O inferno sou eu mesma

I said, “honey, i don’t feel so good, don’t feel justified
Come on put a little love here in my void”
He said “it’s all in your head”, and I said “so’s everything”

No mundo existem muitas mentiras que nascem na forma de uma frase de efeito de um escritor, a maior delas, acredito, é “o inferno são os outros”.

Toda vez que me lembro dessa frase, morro de inveja do Sartre. Não porque ele é francês, viveu nos anos 60, é meio gênio e comeu a Simone, mas porque deve ser maravilhoso viver em um cérebro que não é seu próprio inferno.

Não me entendam mal, pessoas podem ser o demônio por todos os motivos possíveis. Porque elas querem, porque não querem, porque te amam, porque não te amam, porque é preciso conviver com elas e conviver quer dizer ceder, ajustar, entrar em contato com aquelas coisas dentro de você mesmo que você realmente não preferia ver, lidar, ouvir. Porque afinal, o inferno é você mesmo.

Tudo bem, talvez nem todo mundo seja o próprio inferno. Talvez, ao falar dele, Sartre estivesse realmente certo e aquilo que outras pessoas impunham a ele era de fato mais torturante e insuportável do que qualquer coisa que ele mesmo pudesse criar. Não é meu caso. Ninguém, nunca, nem mesmo se eu acabar em uma prisão norte-coreana por qualquer motivo que seja, consegue inventar os mecanismos sutis, incansáveis e vitoriosos de tortura que meu próprio cérebro consegue.

Pessoas já me fizeram sofrer, é claro, já fiz aqui mesmo o relato de diversas vezes em que chorei em aviões, me entupi de vinho barato e deitei no chão da minha casa desejando morrer. Mas em todas essas vezes eu teria sofrido menos se tivesse me deixado.

Essa não é uma descoberta recente. Eu não precisei de todos os 200 fins de relacionamento, de todos os congressos em que quase vomito meu próprio estômago de nervoso, certamente não precisarei da defesa de mestrado em que vou tremer, gaguejar, estragar tudo e cair no choro, para saber disso. Eu sempre soube. Eu sei disso desde que me fazia ver, olhar, não virar o rosto, não evitar, não fugir, o garoto que eu ficava andando por aí com a namorada que não era eu.

A minha loucura não é uma descoberta recente. A minha tendência a repetir incessantemente o pior de mim, quase como um mantra, a certeza de que tem algo muito errado na minha própria constituição, a forma como eu me convenço seguidamente que a menina do lado é incomparavelmente melhor que eu, nada disso me é desconhecido, nunca foi. É quase como se eu brincasse de enfiar agulhas muito finas, mas muito doloridas, em lugares repetidos, evitando que elas cicatrizassem.

Eu tenho cicatrizes demais e todas elas fecharam mal, porque eu não deixo.

Mas minha síndrome de Fiona Apple a parte, eu me pergunto se, como disse lá no início, a ideia de que o inferno são os outros não tem realmente a ver com os outros tocarem em partes nossas que preferimos não lidar? No fundo, aquela pessoa que uma vez eu quis empurrar do alto da cordilheira dos Andes não me incomodava por conta da minha própria intolerância? Porque ela me obrigava a lidar comigo mesma e com feridas minhas que eu detestava?

Eu não consigo responder a isso. Não consigo saber se a pessoa que sou hoje, tão diferente da de seis anos atrás, ainda ia querer simular um acidente em uma parte estreita da trilha inca.

Eu também não sei dizer se tudo estaria mais fácil se eu não precisasse viver dentro do meu próprio cérebro. Se os outros não precisassem viver dentro dos deles que, às vezes eu suspeito, é tão desajustado quanto o meu.

O inferno é você mesmo. O inferno é um certo jogo de gato e rato que vocês se impõem, porque tem medo demais, porque vulnerabilidade é algo com que não sabem lidar. Eu, pelo menos, tenho certeza que não sei lidar.

Pessoas são o demônio, mas nós somos o inferno, talvez. Os outros são aqueles capazes de iniciar a reação, ligar a ratoeira, a armadilha. Tocar no fio descascado que causa todo o curto circuito nos outros mil fios emaranhados que você tem dentro de si. Porque é assim, quebrado, mal feito, como todo mundo, como aqueles gatos de energia descendo pela parede da mansão cubana onde eu passei o ano novo.

Eu me enrolo muito nas relações humanas, nas pequenas variáveis, desencontros, mal entendidos. “Variáveis” é uma palavra da qual tenho gostado muito. Variáveis: toda aquela reação em cadeia da qual um evento depende para acontecer. “Você vai ficar com aquele cara?” não é uma pergunta simples, não é uma pergunta que envolva apenas eu e ele, mas toda uma rede de preferências e oportunidades e o tal jogo de gato e rato e maldita da vulnerabilidade. Na última semana eu me peguei analisando todas as variáveis de eu ter acabado onde eu estou, que não é em nada onde eu achei que acabaria se tivessem me perguntado em julho do ano passado.

Eu me peguei revirando dentro do meu próprio cérebro o que aconteceu até o momento em que eu já não sabia o que havia acontecido dentro ou fora dele. Eu já não sei o quanto realmente me machucaram ou o quanto minha loucura deixou que me machucassem. Eu não sei o quanto a atual incerteza não é culpa única e exclusiva da minha loucura. Do meu próprio inferno.

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