Kirikou não é grande (1 de 194)

Então eu disse que veria um filme para cada lugar do mundo e nunca mais falei nisso, porém o projeto (ainda) não morreu. Começamos pelo fácil, mas começamos também pelo simbólico: a França.

Eu não preciso fazer contas para saber que com certeza vi filmes americanos mais que qualquer outra coisa, mas certamente os franceses estão em segundo lugar.Eu vi Paris pela primeira vez aos cinco anos, entrei nas aulas de francês aos 13 e me apaixonei irremediavelmente pela Anna Karina aos 18. Há muito tempo atrás, antes de me chamar de Daisy, ele me chamava de francesinha. E o primeiro filme não americano e não brasileiro que eu vi foi um filme francês e eu começo com ele.

Se vamos dar a volta ao mundo simbolicamente, nada mais justo que começar sendo extremamente simbólica: Kirikou e a Feiticeira. Aos 9 anos eu empaquei em uma rua do Marrais e disse que dali não me movia, não dava mais um passo, se não fosse para entrar naquele cinema onde havia uma fila de crianças. Não me importava que eu não entendesse a língua, era um desenho, tinha uma bruxa e eu estava tão exausta que não pude ser comprada nem com kneidlers. Assim assiti Kirikou e a Feiticeira.

Agora, 15 anos depois, assisti de novo e entendi porque o cinema sempre foi minha janela. Kirikou não é apenas uma animação francesa, é uma animação francesa passada em uma tribo africana em algum lugar não especificado. É uma tribo de fábula, como aquelas histórias das mil e uma noites que se passam em algum lugar mítico do oriente médio, com um sultão que nunca existiu.

Nos Estados Unidos o filme acabou não passando porque os personagens andam nus, peitos e pintos aos montes e ele só poderia entrar em cartaz com uma censura alta, o que não faria o menor sentido, já que é uma história de crianças. Porque Kirikou e a Feiticeira é uma história para crianças, não uma animação complexa, densa e ambiciosa, é só uma história para crianças, contada de outro jeito, falando de pessoas de outro lugar.

Kirikou é a criança mais precoce do universo: nasce sem ajuda, andando e falando, mas com o tamanho de um bebê. Ele é minúsculo e extremamente inteligente e muito, muito corajoso. Mas a coragem de Kirikou é diferente da de heróis da Disney, ela é irresponsável, desenfreada, quase anárquica. Kirikou é um protagonista que é quase puro impulso, energia concentrada em um corpinho minúsculo e ao rever o filme eu não me espantei em nada que, mesmo sem entender uma palavra, ele tenha me ganhado tanto.

Quando Kirikou nasce, sua tribo vive controlada pela feiticeira Karaba, que comeu todos os homens adultos, roubou todas as jóias das mulheres e fez secar o poço. Porém, ao contrário dos outros habitantes, ele se recusa a resignar-se e vai atrás de seu avô, que vive escondido dentro de uma montanha, para obter respostas e um plano. Kirikou não vence Karaba pela força e nem tanto pela inteligência, mas por essa coragem insensata, pela disposição de se jogar em coisas com uma probabilidade de 99% de darem errada. Ah, Kirikou, como eu me identifico com você.

Embora exista a grande narrativa da derrota de Karaba, o filme funciona mais como um “as aventuras de Kirikou”, são pequenos esquetes em que ele evita que as crianças sejam sequestradas, faz voltar a àgua do poço, encontra o avô e, por fim, derrota a feiticeira. É um filme bem curto, algo como 70 minutos, então tudo é extremamente acelerado, quase como o personagem.

Mas apesar a história simples e da narrativa acelerada, o traço da animação é uma coisa primorosa. Repleto de detalhes e em um estilo que, de novo, se parece muito pouco com o que em geral se vê em animações infantis. O desenho enfatiza a forma das roupas, o rosto dos personagens e o contraste entre as cores muito vivas e o fundo amarelado, como se tudo fosse quase uma pintura.

Mas mais do que o traço lindo, a história eficiente, o que ainda hoje me faz amar esse filme é expor um mundo novo. É a forma como ele me marcou ao mostrar um mundo novo. O desenho era diferente, a história era diferente, as personagens, a moral da história, tudo. E eu me apaixonei. Pelo filme e pelo meio, naquele minuto. Conto que foi Réquiem Para um Sonho o filme que me levou para a faculdade de cinema, mas talvez tenha sido Kirikou e a Feiticeira e o desenlace que se recusava a me dizer que algumas pessoas eram más e outras eram boas, que era preciso ser prudente além de corajoso.

Kirikou e a Feiticeira foi meu primeiro filme de um país estranho, meu primeiro filme estranho. E aqui ele é o primeiro de 194.

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