Na minha pele

Quantas vezes seguidas eu posso ouvir Lost Cause? Quantos dias eu posso passar sem ler uma única página de literatura? Quantas semanas sem ver um filme? Quanto tempo encarando sem parar páginas que eu mesma escrevi?

Eu tenho dito que é muito difícil escrever um mestrado. Que é mentalmente exaustivo e que me dá um medo enorme isso de elaborar algo que saiu da minha própria cabeça. Eu não confio na minha cabeça, sabem? Então de vez em quando eu paro para assistir Girls, porque preciso de meia hora de ar. E aí a mãe da Hannah me solta sobre o Adam: “he’s unconfortable in his own skin”.

Eu fecho o computador correndo, escorrego pro chão outra vez e fico ali, muito quieta, por muitos minutos, esperando para ver se essa frase vai embora. Ela não vai. Desconfortável na própria pele. Como algo que não cabe, não entra, como se a camada que cobrisse o que eu tenho por dentro fosse fina demais para realmente esconder e o medo gigantesco de que ela se torne transparente.

Eu sempre tive essa impressão de uma espécie de monstro escondido em 1,57, olhos verdes e rosto de boneca. Eu já lamentei muito ter rosto de boneca. Não porque não goste dele, mas porque acho injusto que a gente acabe com um rosto tão pouco representativo do que acontece do lado de dentro, acho tão injusto que “my pretty mouth will frame the phrases that will disprove your faith in men”.

Mas a gente acaba sendo quem é e tendo o rosto que a vida, e a genética, resolveram que teríamos. Eu tenho certeza que tenho menos rosto de boneca hoje do que aos 15, agora que eu já achei que ia morrer de sofrimento, que já passei mal no elevador dos outros, que já decidi que não me importo muito em ser gentil com meu corpo. Talvez envelhecer seja um pouco isso, talvez a gente vá passando por processos de fazer encontrar o de dentro e o de fora.

E nesses processos, em uma tentativa de se sentir melhor na própria pele, eu desenhei nela.

Lembro de quando fui assistir Alabama Monroe e pensei que nunca tinha me sentido tão sexy por ter tatuagens. Ou nunca tinha achado alguém tão sexy por ter tatuagens. Eu gosto muito de como a câmera do filme passeia pelo corpo dela, pelas imagens, da luz amarelada e bem difusa que eles usam nesses momentos. Gosto de como a narrativa constrói a personagem mostrando o quão disposta ela é a vestir a própria vida na pele e ao mesmo tempo a consciência  de que a vida muda, as coisas passam, não é por isso que os desenhos não podem ficar.

Até pouco tempo atrás eu não era das pessoas visivelmente tatuadas. Eu contava 4, mas não acho que seria aquelas meninas que alguém diz no bar: “ah, o banheiro é a porta do lado daquela garota tatuada”. Hoje em dia acho que sou. E de certa forma, conforme eu desenho nela, minha pele se torna mais confortável para mim.

Quanto mais eu visto nela o que me dói, as frases de alguém que enfiou a cabeça no forno aos 30 anos, a minha inquietude extrema e alguma delicadeza, mas ela me parece casar, cobrir o que eu quero que cubra, se adaptar. Aos poucos, eu vou cabendo na minha própria pele, embora ela ainda me seja bastante desconfortável.

Às vezes eu gostaria que o Universo pudesse ser apenas um pouco menos cruel. Veja, não precisa ser legal, podia ser só indiferente. Podia só não me enfiar em uma situação em que não ficar louca dependeria de estar um pouco mais confortável com quem eu sou, que eu não precisasse lidar o tempo todo com o fato de que algo aqui não está certo e eu não consigo esconder, não consigo iludir uma outra pessoa de que está.

Não precisa mandar amor da vida, já disse aqui que nem quero, só não precisava me mandar direto para a cama de alguém que alimenta o animalzinho que eu tenho do lado de dentro. Só não precisava levantar o espelho em que eu vejo minha pele sem desenhos, sem remendos, transparente, com tudo que eu quero esconder e não posso, com tudo que é monstruoso e terrível e mora do lado de dentro.

Não precisava.

Mas eu não quero ficar louca. Não sei bem quando foi que eu tomei essa decisão, mas tenho a impressão de tê-la tomado em algum ponto da vida. Deve ter sido quando eu cheguei muito perto de perder quem eu sou e decidi que não quero.

Hoje em dia eu pareço sufocar. Não é escrever um mestrado. Não é ter que elaborar algo dentro de um cérebro no qual eu não confio. Não é ele também. Eu não sei o que é, mas a metáfora da redoma de vidro parece apropriadíssima. Você vê o lado de fora, mas não pode chegar lá e o ar do lado de dentro é viciado, antigo, sufocante.

Você se esforça tanto para viver dentro da própria pele que acaba presa dentro dela, mas não é confortável. E você recebe todo dia o tapa na cara de que, de fato, não é agradável olhar para o que é possível ver através da sua pele. Então eu sigo desenhando nela, não porque desenhos tornem qualquer coisa mais opaca, mas porque no processo de fazer isso, como no processo de escrever, eu tenho a chance de achar beleza no que coloco para fora.

Também minha escrita vem de tudo isso que eu acho monstruoso, mas é uma chance de me apropriar, de domar, de olhar bem no rosto de um lobo e ver que no fundo ele é um animal bastante bonito e aprender a lidar com aquilo.

2089451636

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s