Frances Ha, porque é muito difícil ser uma pessoa

Minha vida é uma coisa que costuma dar errado. Em um sábado a noite em que estou contemplando toda minha falta de timing me sinto como a Frances Ha quando volta de Paris e finalmente tem mil mensagens no celular daquela amiga para quem ela ligou tantas vezes, contando que poderia lhe apresentar sua alma gêmea.

Meu sábado poderia ser resumido nessa cena.

Então me lembro que tenho toda uma história, toda uma identificação com Frances Ha. Fui ver o filme no cinema, no fim de semana da estreia. Acordei bêbada em casa, após uma festa, na hora em que deveria estar chegando no aeroporto. Levantei correndo, fiz a mala mais desconexa da história da minha vida e saí correndo para perder a ponte aérea.

Por sorte, como chaves, ou isqueiros, ou amores, pontes aéreas são algo rotineiramente perdido e eu acabei chegando sem grandes problemas. Então fui ao cinema. E chorei silenciosamente durante 120 minutos. Eu poderia escrever um longo texto sobre fazer algo, mas não estar realmente fazendo, sobre ser “undatable” e sobre beber até vomitar porque é o único jeito de lidar com o que se sente. Mas esse texto não é sobre nada disso.

É sobre como, depois de chorar por duas horas inteiras, eu saí do cinema em um misto de depressão e conforto. Eu era aquela pessoa, eu não queria ser aquela pessoa, mas eu estava feliz que mais pessoas no mundo fossem aquela pessoa. Eu não estava sozinha em toda minha desorganização e perda de rumo. Então eu peguei um metrô, para o lado errado. Saí, peguei para o outro lado, cheguei e me sentei em frente a uma menorá.

Eu continuava fazendo esforço para não ver o lado amargo do filme. Eu li diversas críticas sobre a vivacidade de Greta Gerwig e o otimismo irremediável do filme. Concordei, é otimista. É de uma coragem e um otimismo quase estúpidos, porque no fundo tudo é muito deprimente. Porque é muito difícil ser uma pessoa. Porque de forma linda e com fotografia em preto e branco me foi jogado na cara o quão difícil é ser uma pessoa.

Tentando a muito custo ser uma pessoa e não cair no choro no metrô, eu fui encontrar alguém. Todas as minhas forças estavam em não cair no choro e contar para esse alguém o quão difícil era ser uma pessoa. Porque é tão difícil ser uma pessoa, eu não ganhei um beijo de oi, mas a confissão apressada de alguém que vai embora.

Eu fui deixada sem aviso prévio, embaixo de uma menorá, enquanto me segurava porque não queria ser Frances Ha. Mas eu era. E eu acabaria bebendo demais e possivelmente falando besteira em uma festa de pessoas que eram mais adultas do que eu. Mais pessoas do que eu.

Eu esqueci disso. Talvez porque não quisesse estragar o filme, ou talvez porque foi tudo tão abrupto que eu não pude entender na hora a dimensão da minha dor. Quando doeu, eu já estava longe de Frances Ha.

É terrivelmente difícil ser uma pessoa. Ser uma pessoa significa ser deixada sem qualquer cerimônia embaixo de uma menorá e logo em seguida caminhar para uma festa. Significa não necessariamente fazer o que se faz. Significa ter passado dez minutos do filme profundamente irritada porque uma atriz parece a ex da pessoa que irá te deixar embaixo da menorá. Significa deixar os meses passarem e finalmente admitir que se foi deixada de forma tão indolor (para quem deixa) e um dia dizer que já não pode ser tão desimportante.

É precisar parar de ficar com alguém como quem precisa parar de fumar. É precisar parar de fumar também e de beber. E ouvir um pouco mais sua intuição que te dizia para ficar em casa nesse sábado.

É difícil o suficiente ser uma pessoa mesmo nas condições ideias de temperatura e pressão. Mesmo que você se proteja o máximo possível. Na minha vida, qualquer planejamento é contra mim. Qualquer planejamento acaba com uma confissão apressada em que eu levo no mínimo uns cinco minutos para entender o que está acontecendo e que, o que está acontecendo, sou eu sendo deixada.

É começar um texto completamente overshare e não saber muito bem o que fazer com ele.

Ser eu tem sido difícil demais e às vezes eu acho que agradeço muito pouco as pessoas que tornam existir nesse mundo um pouco menos difícil.

Na maior parte do tempo, adianta. Na maior parte do tempo abrir uma porta torna existir menos difícil. Tenho pensado muito nisso essa semana, dos momentos em que ser uma pessoa teria sido insuportável se não fosse por outra pessoa. Das vezes em que eu já chorei em mesas de jantares (não choro só em transportes públicos).

Mas também dá sexta a noite, de estar bêbada na calçada comendo o que (provavelmente não de verdade) foi o melhor cachorro quente da vida. De conversas e hamburgueres, e amar o snapchat e dos melhores cinco euros já gastos em um brownie de maconha. É muito difícil ser uma pessoa em boa parte do tempo, mas às vezes, só às vezes, não é.

Às vezes a vida é risadas em uma mesa e músicas da Britney Spears. Às vezes é só a certeza de não se estar sozinho. Minha dissertação é sobre isso, sobre como o mundo se organiza e faz sentido no minuto em que se percebe que não é necessário estar sozinho. Que nem sempre se está sozinho.

Tem uma outra fala em Frances Ha da qual eu gosto muito, quando ela diz que tudo que ela quer de um relacionamento é a certeza não dita de que aquela é sua pessoa no mundo. A pessoa de Frances acaba sendo sua melhor amiga e eu gosto muito dessa solução narrativa, muito mesmo. Sua pessoa no mundo é aquela que fez existir ser menos difícil.

 

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