Fiona Apple, minha educação sentimental

Em um momento de Simplesmente Amor, a personagem da Emma Thompsom diz que foi a Joni Mitchell quem lhe ensinou a sentir e a salvou de ser uma inglesa fria. Embora (ao contrário do resto do mundo) eu não ame esse filme, gosto muito dessa frase, da ideia de que um artista, quem quer que seja, possa não só expressar seus sentimentos, mas te ensinar a te-los. Acho que tenho essa relação com a Fiona Apple, Fiona me ensinou a sentir.

Eu ouvi Paper Bag pela primeira vez aos 14 anos. Era 2003, eu estava deitada na minha cama e não podia parar de colocar essa música no repeat e me perguntar por que o cara com quem eu vinha ficando esporadicamente há alguns meses acabou decidindo namorar uma outra menina. Uma outra menina que eu era obrigada a ver todos os dias. Mais alta, mais magra, sem unhas pintadas de preto, diários e um livro da Simone de Beauvoir embaixo do braço.

Aos 14 anos, Fiona me ensinou que “I know I’m a mess he don’t wanna clean up”

Foi diferente de ouvir uma música que expressasse aquilo que eu sentia, naquele momento, Paper Bag foi a música que colocou em palavras o que eu não sabia que sentia. Eu definitivamente não sabia que thought it was a bird but it was just a paper bag.

Anos depois, quando eu já mal lembrava de tudo isso, quando eu já tinha vivido tantas outras coisas, entrado e saído do meu deserto particular, eu finalmente prestei atenção e entendi que “hunger hurts but starving works”. Fiona me explicou, em uma frase, o que eu tinha passado tantos anos fazendo.

Se paro para pensar, se paro para fazer uma breve retrospectiva do que afinal eu aprendi com aquela moça magrela, de enormes olhos azuis que ganhou um grammy dizendo “this world is bullshit”, eu percebo que o que ela realmente me ensinou não foi a sofrer, ou o vazio como outro lado do amor, mas que ela conseguiu dar nome e tornar palpável aquela sensação que me rondava, mas eu nunca pude entender: o medo de mim mesma.

Fiona sempre teve muito medo de si mesma. É óbvio pensar em Criminal, na forma tão honesta com a qual ela confessa que partiu o coração de um rapaz só porque podia (e eu sou culpada do mesmo crime), mas minha epifania veio com Fast As You Can. Quem, em sã consciência, diria ao cara que gosta para se afastar, porque não pode confiar em si mesma, porque não quer transformar a vida dele em um inferno, porque mais cedo ou mais tarde vai ficar um monstro agressivo? Fiona Apple diria. E eu.

Talvez eu nunca tenha sentado na frente de alguém e dito isso com todas as palavras, acredito que ela também não, mas só porque eu nunca encontrei o altruísmo para isso. Porque no fundo eu sempre decidi correr o risco de infernizar a vida deles porque não queria ser deixada. Mas eu sempre acreditei que qualquer um estaria mais feliz longe de mim.

As músicas dela me ensinaram que existe as vezes um real descontrole do que existe dentro de si. Ao ouvi-la cantando sobre a própria desconexão de si mesma, sobre a certeza de ser mais bagunçada, mais arisca do que qualquer um estaria disposto a aguentar eu não me identifiquei, eu me descobri. Eu não tive a sensação de ser abraçada e consolada pela sensação de que outras pessoas no mundo se sentiam como eu. Eu me senti sentada na frente de um mapa em que ela apontava os territórios, divididos, nomeados, bem desenhados, do que eu sentia.

Sempre achei “arisca” uma palavra muito boa para mim. Eu posso ser um ser humano extremamente sociável, desde que você não faça movimentos bruscos, ou chegue perto demais. Há uma espécie de distância segura que precisa ser respeitada para que eu não tenha medo do meu interlocutor, ou de mim mesma. Um espaço de manobra em que eu posso esbarrar em tudo sem fazer grandes estragos.

Esse texto surgiu porque me peguei ouvindo Left Alone em loop. Neste último álbum eu tive a sensação de que afinal minha educação havia terminado: eu estava mais velha, já me conhecia bem o suficiente, Fiona também, já parecia mais capaz de não se bater tanto contra paredes forradas de pregos metáforicos. Eu já não precisava aprender, ela já não precisava me ensinar e eu pude me identificar com as músicas, ter a sensação de que mais alguém no mundo compreendia e podia expressar melhor que eu as coisas que eu já havia visto dentro de mim. Mas não Left Alone.

Left Alone foi como quando, no teatro, um foco de luz se abre e revela o palco todo que até então não podíamos ver. Todo um universo que antes estava oculto para nós, espectadores confinados ao pequeno círculo iluminado. “How can I ask anyone to love me, when all I do is beg to be left alone?”

Eu não me identifiquei, eu me peguei, pela primeira vez, olhando de frente para o espaço entre o desejo de ser amada e o de ser somente minha, completamente minha, de ser sozinha.

Eu me peguei voltando a música e ouvindo, de novo e de novo que ela se tornou dura demais, fria demais, que tudo doeu mais do que deveria doer e talvez o amor dela tenha estragado alguém. Eu me peguei voltando a música e chorando, não de tristeza, mas de amargura, de uma amargura consciente demais para poder ser triste. Cada vez mais tenho achado que a tristeza é algo para os românticos inocentes, a essa altura, se quero sobreviver, já não posso me dar ao luxo.

“My love wrecked you” é uma confissão que eu nunca poderia fazer para mim mesma. Que eu precisei que Fiona Apple me ensinasse que pode ser feita. Eu precisei que ela me ensinasse que ativamente exijo  das pessoas que me deixem em paz. Parte de mim até gostaria de implorar para ser amada, mas não, eu apenas quero ficar sozinha.

Fiona me ensinou muito sobre mim mesma, principalmente sobre as partes escuras, ou incontroláveis. Sobre as partes que cometem erros mesmo sabendo, que gostam de desfazer o próprio caminho, que tem medo, espinhos, arestas. Que são demasiado ariscas.

And now I’m hard, too hard to know
I don’t cry when I’m sad anymore, no no
Tears calcify in my tummy
Fears go inside of my toe

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