Havana, meu amor

Eu gosto de coisas desencontradas, partidas, desfeitas. Dos homens atormentados. Da minha própria inquietude um pouco selvagem. Das pessoas assombradas, do passado, de ruínas. E sendo assim, eu não poderia, mesmo que tivesse tentado resistir, não me apaixonar por Havana.

Mas não tentei, não ofereci resistência, não mantive distância. Eu me deixei ir ansiosamente, feliz por ser carregada, com todos os sons e cheiros que entravam por baixo da minha pele, com o vento bagunçando meu cabelo.

Havana é uma cidade assombrada, uma cidade que existe em vários tempos e vários mundos. Que existe em ruínas e detalhes intrincados, em 1920, 1959 e 2014. Em camadas e contrastes, em prédios do centro histórico que me lembram a Espanha, a Europa, os cassinos, escritores e easy living dos anos 40 e prédios que me lembram, não pobreza, mas decadência, como ruínas. Ruínas vivas, habitadas, pulsantes. Havana me lembrou Pompeia.

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Havana é assombrada por Hemingway, Capote, mafiosos e dinheiro de um passado em que tudo ali era luxo, brisa do mar e litros de rum. É quase como ouvir um sussurro por baixo de uma música, como aqueles aparelhos de som que começavam a captar a rádio com antena mais perto. Como ver sombras e espectros o tempo todo.

Como eu poderia não amar um lugar verdadeiramente habitado por fantasmas?

Mas Havana é mais do que uma cidade assombrada. É uma cidade com um verdadeiro espírito que permanece, desencontrado, partido, relutante, resistente na pintura descascada e nos ornamentos destroçados. Ali o ritmo é outro, bebe-se um mojito em cada parada, os almoços são longos e pedimos ao garçom maços de cigarro Cohiba que podemos fumar na mesa. Em Havana ainda se fuma nos bares, nos hoteis, nos restaurantes, como se ainda fosse 1940.

Mas os senhores que moram nos prédios destroçados também jogam dominó na rua. As mulheres veem a vida passar e fofocam. Eu não sei bem o que acho disso, em parte me sinto profundamente incomodada, mas em Havana se fotografa os cubanos quase tanto quanto a cidade. E eles se deixam registrar, cientes de sua fotogenia, de nosso interesse de safari.

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Quem acha que o Brasil é um país sensual nunca foi à Cuba. Entre policiais de minissaia, bundas incríveis de ambos os sexos, os melhores corpos que eu já vi nesse mundo (e eu andei um tanto) e essa leveza, essa lentidão, há algo de muito sexual. Talvez seja o calor, o rum, o cheiro de cigarros ou charutos, não sei. Mas muitas vezes eu tinha a sensação de que pessoas trepavam furiosamente por trás de cada uma daquelas janelas que eu fotografava.

Em Havana há algo de profundamente estrangeiro que é e não é culpa do socialismo. Fotografamos as pessoas porque elas nos parecem de outro mundo, porque a cena de garotinhos jogando baseball parece tão interessante e queremos achar que é a consciência do mundo diferente, ou consequências dos mil relatos de pobreza e dificuldade, como se cada cubano que sorri ou joga bola fosse uma raridade. Mas não sei. Não consegui me saber por que eu fotografava aquelas pessoas, porque elas me fascinavam. Talvez sejam, como a cidade, assombradas.

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Caminhei por suas ruas de sandálias de verão, vestidos leves e saias compridas. Senti o cheiro de mar e vi como suas ondas estouravam naquele azul inconfundível do Caribe. Amei o vento nos meus cabelos, precisei de um chapeu pelo sol implacável. Achei que o cemitério branco, imaculado, é o mais lindo que já vi. Tomei incontáveis mojitos, fumei cigarros na mesa do almoço e charutos em um hotel onde não pertencia. Depois de viajar pelo resto do país voltei e me senti em casa e terrivelmente estrangeira. Não consegui entender Havana, não consegui acreditar que minhas sensações correspondiam a realidade, não consegui estar tranquila e isso é a melhor definição que conheço de se apaixonar.

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