Beginners e como queríamos que a vida fosse, mas não é

Dia desses, por pura inércia acho, o filme já estava ali no netflix, assisti Beginners, aquele com o Capitão Von Trapp saindo do armário aos 75 anos. Por algum tempo quis guardar rancor desse filme, Capitão Von Trapp levou Oscar de melhor ator coadjuvante e me roubou ver Max Von Sydow velhinho, falando inglês com aquele sotaque sueco tão querido. Adoro A Noviça Rebelde, mas Max Von Sydow é meu homem, meu companheiro de mestrado, a personificação do silêncio de Deus em 1,90, ombros curvados e cabelos muito loiros. Antonius Block e Ivan Karamazov, os dois homens que eu poderia verdadeiramente amar.

(não me surpreende que minha vida amorosa seja essa coisa que é)

Mas não pude guardar rancor de um Capitão Von Trapp gay, como alguém poderia guardar rancor de qualquer Capitão Von Trapp? E ainda tinha Mélanie Laurent então fui assistir. Não é um filme ruim, também não é um filme particularmente bom. É só mais um filme hipster consideravelmente eficiente sobre como queríamos que a vida fosse, mas não é. Ou pelo menos sobre como queríamos que a tristeza fosse, mas não é.

Eu gosto da história do Capitão Von Trapp (gente, desculpa, não consigo lembrar o nome do ator ou de qualquer outro personagem que ele tenha feito e não vou fazer esforço), gosto daquele médico croata de ER (queeee?) com cabelo horroroso. Até gosto do voice over e dos quadrinhos embora seja terrivelmente clichê (Ilha das Flores, alguém?), mas não gosto, não consigo gostar, da tal história de amor.

Um filme sobre como queríamos que a vida fosse, mas não é. Sobre como queríamos (quem?) que o amor fosse, mas não é.

Em Beginners, como em boa parte dos filmes de romance, hispters ou não, o amor vem como um Deus Ex-Machina para dar sentido a vida de alguém. Ele surge do nada, e eu estou me segurando para não fazer uma metáfora tipo meteoro da paixão, por favor me perdoem, simplesmente porque uma menina em uma festa pode ver que seus olhos estavam tristes. É sempre mútuo e transforma sua vida completamente. E não vou dizer que eu não queria que fosse exatamente assim.

Não estou dizendo que pessoas não se apaixonam do nada, por um olhar, ou um sorriso, ou um cuidado, nem que não se possa notar os olhos tristes de alguém em uma festa. Eu sei bem que todas essas coisas podem ser verdade. Infelizmente cabe a mim também uma cota de paixão absolutamente sem sentido nessa vida e tenho uma amiga que se apaixona sem motivo com tanta frequência quanto eu termino relacionamentos, o que é só um pouco menos do que a frequência com a qual eu faço piadas cretinas. Então sim, ok, pode até ser que um dia você esteja em uma festa e se conecte magicamente com uma menina que te sorriu. Mas sinceramente? Quais as chances?

Mais: quais as chances de que isso seja mútuo? Ou que vocês realmente consigam estabelecer um relacionamento, que exista algo ali que possa sobreviver a convivência, aos traumas, as brigas, ao trabalho desgraçado que é dividir a vida com alguém? Tenho um outro amigo que diz que, quando um relacionamento dá errado, ele gosta de assistir As Canções de Amor para lembrar que é um negócio complicado, bagunçado e que raramente dá certo. Concordo com ele, é impossível sair de mãos limpas.

Eu sei que para uma pessoa com tanta resistência a relacionamentos eu falo muito deles. O que talvez queira dizer que eu tenha um grande apreço pela possibilidade de pessoas se relacionarem de forma livre, autêntica e verdadeira para as duas porque sei o quanto isso é difícil. O quanto isso é quase impossível. E também porque eu acho os relacionamentos um belo ponto de vista para se pensar a humanidade.

Vejam, eu gosto de pessoas, desde que elas mantenham a distância segura estipulada e não sejam mini-seres humanos também conhecidos como crianças. Eu acho que o mundo é feito de pessoas, a arte fala sobre pessoas, o que realmente importa são as pessoas nesse mundo e então eu gosto de observa-las e me parece que a humanidade gosta muito de contar sobre si mesma histórias que falem de amor, guerra ou morte.

Eu gosto da morte, bastante até. Mas o lugar dela não é aqui, o lugar dela não é ser dissecada e analisada e refletida no meu blog. Trato dela com mais deferência.

Não estou na guerra. Às vezes até penso em me alistar na legião estrangeira, seria charmoso, ou ser voluntária no exército de Israel e aí me lembro que só estou entediada. Me pergunto quantas guerras não começaram por tédio, pensando agora, a humanidade gosta muito de falar sobre o tédio também.

Me resta o amor. E se você pensar, Jane Austen, que falava incansavelmente sobre ele, morreu solteira em uma época que isso significava sozinha, talvez de fora seja possível ter mais perspectiva. É, mas não estou de fora, nunca estive, e de dentro ele não funciona em nada como em Beginners. Não se sai de mãos limpas e ele não dá um sentido mágico para a sua vida.

Eu sinto dizer que um relacionamento não vai fazer tudo ficar magicamente bem ou a existência parecer menos vazia e absurda do que é. Talvez nos primeiros momentos, talvez para algumas pessoas muito conscientes do que é significativo para elas, mas não com uma menina que lhe sorri na festa e te leva para um quarto de hotel. Não se as pessoas não forem mais nada além de seres apaixonados e é isso, sobretudo, que me incomoda nesses filmes. Como se nada mais importasse, ninguém lesse mais livros, ou visse filmes, ou tivesse um projeto ou quisesse ver o mundo uma vez que se apaixona. Aquilo basta, vamos ficar juntos e isso é tudo que importa.

Já fui trocada pelo mundo mais vezes do que gostaria e em todas elas minha reação foi algo como “cara… vai, o mundo é mais legal do que eu, se eu pudesse também te trocaria pelo mundo, também iria ser voluntária no orfanato da Madre Teresa ou coisa assim”. Me incomoda essa simplificação da coisa toda, esse achar que é só enfiar um pouco de amor ali no vazio que ele tampa. Não é, e eu já falei disso mesmo aqui.

Me incomoda muito essa obsessão com completude e perfeição que às vezes temos. Com uma existência que faça sentido. Com o amo como algo que acontece linearmente, simetricamente, ao mesmo tempo e dá mesma forma para os envolvidos. E isso me incomoda profundamente em um filme que não é abertamente um conto de fadas, em um filme que se propõe olhar para o amor, só que não olha. Nem em Harry e Sally as coisas são tão mágicas quanto em Beginners. Porque o amor não é mágico, ele é, provavelmente, a fazer uma emboscada além das linhas inimigas bósnias tendo apenas uma faquinha enferrujada escondida no coturno. Ou algo assim, não sou boa com metáforas de guerra.

Só sei que é impossível sair sem estar coberto de sangue.

(Ainda estou em Cuba, esse post é programado, achei que um pouco de pessimismo ia bem para todo mundo lembrar que 2014 vai continuar a mesma bosta)

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