Como voltar pra casa

Um dos maiores clichês da humanidade é aquele que diz que home is where your heart is. Ou home is wherever I’m with you, que no fundo é a mesma coisa. Eu sempre defendo que clichês são clichês porque alguma coisa neles é real, fácil e óbvio, mas real, e acho que há muito de real nesse, especificamente.

Lar não é onde você está, é onde, de alguma forma, seu coração fica em paz. Mas eu me pergunto como vocês sabem onde deixaram o coração?

Por muito tempo eu achei que meu lar fosse uma pessoa. Ele havia sido levado para longe, muito longe, e se perdido quando aquela pessoa se tornou outra, alguém que eu não conheço mais. Mas nesse caso, eu não teria recebido meu lar, e meu coração, de volta?

Estou buscando há mais de um ano o guichê de reclamação para corações extraviados.

Eu gosto da ideia de que lar é onde ficou algum tipo de afeto, algum tipo de amor, mas eu sou tão esquecida, tão desorganizada, que nunca me lembro onde deixei as coisas importantes. E será possível que, quando a pessoa capaz de te dar alguma paz se torna outra pessoa, ela leve consigo esse afeto para algum tipo de limbo? Para sempre seu lar vai ser um fantasma de alguém? Uma pessoa que morreu, embora ainda esteja bem viva andando por aí?

Passei por muita coisa nessa vida, mas acho que isso de descobrir que alguém não existe mais, embora exista, vai ser para sempre o mais cruel que o Universo pode fazer comigo.

É como se eu tivesse entrado em uma avião, mas na última hora mudaram o destino e o número do voo, mas a minha mala ainda foi enviada para aquele primeiro voo, que já não existe mais e ninguém pode localiza-la. Porque ela não se extraviou, ela está em algum lugar, esse lugar só não existe mais.

Triângulo das bermudas afetivo.

Mas talvez não seja assim. Talvez eu realmente tenha recebido de volta tudo aquilo que deixei com alguém que já não existe. Talvez meu lar não estivesse com ele, para começar, eu só gostaria que estivesse porque parecia bonito, romântico, reconfortante. Clichê. Verdadeiro e fácil, mas mais fácil do que verdadeiro.

Não é a primeira vez que falo sobre isso aqui. Tenho um texto sobre fazer lar nas pessoas de quando estava na Turquia. Penso muito nessas coisas quando viajo pelo motivo óbvio de estar fora de casa, mas, principalmente, porque nunca sinto falta de casa. Casa sendo, como uma amiga minha já disse, sua vida, não necessariamente o espaço físico. Eu não sinto e há poucas sensações que invejo como essa.

Imagino a maravilha que deve ser deixar sua mala no chão, olhar em volta e amar todas as coisas que são sua vida, a sensação de continuidade e estabilidade. Já vi muita gente voltar para casa e vi o quanto deveria ser gostoso. Eu sempre quero sentar no chão e chorar porque não quero estar aqui. Toda volta de viagem me garante dias de inferno porque eu estou de volta a um lugar que não quero estar, a uma vida que não quero ter.

Mas o problema é: onde está o lugar em que eu quero estar? Qual é a vida que eu quero ter?

Sinto falta das pessoas. Acho que algumas pessoas são o mais perto que chego dessa sensação de pertencer, de estar em paz, de que ali é exatamente onde eu gostaria de estar. Estranho muito cada vez que cuidam de mim, sou capaz de perguntar “por que raios você se importa?” simplesmente porque um cara me diz pra pisar na parte larga da escada, senão vou acabar caindo. Acho que as pessoas que eu chamaria de lar são aquelas por quem eu consigo segurar o instinto de gatinho selvagem e não morder quando me dão um prato de leite. Ou um copo de bebida, que seja.

Eu posso ficar ali, com essas pessoas, por um bom tempo, mas há uma certa sensação de paz que não existe. Eu senti algumas vezes que estava exatamente onde queria estar, mas é sempre passageiro, é sempre um segundo, o segundo em que eu olho pela janela e vejo campos de cana no interior de Cuba e puf, passou, foi embora, perdi. Eu queria que essa sensação ficasse.

Não sei se ela pode ficar. Talvez não possa, talvez não para mim. E volto a me perguntar como vocês sabem onde deixaram o coração. Porque eu não sei.

Semana passada, quando desci do metro e saí na rua em Madri pela primeira vez, eu estranhei o quanto não estranhava. Eu estranhei o quanto havia perdido aquela sensação de estranhamento, de novo, de deslocamento que sentia cada vez que pisava em uma cidade nova. Nunca havia visto Madri, como nunca havia visto Córdoba, ou Sevilha, ou Granada, mas todas elas me pareceram perfeitamente familiar. Assim que emergi do metrô em Madri, eu me senti em casa.

Mas casa não pode ser todos os lugares do mundo em que ainda não estive. Por mais que eu goste muito do Henry Miller dizendo que o lar dele é o mundo, o mundo todo, não pode ser. Não pode ser porque eu gostaria que lar fosse um lugar capaz de frear minha inquietude, eu gostaria tanto de não contar os dias para ir de novo, de não estar tão desesperada para ir embora que faço planos de tocar violino em praças da Europa (nem sei tocar violino), eu queria tanto, mas tanto, chegar em algum lugar e não querer ir embora.

Mas eu estou, cansada daqui, sufocada, desesperada para ir embora. E eu vou, porque não tenho escolha, exceto enlouquecer e prefiro realmente não ficar louca.

Mas eu gostaria mesmo de saber para onde a companhia aérea mandou meu coração. Onde foi parar esse maldito voo que não existe e onde, afinal, é lar.

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4 comentários

  1. Só queria dizer que sempre leio o seu blog. Acho os textos lindos, lindos e tristes. Me identifico com muitas coisas, e ainda adquiro repertório com suas referências culturais. Obrigada! Continue escrevendo, vou estar sempre por aqui. Beijo!

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