Dos lugares sonhados

Eu nunca entendo muito bem por que os lugares entram dentro de mim. Por que a obsessão com a Índia, o Nepal, a Islândia. Por que, se dinheiro e distância fossem questões suspensas, meus pés me levariam ao Vietnam antes da Austrália, à Mumbai antes de Roma e à Havana antes de Machu Pichu.

Eu coloquei uma mochila nas minhas costas e saí para ver o mundo pela primeira vez aos 19 anos. Não que a essa altura eu já não tivesse visto muita coisa, não que eu já não tivesse me perdido no Louvre, aberto a testa em Punta Del Este e morresse de saudades do sorvete com balinhas de Israel (você sabe que sua relação com o país é de um afeto de criança quando até hoje sente falta das porcarias de comer) . Mas aos 19 anos pela primeira vez foram meus próprios pés, e não ser carregada por aí.

Eu saí pra América Latina, sem motocicleta porém com ônibus cheios de cabras, e me lembro de em uma viagem infinita entre Lima e Nazca comentar com o então namorado o como eu gostaria de ir à Cuba.

Bom, aqui estou, em um dos meus lugares sonhados.

Acho que Cuba entrou em mim pela primeira vez em 2001, quando eu assisti Buena Vista Social Club. Não era a música, embora fosse também, mas foi o close no rosto do Ibrahim Ferrer no fim do filme. Eu ainda não sabia o que era close, e revi esse filme muitas vezes depois de aprender até do que se trata um plano americano, e sempre me fascina esse último take. É o fim do show deles no Carnagie Hall e a câmera se aproxima do Ibrahim Ferrer, de terno vermelho, e ele tem um tipo de fascínio nos olhos, de calor, de felicidade, de espanto mesmo que eu nunca vi igual.

No início do filme o Ry Cooder diz que se lembra de quando o viu pela primeira vez, como “um Nat King Cole cubano, poucas vezes na vida se vê alguém assim”. Acho que a Cuba que entrou em mim foi a de um lugar onde se possa ver essa gente, essa gente que poucas vezes na vida se vê igual.

Depois vieram outras coisas, Orishas e o tempo em que a gente se achava melhor por conhecer uma banda de hardcore cubano, Soy Cuba, o Hemingway e aquela montagem tão linda de Don Quixote que vi com o Ballet Nacional, o Pedro Juan Gutierrez. Mas o cinema foi sempre minha primeira janela para o mundo e os lugares sempre entraram em mim sem eu saber por que, talvez nem tenha sido o filme, mas os piratas, aqueles por quem eu era tão fascinada quando nem tinha altura para andar de montanha russa.

Nunca me apaixonei a primeira vista. Nunca sequer me apaixonei em um primeiro encontro. Mas me apaixonei por lugares que nunca vi, me apaixonei por Havana antes de jamais ter posto os pés aqui.

É a primeira vez em muito tempo que piso em um lugar com o qual sonhei tanto e, briguem com o Fidel, vocês provavelmente terão que esperar minha volta para saber como foi. Tenho certeza que vai ser igualzinha, e completamente diferente, de tudo que eu imaginei. Costuma ser assim quando eu me apaixono, parece que faz todo sentido, mas é sempre um desastre completo, embora eu nunca me arrependa. Não sou chegada em me arrepender. E sei que em algum lugar desse país tem um forte pirata, nunca poderia me arrepender de um lugar em que existe um forte pirata e onde mojitos são a bebida nacional.

Mas sei que nunca me senti tão próxima daquela vez, seis anos atrás em que, tendo recém-lido “De Motocicleta Pela América do Sul”, fechei minha mochila e fui andar quatro dias até Machu Pichu.

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