E me livre de ser o amor da vida de alguém

Há exatamente uma semana atrás, quando eu saí da sessão de Azul É A Cor Mais Quente, a única coisa que eu conseguia pensar é: não quero, por favor não quero, universo me livre de ser o amor da vida de alguém.

Algumas vezes eu devo ter dito que não acredito em “amor da vida”, porque se existir eu já encontrei e perdi. A verdade é que não acredito mesmo, na história de que há uma única pessoa verdadeiramente certa para você em algum lugar do mundo, que vocês são almas gêmeas, cara-metade, completam um ao outro. Já não acreditava quando estava com a pessoa que poderia me fazer acreditar. No fundo acho que essa frase é mais um olhem para mim vejam como eu sou irônica e engraçada e faço graça do meu pessimismo a bosta do mundo não me afeta. Sou terrivelmente auto-consciente, é minha maior tortura.

Mas não, não acredito em amor da vida nesse sentido. Não acredito em metades, em alguém que te completa. Detesto a ideia de duas pessoas que não são inteiras, exceto juntas, quase tanto quanto odeio lavar a louça, falar ao telefone e ou vislumbrar a possibilidade de um dia receber rosas vermelhas.

Acredito nos encontros de circunstâncias, acho que todo amor morre, eventualmente, porque as pessoas mudam e pessoas inevitavelmente mudarão para lados opostos. É algo triste, mas inevitável e honestamente acho que a efemeridade do amor só tem a contar em favor dele, como a da vida. Adoro cemitérios e mais medo do que ser amor da vida de alguém só o de viver para sempre.

Mas tudo isso é digressão.

Eu acredito na expressão “amor da vida” quando diz respeito àquela pessoa que foi amada mais do que qualquer outra. Me dirão que amor é algo não mensurável e eu responderei que isso é romantismo barato, amor se mede sim e todo mundo tem alguém que amou mais do que qualquer outra pessoa na vida.

Quase sempre é o primeiro, o que faz um tremendo sentido. Primeiro amor é pular de um penhasco sem ter ideia da dor que vai ser quando der com a cara lá embaixo, todos os outros são pular de bungee jumping. Nem sempre é o primeiro, porque tem gente que é masoquista, esquizofrênico, desprovido de razão ou senso de sobrevivência. Vai saber. Tem gente nesse mundo que gosta de lavar louça. Em Azul É A Cor Mais Quente, porque a proposta é realista, é o primeiro amor.

O “amor da vida” é aquele que, mesmo que você saiba que não iria mais dar certo, que acabou, que morreu, carrega para sempre um gosto amargo de perda. Não é uma perda que se possa dar de ombros e dizer “é a vida, é uma pena, aconteceu”. Como a Summer (sim, a de 500 Dias Com Ela) que tem uma frase maravilhosa quando o Tom lhe pergunta o que aconteceu com um determinado ex-namorado: “o que sempre acontece, a vida”. Amores acabam, de muitos, mesmo que na época você não quisesse que acabasse, é possível dizer que foi a vida, acabou, é triste, mas assim acontece.

Do tal amor da vida não. Ele vai ser para sempre aquele que você não se conforma com a perda, aquele que você vai confundir com a ideia idiota de que existe uma pessoa única no mundo que te completa e foi aquela e você perdeu. Para sempre a tentação de imaginar que se vocês tivessem continuado juntos a vida seria ótima e toda a merda que aconteceu, mesmo a merda que nada tem a ver com relacionamentos, seria evitada.

Quando as protagonistas do filme terminam, o relacionamento já é uma bosta. Temos uma Adèle que nunca conseguiu desenvolver uma personalidade autônoma, uma Emma que não consegue sair de si mesma e entender as escolhas da namorada como tão válidas quanto as suas, duas traições, tédio, sufocamento e claustrofobia. Ainda assim, quando tudo acaba, temos Adèle para sempre imaginando que seu lugar era ao lado de Emma, que tudo seria melhor com ela e de alguma forma sabendo que nenhum relacionamento nunca vai ser como aquele.

Talvez isso seja algo bom. Talvez nenhum relacionamento vá ser como aquele porque em nenhum ela vai ter a mesma sensação de ser completada, preenchida, una com o outro. Eu consigo entender como isso parece ruim, mas só consigo ver como algo maravilhoso. Dolorido, mas maravilhoso. Como um filme do Bergman, um livro do Coetzee, um quadro do Pollock, as coisas verdadeiramente maravilhosas desse mundo são sempre doloridas. E incompletas.

Seres humanos são incompletos, insuficientes, incapazes. Somos feitos de angústia, somos ser para morte, somos almas vagantes com um buraco do lado de dentro que tentamos sempre tampar. E se tampamos? Alguns filósofos dirão que nem vale a pena se fazer essa pergunta, dado que é totalmente impossível. Não acho que seja, mas acho justamente que algo de maravilhoso se perde se você é capaz de tampar o vazio.

A angústia, Camus por exemplo diria, não é algo ruim. A incompletude é uma parte da condição humana é o que nos faz humanos, o buraco que nos move, a busca, o movimento, a angústia de tentar fazer um sentido da existência e mergulhar na própria existência para achar esse sentido. Tenho a mesma tendência de todo filósofo a explicar o mundo pelas minhas próprias angústias, meu próprio ser. Camus e Sartre e um milhão de outros não fizeram mais do que elaborar um sistema que respondesse ao que lhes movia e quem sou eu para poder fazer diferente. Julgo o mundo pelo que sinto, mas pelo menos avisei vocês disso naquele link do lado direito chamado “quem”.

Há um buraco em mim que é meu e eu rejeito tampa-lo com outro. E meu medo maior é que alguém passe a vida acreditando que eu poderia tampar o dele.

Ao ver o filme o que me bateu é que talvez não exista dor maior do que aquela de imaginar que já se possuiu o objeto capaz de tampar o vazio e ele se perdeu. Ou foi embora. E passar a vida toda sentido saudades desse estado de completude e de união, imaginando que o mundo faria mais sentido com aquela pessoa. Eu tenho um medo terrível de causar esse tipo de dor.

Tenho um medo terrível, imenso, gigantestco, de que alguém possa acreditar que se sentirá mais inteiro estando comigo. Não sei explicar, é o tipo de fobia irracional que algumas pessoas tem de barata, acho. Talvez tenha a ver com a minha claustrofobia. Ou com a minha recusa de me sentir inteira. Tenho medo apenas. Me perturba profundamente a ideia de que alguém ande pelo mundo incapaz de se conformar com a minha ida, com a minha perda.

Assisti o filme e consegui sentir toda a dimensão da dor da Adèle porque eu também já tive um amor da vida e me aterrorizou a ideia de que alguém sinta isso por mim.

 

 

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3 comentários

  1. Bah…Ao término desse texto minha sensação foi a que você tinha acabado de transcender, narrar pedaço por pedaço minhas palavras e sentimentos. É lindo a coragem de expor a alma e principalmente esbarrar em pensamentos e posições similares. Obrigada pelo texto.

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