Canção de amor e ódio

Acho que a grande definição desse ano é: eu ia pra Índia, mas acabei em Cuba.

Oi, bom, dia, estou aqui na terra do Fidel, esse post é programado, estou bêbada de mojitos, espero encontrar o homem que vá me levar pra escalar o Kilimanjaro. Na verdade não, quando esse post entrar estarei em um avião a caminho do Panamá, para então fazer uma conexão e chegar em Havana onde ficarei bêbada de mojitos. O importante é que meia noite vou estar dançando salsa e me esfregando em um dos “handsome guerrilla bearded boys” que o Lonely Planet prometeu que eu ia achar (voltem alguns meses e descubram porque eu nunca, NUNCA, deveria acreditar no Lonely Planet, mas enfim).

Mas voltando: a grande definição de 2013 foi eu achar que estava indo para algum lugar e acabar em outro completamente diferente. Eu achei que ia ter um emprego, desisti e comprei mais uns meses para saber quem eu sou; eu “fiz uma escolha” dei a volta e acabei com o que não tinha escolhido daquela vez; eu perdi o chão e ainda não descobri muito bem o que fazer com isso.

2013 foi mais que tudo um ano longo, um ano terrivelmente longo, tão longo que aqui, no fim de dezembro  eu mal reconheço a pessoa que eu era em janeiro. É um ano tão longo que me custa dizer que não foi um ano ruim, embora esses últimos dois meses tenham sido, no mínimo, complicados. Mas a verdade é que não foi mesmo.

Em 2013 eu escrevi, eu escrevi muito, eu escrevi feito uma doente. E eu achei minha voz. Aquilo que eu mais sofria quando tentava escrever que era soar como eu mesma. A quando eu achei minha voz, as pessoas passaram a ler, os acessos desse blog deram um salto de ginasta ucraniana, eu publiquei na França, meu nome saiu pela primeira vez em um livro (não era o contexto mais ideal do mundo, mas saiu). Eu descobri o prazer imenso que eu tenho quando escrevo, sejam críticas de filme, seja o tipo de coisa que vem parar aqui, eu me encontrei, eu perdi todas as dúvidas se era isso mesmo que eu queria fazer da minha vida.

Eu li muito, mas li menos do que escrevi. Eu li Ulysses, Cem Anos de Solidão, Anna Karenina, No Coração das Trevas, quatro livros do Philip Roth (haja judeu neurótico nesse meu ano). Eu escrevi no meu diário menos do que escrevi para o público e acho que essa também é uma boa definição de 2013.

Nesses últimos 12 meses eu pisei em 7 países diferentes, 4 dos quais eu nunca tinha ido; aprendi a ler cirílico; andei de balão; pulei de paraglider; cantei Total Eclipse of the Heart no karaokê (alias, cantei muito em karaokês, montes de coisas aconteceram em karaokês, foi o ano do karaokê); provei comida indonésia; voltei pro ballet; peguei um muçulmano (na verdade fiz um bom rolê pelas religiões minoritárias, mas guardaremos a privacidade do povo); fiz duas tatuagens; vomitei no elevador do prédio de um cara; viajei sozinha;andei por 5 horas com mais sabe-se lá quantos milhões de pessoas naquele dia que todo mundo saiu na rua; vi o túmulo da Isadora Duncan; chorei na ponte aérea; tirei um gato da sarjeta, trouxe pra casa e chamei de Gatsby; quase morri no barranco; fui atacada pelo maníaco das mãos; sobrevivi a estradas turcas; comprei um vibrador de uma vendedora tatuada enquanto chupava um pirulito de maconha.

Li 57 livros, vi 130 filmes.

Fui ao Mont Saint Michel e me senti em um sonho de obcecada por idade média.

E fiz amigos. Muitos amigos. E não me permitiria nunca dizer que 2013 foi um ano ruim porque nunca, na minha vida, tive tanta gente tão querida em volta de mim. Em certo ponto da minha festa de aniversário, em que eu me dividia entre duas mesas lotadas, eu só pude parar e rir, feliz e correr para abraçar a pessoa mais perto de mim. E de lá para cá existe ainda mais gente.

A diferença é que eu resolvi, pela primeira vez, deixar que as pessoas entrassem. Eu até me deixei ficar com alguém sem pensar muito se eu ia ou não me apegar, se eu ia ou não me machucar, só fui me deixando ficar. Fui para todo e qualquer convite de bar, respondi com sinceridade ao interesse das pessoas por mim, me interessei por elas, engoli em seco e conversei com estranhos.

Pode ser que para tudo isso eu tenha bebido um pouco demais, nem sempre com bons resultados. Pode ser que eu tenha bebido demais por diversos motivos, nem sempre com bons resultados. Mas a questão é a seguinte: para se matar um leão é preciso uma arma não? Vodca ou espingarda, é tudo a mesma coisa. Inclusive, eu e a cachaça melhoramos muito nosso relacionamento, somos íntimas agora, melhores amigas até. Para o ano que vem pretendo finalmente desenrolar aquele relacionamento com o whiskey.

No fim de 2013 eu tenho um pouco a sensação de que quando tinha 16 anos, cabelo rosa, e passava meus verões entediada na varanda lendo Salinger e esperando a vida começar a acontecer era exatamente por isso que eu estava esperando. Isso sendo essa coisa desorganizada e intensa e ridícula que é na maior parte das vezes.

E aí, eu resolvi não fazer concessões. No fim de 2013 eu ia pra Índia, mas acabei em Cuba. Eu ia seguir o caminho esperado, mas disse não. Disse não para um emprego e decidi defender esse mestrado e ir viver de brisa do mediterrâneo, vinho de dois euros e subemprego no sul da França, pelo menos por uns meses. Eu decidi que preciso ir embora, preciso ver o mundo, preciso me preocupar em fazer pouca coisa além de viver, pelo menos por um tempinho.

Também enfiei meus dois pézinhos em histórias que não podem, não tem como, não acabar em desastre. Mas eu cansei de ter medo. E honestamente, ter medo não em poupou de nada, certamente não me poupou de chorar em meios de transporte.

2013 talvez tenha sido o ano que eu fugi menos e vivi mais. Só agora, doze meses depois, eu consigo entender o peso e a dimensão do que eu deixei em 2012, daquela enorme possibilidade que eu abandonei, da dor que não é mais minha. Pobre soldado sentado do meu lado naquele ônibus em que eu chorava compulsivamente.

No fim, apesar de tudo, eu gosto muito de quem me tornei esse ano, de tudo que eu deixei pra trás e do que eu decidi não ser. Agora estou aqui, fazendo uma roadtrip socialista sob o sol do Caribe. Me parece um bom prêmio. Pretendo dançar salsa, fazer topless e voltar com um bronzeado latino caliente. Veremos. Tenho a impressão que mereci esse mar azul, essa garrafa de rum, esses charutos.

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