eu não acho que algum dia, nesses 25 anos, estive tão feliz quanto naquela uma hora e meia. Não acho mesmo. Não acho que estive tão em paz, não acho que realmente já tinha parado de desejar estar na Índia, na Tailândia, em Roma. Ontem a noite, nenhum lugar do mundo era melhor do que a plateia do Arcade Fire. Nesse fim de semana, nenhum lugar foi melhor do que aqueles palcos. Em nenhum outro lugar eu veria o Trent Reznor, ou daria pulinhos felizes em um gramado ensolarado cercada de gente amada. Em nenhum outro lugar eu teria vontade de chorar da pura felicidade daquelas músicas.

Eu não conseguiria, e nem quero, explicar porque nunca na vida fui tão feliz quanto ali. Eu não conseguiria explicar porque eu percebi que NIN é como o som na minha cabeça. Quando eu saí do Nine Inch Nails eu me sentia tão realizada que fiquei por algum tempo pensando se haveria um texto enorme ou se eu simplesmente não diria nada. Acabei optando por um texto só, para tudo, para todo o fim de semana, pelo meu coração partido em Hurt e o sorriso que eu não conseguia conter em Wake Up.

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