Na laje de um cortiço cubano, ou como eu comecei 2014

Como já foi dito aqui anteriormente, eu não acredito em muitas coisas. Claro, pode ser que eu leia a Susan Miller no início do mês quando estou muito desesperada e qualquer luz/conselho/anúncio de desgraça maior é bem vindo. Também pode ser que aos 16 anos eu tenha brincado de prever o futuro pingando cera de vela em uma bacia com água (grande incentivo a criatividade). Também pode ser que nós tenhamos ido a uma casa de Iemanjá e cantado músicas com temática de sol para ver se ele aparecia antes de chegar na praia mais linda da vida. Mas em geral, nas circunstâncias normais de temperatura e pressão (ou seja, não em Cuba), eu não acredito em muita coisa.

Mas tenho uma crença sem sentido que me é muito querida: o ano novo sempre continua como eu começo. De 2005 para 2006 tudo parecia lindo, eu estava em uma festa com comida ótima e gente querida e decidi colocar meus pézinhos semi-bêbados de muita champagne na água quando fui atingida por um barquinho de Iemanjá (passive-agressive Iemanjá) e trinquei um dedo. O ano foi exatamente assim, parecia tudo muito lindo, mas acabou sendo uma bosta sem tamanho.

2013 começou comigo sentada no sofá da casa do meu tio, de pijama, lamentando os últimos 6 anos da minha vida enquanto bebia uma garrafa de champagne que minha prima roubou do restaurante onde trabalhava. Não chegou a ser ruim, só foi completamente meh. Igualzinho o resto do ano.

Eu acho esse um fenômeno bastante útil. Nem me permito criar esperanças para anos que começam como 2012 ou 2013. Já morreu, já vai ser ruim, já esquece. Adoro avisos, adoro quando o universo permite que eu me prepare um pouco antes dele puxar meu tapete, sabe, tentar não cair com o nariz direto no chão, gosto muito do meu nariz.

Porém 2014 começou do jeito mais legal e sem sentido da história do universo.

Primeiro, ele começou em Havana. Eu poderia estar viajando para algum lugar mais comum, mas não, eu estava lá, na capital maravilhosa de um país que não faz o menor sentido. Além disso, capital mundial do mojito. Só que chovia. Muito. E aparentemente cubanos passam o ano novo em família, como se fosse um natal. Meh.

Bom, nós tínhamos a ceia do nosso ótimo cozinheiro-man-in-a-uniform-cubano-ou-veado Ulisses (sim), dois franceses e perto da meia noite um bar deprimente com cara de bar americano dos anos 40 e uma mulher que bebia sozinha parecendo abandonada no balcão. Muitas conjecturas sobre pés na bunda e traições e o amor da vida dela dando um bolo bem na noite de ano novo. Pelo menos eu tinha mojitos.

Ao contrário de 2006, 2014 pareceu extremamente deprimente, mas não foi.

Porque um pouco antes da meia noite nós recebemos saquinhos com serpentinas, línguas de sogra um pouco brochas, máscaras, negocinhos barulhentos irritantes e canudos de atirar bolinhas no amigo. O que eu posso dizer? são coisas divertidas. Mas de repente, não só nosso humor tinha mudado completamente, como a senhora abandonada era mulher do dono do bar e as garçonetes estavam fazendo um trenzinho. 2014 começou comigo fazendo um trenzinho com garçonetes cubanas em um bar de Havana com cara de Estados Unidos dos anos 40. Sentido, você ficou em 2013 né?

Claramente ficou, porque cinco minutos depois estávamos sendo guiados por um francês para uma festa em um hotel cinco estrelas que custava 120 cucs para entrar. Claro que não pagamos 120 cucs. Claro que só descobrimos isso quando já estávamos lá dentro bebendo champagne que aparecia magicamente quando alguém dizia “eu bem que podia ter uma taça de champagne na mão agora”. 2014, o ano em que você deseja o álcool e ele surge na sua mão.

Também o ano em que de repente estávamos conversando com uma grega que parecia a Julia Petit, uma cubana de vestido longo vermelho e Francis, o dominicano de chapeu Panamá que aparentemente é dono da cidade. Julia Petit nos chama para uma outra festa e lá vamos nós. Ela vai antes, nós vamos com nosso guia francês atrás. Chegamos lá e um segurança diz que fechou, não podemos entrar. Vem a Julia Petit grega: “eles estão comigo”. Não pode. Vem Francis: “eles estão comigo”. Agora pode. Francis, o rei de Havana.

Aliás, esqueci de mencionar que a cubana do vestido vermelho entrou em um Audi preto. Sim, existem Audis pretos em Havana, não que eu tenha andado em um, eu mesma só andei de Lada e Coco-Taxi. Mas ela andava.

Enfim, entramos no que parecia muito uma balada do Itaim, só que em Havana. E tocando reggaeton. E onde eu não paguei pelos meus mojitos porque aparentemente estava acompanhada de um amigo pessoal do Fidel, ou o que quer que seja. Mas vamos sair dessa festa porque ela é chata e ir para uma quarta. Ok…

Quarta festa da noite, senhoras e senhores, era na laje de uma mansão. Tá, possivelmente a mansão era um cortiço, mas quem se importa? Eu fui parar em uma festa na laje de uma mansão/cortiço cubano. Não só fui parar em uma festa na laje de um cortiço cubano, como quando chegamos lá havia uma fila enorme para entrar, na qual entramos, perfeitamente resignados a horas de espera. Até o momento em que alguém, não vi quem, anuncia que não, pega na mão da pessoa na sua frente porque vamos cortar. Ah, Francis, não sei quem você é, mas eu gosto muito de você.

Eu vi a morte muitas vezes nessa viagem, particularmente quando quase enfiei o carro embaixo de um trem, mas a primeira foi na escada para laje. Lembram que chovia? A essa altura já tinha parado, mas a escada, azulejada, estava molhada. E era estreita. Em caracol. E na parede tinha um milhão de gatos de energia nos quais eu não queria enfiar a mão. Sempre bom lembrar que eu já estava bêbada a essa altura.

Mas sobrevivi, só precisava ir ao banheiro. Sobre o banheiro da laje de cortiço: foi possivelmente o pior da viagem, mas nem de longe o pior da minha vida (Bolívia que saudades de você, seu país horrível do cacete). Sim, tinha uma fila imensa, mas meus queridos, estávamos recobertos da aura da boa sorte naquela noite e uma cubaninha saiu amando minha tatuagem, perguntando a quanto tempo estávamos lá, passando o telefone e dizendo “não, não, não, vocês nunca vão conseguir assim, meu amigo é segurança do banheiro”. Carteirada em fila do banheiro na festa em uma laje de cortiço cubano: check.

A festa não era uma festinha de apartamento, se é isso que vocês estão pensando. Tinha DJ, luzes, uma multidão. É possível que eu tenha conversado sobre surf com uns adolescentes. Eu devia ter agarrado algum adolescente só pelo check-in em Cuba. Oi que? Foursquare mundial de putaria, sim senhores, uma brincadeira válida.

Mas não agarrei nenhum adolescente. Só fiquei lá enchendo a cara até o sono vencer e então voltamos para casa. Talvez uma boa hora para perceber que a pessoa portadora da chave tinha desistido da noite horas atrás. Duas ruivas bêbadas na porta de uma casa de Havana falando alto, rindo histericamente e tentando fazer uma ligação internacional deve ter sido uma bela visão.

Não sei se foi já aí que eu me apaixonei por Havana. Mas certamente foi quando descobri que entrei no ano mais wtf (e portanto mais divertido) da minha vida que já não faz muito sentido geralmente.

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