“Está na hora de me fazer ao mar”

Existe uma sensação que me é bastante querida, embora extremamente rara: sentir que, onde quer que eu esteja no momento, é exatamente onde eu queria estar.

Muitas vezes, quase todas, eu não sei muito bem como fui parar ali. Também não importa, acho. Ou talvez eu só consiga me sentir assim nos lugares que não sei muito como fui parar.

Faz duas semanas eu estava em Cuba. Em um certo momento eu estava em um picanto imundo, em cima de uma ponte, vendo campos enormes de algo que me parecia trigo (mas eu sei que não era) cantando Shape of My Heart a plenos pulmões. Eu não sei como fui parar ali, mas era exatamente onde eu queria estar.

Muitas vezes durante a viagem, enquanto nós cruzavamos estradas que não faziam o menor sentido, enquanto era preciso fazer parkour entre as carroças, os caminhões que pareciam transformers, os cubanos de bicicleta e os maravilhosos outdoors do Chávez “nuestro mejor amigo”, eu queria colocar a cabeça para fora, sentir o vento no meu rosto e simplesmente estar ali. Eu queria estar cantando Backstreet Boys como se não houvesse amanhã enquanto cruzava um país socialista, mesmo que não tivesse a menor ideia do que estava fazendo ali.

Mas a verdade é que eu tenho.

Sempre fui fascinada com a ideia de roadtrips, com road movies, com navios, com o mar, com trens, com tudo que se movimenta. Eu sempre gostei do deslocamento pelo deslocamento, do próprio processo de se mover, de atravessar, de não estar exatamente em lugar nenhum. No meio do caminho é exatamente onde eu queria estar.

Uma roadtrip é uma viagem em que o processo de viajar é um objetivo tanto quanto os lugares que você vê. Dirigir por aquelas estradas, ver aqueles cartazes, poder parar em qualquer cidadezinha pitoresca que desse vontade, escolher uma trilha sonora, dar apelidos aos caminhões, se movimentar.

Eu gosto muito de me movimentar.

Em nenhum momento pus a cabeça para fora do carro, meu nome já tem uma tradição suficiente em mortes trágicas com carro, mas o que eu queria mesmo não era só sentir o vento, era sentir uma liberdade muito extrema de não se ter um lugar, de não dormir mais de uma noite na mesma cama. A liberdade extrema de viver dentro de um quarto, de uma mochila, dentro de mim mesma, de certa forma. Essa liberdade me seduziu intensamente.

Toda vez que falo em liberdade, me lembro do Kieslowkski. A liberdade é azul e solitária, terrível, profunda, brutalmente solitária. Claro. A liberdade real, pura, por assim dizer, só pode existir na ausência de laços. Crescemos com a ideia de que liberdade é algo essencialmente bom, sempre, como se pudessemos fazer colunas de coisas boas e coisas ruins. Mas não podemos e a liberdade não é sempre boa, ainda que, para mim, ela seja extremamente sedutora.

Enquanto eu olhava pela janela para as paisagens cubanas, que se pareciam um tanto com as brasileiras, eu não pude deixar de pensar em todas as coisas que vagam pela mente quando se tem muitas horas e muitos kilômetros. Em como eu quero ir embora. Em quem foi embora de mim. Em quem foi embora de mim querendo ser livre e nunca foi, porque tem nós (não laços) demais dentro de si; e de quem foi para esse tipo de liberdade que eu pareço sentir no sangue; de quem não foi, não precisou ir, mas diz que eu preciso.

Nas estradas cubanas eu encontrei um tipo de perdão muito libertador.

Há alguém que uma vez foi embora de mim porque eu não poderia ficar e que, ainda hoje, me diz que há em mim algo de quase selvagem, algo que é incapaz de jogar o jogo, que eu não posso dominar e que se sente constantemente sufocado, inquieto, como uma jaguatirica em caixa de transporte de gato. Há alguém que diz que tenho olhos de gato selvagem, mas insisto em achar que posso viver de arranhador.

Não vou dizer que não me sinto elogiada, mas há algo profundamente triste nessa afirmação. Porque gatos selvagens são animais que caçam sozinhos.

Há naturezas mais civilizadas, para quem a liberdade da ausência de laços é apenas isso, libertadora. Talvez porque não exista o medo de se perder, o medo de sucumbir ao lobo dentro de si, ao pequeno monstro adormecido, de tornar-se verdadeiramente intratável. Há naturezas mais civilizadas que precisam da ausência de laços para, ao contrário, não sucumbirem a própria civilidade.

Lembro de há muito tempo atrás ter lido um livro do Bauman em que ele afirma que algumas coisas são binômios: menos de uma necessariamente significa mais da outra e vice versa. Liberdade e segurança é um dos exemplos que ele dá. Eu diria liberdade e conexão.

Estar perto dos outros significa ter peso, lastro, bagagem. Conectar-se com alguém significa abrir mão dessa liberdade profunda que só pode nascer do completo desprendimento. É inocente e ridiculamente ingênuo achar que a liberdade é algo intrinsecamente bom, como é ainda mais ridiculamente ingênuo achar que o amor é algo intrinsecamente bom. Ou a vida, ou o que quer que seja.

Mas ela é sedutora. Talvez poucas coisas sejam tão difíceis quanto decidir se você realmente quer algo que lhe parece extremamente sedutor, tentar ouvir algo além do seu sangue pulsando e batendo nas paredes das artérias, fervente por algo que fala a uma parte sua mais escura, indomável, selvagem. A liberdade fala ao lobinho dentro de mim, ao pequeno monstro que eu guardo dentro da alma.

Eu protejo esse alma dos outros tanto quanto evito que os outros a vejam. Eu tenho um medo sincero de perder o animal dentro de mim e acabar não sendo nada, como tigres deprimidos em zoológicos alemães. Eu tenho medo de perder aos outros e tenho medo de perder a mim mesma. Mais de um necessariamente significa menos do outro?

Não sei responder. Talvez eu esteja presa entre o que me seduz e o que eu deveria querer em mais aspectos do que quero admitir. Talvez eu deteste as paixões sem sentido justamente porque elas deveriam falar ao instinto, mas o meu instinto quer caçar só. Talvez só possa gostar do sentimento sem freios quem tem menos violência dentro de si, eu tenho sangue demais.

Eu sou completamente obcecada com o mar. Nada no mundo me atrai com tanta força, em nenhum lugar eu me sinto tão em casa como quando ondas batem furiosas em rochedos. A frase nas minhas costas por muito pouco não foi “I account it high time to get to sea as soon as I can”

Do alto do avião, a primeira vista que eu tive de Cuba foi do mar, azul, azul, azul, transparente e imenso e eu sorri sozinha. O mar é eternamente imensidão assassina, sempre algo a se reverenciar, sempre selvagem, mesmo quando se disfarça de praias calmas e azuis do Caribe.

Mas as vezes é preciso tornados, furacões, tempestades. São as mesmas correntes do azul elétrico, da beleza plácida. Eu adoraria ver um furacão. Eu adoraria comprar a aposta de soltar o gato selvagem dentro de mim e correr para o mar.

Nos poucos momentos em que eu me senti perfeitamente livre, eu entendi tanta coisa, perdoei tanta coisa que decidi comprar a aposta (eu gosto de apostas afinal). Talvez lobos também voltem para casa.

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