No limite das coisas

Um dos comentaristas do Bergman que eu li dizia que, no início de O Sétimo Selo nós estávamos claramente no limite de algo enorme. A divisão clara entre céu e mar, a fotografia contrastada e a narração afirmando que o sétimo selo havia sido aberto.

Não me interessa muito falar de Bergman aqui, agora, mas gosto da expressão que o autor usa “we’re on the very edge of things”. Gosto dessa palavra, “edge”, nunca consegui traduzir de uma forma apropriada. Limite, ponta, beirada. Como quem se debruça no precipício e olha o que tem lá embaixo.

É uma sensação muito estranha essa de estar na beirada das coisas.

Estranha de um jeito bom, eu diria, acho. Mas honestamente não sei, não tenho certeza.

Eu entreguei a dissertação. Eu escrevi 90 páginas sobre um assunto e agora estou aqui esperando virar mestra. Eu não fiquei especialmente feliz de me formar. Aliviada, sim. Feliz de mudar de ares, mudar de vida. Mas só. Eu nunca duvidei que conseguiria, eu não fiz nada do qual me orgulhasse profundamente para me formar. Foi difícil, mas não sugou cada pensamento original que havia dentro de mim.

Fazer um mestrado foi diferente. Eu duvidei muitas vezes. Mais vezes do que o contrário, eu achei que não seria capaz. É uma constância que eu não tenho, um senso de responsabilidade que me falta e articular meu conhecimento em algo vagamente inédito. É criar uma coisa. Se você lê esse blog há pelo menos dois posts sabe o quanto eu não me sinto em nada segura das coisas que podem sair de dentro de mim.

Mas algo saiu e eu entreguei. Nunca estive na beira de algo assim. Não fiquei especialmente feliz quando passei no vestibular, quando formei, quando entrei no mestrado. Nada disso requeria algo que eu me sentia tão insegura de fazer. Mas ter sobrevivido a minha própria formação enquanto “intelectual”, ter escrito 90 páginas que não saíram de outro lugar além da minha cabeça, foi me levar mais longe do que achei que poderia.

Eu deveria ter pensado nisso antes. Eu deveria saber disso antes. Se eu soubesse, acho que não teria começado. Se eu tivesse imaginado o quanto isso me custaria emocionalmente talvez eu tivesse optado por outro caminho. Outro tema ao menos. Um que não fosse tão meu. Não consigo decidir se foi bom que eu não sabia.

A filosofia barata diria “mas que ótimo que você não sabia, foi e fez algo que achou que não seria capaz, mas conseguiu”. Mas há um preço. Eu não gosto nunca de esquecer o preço das coisas. Eu certamente consegui, eu certamente escrevi 90 páginas e defenderei essa coisa e vou virar mestre. E algumas pessoas me verão na noite desse dia e nunca, na vida delas, terão me visto assim. Mas do lado de dentro eu tenho um campo de batalha.

Eu conheço alguém que foi a guerra. E minha impressão foi a de que ele nunca voltou, embora te diria que não se arrepende. Não se arrepende, mas não voltou. Eu não me arrependo de tudo que tive que matar para conseguir lidar com isso, mas eu não voltei também. Ainda não.

Tenho dito que me sinto completamente vazia e não sei se consegui ser entendida. Não sobrou nada dentro de mim. Nenhuma capacidade de pensar, nenhuma palavra, nenhuma força para lidar com coisas que eu não consigo lidar. Mal sobrou capacidade de estar contente, embora eu me sinta na beirada de estar.

Matei o lado de dentro fisicamente também. Tusso, minhas costas doem, meu estômago dói, eu passo 70% do tempo achando que vou vomitar. Por duas semanas eu dormi menos de 4 horas por noite e me alimentei basicamente de café, torradas e marlboro light. Eu não poderia ter feito de outro jeito. Eu não poderia ter ignorado as vozes na minha cabeça se estivesse menos no limite, eu não poderia parar de me dizer que cada palavra escrita era uma bobagem se eu não estivesse operando em um corpo desesperado para que aquilo acabasse. Me pergunto quantos anos de terapia são necessários para que eu desenvolva uma relação ao menos minimamente saudável com o meu corpo. É bem provável que o câncer de pulmão venha antes.

Mas a questão de estar no limite das coisas é que, conseguindo ou não, você precisa avançar. Por mais vazia que eu esteja por dentro, acabou. Acabou e a vida agora é outra. Mas eu estou tão vazia que preciso ir embora antes que a vida seja outra. E estou na beirada disso também.

Na beirada de ir não sei para onde, não sei de que jeito. Me recuso a fazer roteiros, me recuso a ter planos. Me recuso a ouvir qualquer palavra contrária. Eu não posso explicar que não posso continuar sem isso.

Eu virei outra pessoa nesses dois anos. Nessas duas semanas de forma ainda mais radical, eu virei outra pessoa. Eu matei algo, algo que eu precisava matar há muito tempo, mas como todas as grandes mortes ela não veio de graça. Eu não poderia escrever um livro duas semanas atrás, eu posso agora. Eu não poderia entender a melhora que as minhas críticas tiveram no último ano, eu posso agora.  Mas o custo foi enorme e eu estou exausta. Exausta, crua, cheia de marcas que vocês não podem ver.

Eu me pergunto qual o sentido de textos tão overshare. Quem se importa com o que passa dentro da minha cabeça assim. Gosto mais dos pequenos ensaios, das reflexões sobre perguntas que, imagino, passam pela cabeça de outros. Mas esse eu entendo. Nos últimos dois anos me foi perguntado várias vezes o que eu estava fazendo, por que eu precisava de tanto tempo, o que, afinal era tão difícil. Por que eu precisei deixar tão pra depois, por que duas semanas tão infernais?

Porque sim. Porque eu gostaria de ser um ser humano mais funcional, mas não sou. Não sei se minha resposta é inteligível, mas alguma hora eu precisava responder.

 

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1 comentário

  1. Isadora, eu estou no processo do mestrado e entendo perfeitamente como você se sentiu. Grande parte dos meus amigos que passam por esse processo também se sente assim. Gostei muito. Obrigada por dividir com a gente sua angústia. Eu estou certa de que tudo ficará bem.

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