Toda solidão em um quadro do Hopper

Eu gosto mais dos quadros em que o que está pintado não é o que eu vejo.
Eu gosto mais da angústia do Pollock espalhada em tinta na tela, das camadas desesperadas do Van Gogh, do Matisse que me diz “esse quadro é sobre o azul.” Há poucas coisas
nesse mundo que gosto mais do que a selvageria do Matisse. Há pouca coisa que eu goste mais do que os espíritos indomados e a violência de se estar com eles.
E da solidão.
Há dois dias, eu descobri que nada neste mundo é tão solitário quanto um quadro do Hopper.
Não é só a cena, embora seja também, mas é a imensidão dos grandes espaços, o vazio da composição geométrica. As cores mortas como as roupas que eu costumo vestir.
Parada em frente a Quarto de Hotel, eu me perguntava de onde vinha a moça de combinação, o que dizia a carta na mão dela, ela havia fugido?
Ela certamente foi deixada. Fui deixada tantas vezes que sinto uma identificação imediata com aqueles que esperam por alguém que não virá outra vez.
É brutal a solidão de ser deixada. Como é brutal a solidão de um quadro tão imensamente vazio.
O que está pintado não é o que eu vejo. O que está pintado não é a moça de cor de rosa, mas a solidão. A solidão universal, comum, onipresente, compartilhada.
Não a solidão dela, mas a de todos nós.
Eu passei algum tempo com um homem que dizia ser o cara de costas em Nighthawks. Eu entendia o que ele queria dizer, embora não concordasse. Um dia, finalmente senti. O quanto eu estava fundamentalmente sozinha estando com ele.
Entretanto, segui não concordando com o que ele queria dizer.
O homem de costas, sozinho, não é mais solitário que o casal do outro lado do balcão.
Fosse essa imagem um filme do Bergman, e não um quadro do Hopper, eu diria que a representação do inferno está no casal que olha para frente, não um para o outro.
Não há, em Bergman, dor maior do que a daqueles que estão juntos e não se olham.
O pior inferno é o compartilhado. A maior solidão não é a do homem de costas, mas a da moça com a carta na mão, com alguém que se faz presente, mas não está.
Talvez houvesse no moço que queria se crer personagem de quadro uma lucidez que eu não possuo. Talvez, ao não concordar com ele, eu não queira reconhecer a profunda solidão de se estar comigo.
Tenho pensado muito nisso, se podem ter abandonado um caminho que não abri, uma ponte que não estendi.
A moça com a carta na mão, e se ela relê sua própria despedida?
Eu não quero adotar para mim a moça em Quarto de Hotel. Se eu pudesse ser quadro, eu queria ser tinta espalhada, campos cromáticos, abstração. Quero preencher tudo e não desenhar nada.
Quero pensar que há poesia nisso. Liberdade, movimento. E se não houver mais que solidão?
E se a Joie du Vivre é puro delírio selvagem? O que há na minha atração pela violência?
Há dois dias, eu estava parada na frente de Quarto de Hotel, vestida de preto, pensando que não há solidão maior que um quadro de Hopper.
Talvez só a minha.

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