Planejando uma rota de fuga

Eu acho que preciso me planejar melhor antes de entrar em relacionamentos.

(não, esse não é um texto surrealista, não estou tentando captar o absurdo da existência ou das interações interpessoais, embora elas sejam absurdas, nada assim)

Não quero dizer me planejar no sentido de tentar medir o potencial de merda de uma coisa antes de começar. Afinal, o que seria desse blog se eu parasse de levar foras? O que seria da minha, já falida, carreira artística se eu não tivesse mais relacionamentos disfuncionais, maníacos obcecados ou ex psicopatas? Imagina se um dia eu tenho algo estável e saudável com um cara que não beire a loucura diagnosticada? Tenho medo que eu derreta tipo a Malvada Bruxa do Oeste, prefiro não arriscar.

Não, obviamente não é disso que eu falo. Há poucas coisas nessa vida que rejeito mais do que a ideia de medir os riscos e evitar sofrimento. Essa coisa toda já é longa e entediante o suficiente com eu me enfiando em todo tipo de erro.

Mas por exemplo, há um tempo atrás eu comprei um vestido para sair com um cara (ok, talvez não tenha sido por isso, mas vou tomar uma licença artística pelo didatismo), a coisa toda já acabou faz tempo e eu ainda estou aqui pagando parcelas. Cada vez que vem minha fatura do cartão e eu vejo aquela parcela da Farm é como se tomasse um tapa na cara me lembrando de tudo aquilo que podia ter sido e não foi. Quer pagar em crédito ou débito? Quero em arrependimento, esprit d’escalier e frustração em cinco parcelas, por favor.

No fundo do meu quartinho de empregada tem um dvd que um ex-namorado me deu de um filme que nem é bom, mas tinha a ver com um apelido que ele me chamava. Nunca mais verei esse filme, nunca mais posso ver a caixa do dvd sem pensar em todo aquele longo relacionamento arrastado e entediante que eu levei anos pra terminar. Poderia passar o dvd para frente, mas estou guardando para o museu dos relacionamentos partidos, aquele onde minha vó diz que eu teria uma exposição de sucesso. Sorte que o filme nem é bom.

Acontece que às vezes os filmes são bons, as músicas são ótimas, a cidade é adorável. E eu não consigo mais voltar a eles.

É uma mania irritante e terrível essa de associar coisas às pessoas. Músicas, principalmente músicas, sou como um cachorrinho de Pavlov que nunca mais poderá ouvir Adeus Você sem querer chorar. Sou alguém que nunca leu On The Road. Que não sabe se vai rever Adeus Lênin. Não é tudo relacionado aquela pessoa, mas é aquela coisa que por algum motivo me lembre da parte dele que faz falta. Ou da parte que eu odeio em mim.

O filme italiano que nem é bom me lembra da parte que eu odeio em mim. Adeus Lênin me lembra do meu aniversário de dezesseis anos. On The Road é tudo que há de encantador e profundamente frustrante nele. E eu realmente queria ter lido On The Road.

Nunca quis passar um ano inteiro sem ouvir Foo Fighters. Nunca quis perder meu ponto de fuga. Mas perdi. Porque não sei me planejar, porque misturo e confundo e tenho sempre aquilo que me lembra de algo que eu perdi no exato ponto em que mais dói.

Eu sou uma pessoa de cicatrizes mal fechadas. De cortes que eu teimo em abrir de novo e ficar cutucando porque dói, por motivo nenhum, apenas porque dói. Eu fiz uma tatuagem no pulso porque precisava da dor. E porque tive medo. O problema é que cada um desses fragmentos é como se eu sem querer errasse a mão e, em vez roçar de leve a faca naquela casquinha, eu a enfiasse de novo e rodasse dentro daquela ferida infeccionada e nojenta porque está lá há anos e eu não deixo fechar.

Não deixo nada fechar. Deixo as pessoas irem, mas não deixo a ferida fechar.

Como vinagre que jogaram em cima eu queria chorar todos os dias, o tempo todo. Comecei chorando no taxi, desejando aquele trânsito, aquele atraso, a chuva, o cancelamento, qualquer coisa. Era uma dor e uma falta em cada fibra do meu corpo.

Faz dez anos que eu abri um certo corte. Se fosse uma ferida concreta, ela já teria se infestado de vermes, virado uma escara e me obrigado a amputar o braço. Não acho que seja diferente com feridas emocionais, talvez o que tenha acontecido é que essa ferida apodreceu e precisei amputa-la, faz sentido, hoje em dia dói menos. Incomoda, como uma cicatriz que pulsa às vezes, mas não chega realmente a doer. Não mais, acho que por um tempo eu estava com aquelas pessoas que perdem um braço e ainda podem senti-lo, mas passou. Finalmente. Talvez eu até reveja Adeus Lênin.

Ainda não estou pronta para ler On The Road. Para voltar. Preciso realmente me planejar melhor.

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1 comentário

  1. On the road, uma grande desilusão, durante minha adolescência, nos longínquos anos 70, constantemente encontrava entrevistas que falavam daquele livro imprescindível, que mudara a vida da maioria dos meus ídolos, só tinha um probleminha, o livro estava esgotado a vários anos no Brasil, assim quando saiu uma nova versão lá pelos anos 80 corri para comprar e me senti decepcionado, não gostei do livro, não gostei dos personagens, não gostei de nada. Talvez se tivesse lido aos 16 ou 17 anos minha opinião fosse outra, aos 26 o livro não me tocou.
    Mais ou menos 25 anos depois quando do lançamento do filme resolvi reler e continuei não gostando.
    Bom na realidade escrevi tudo isso para te deixar a seguinte sugestão: não crie expectativas, se você têm vontade não perca tempo e leia logo pode ser que te sirva de inspiração para cair no mundo, ou não.
    P.S. para aqueles que podem querer me crucificar por não gostar de um cânone aproveitem e façam por dois, fui ler o Hobbit somente depois de adulto (quase um velhinho na realidade) e também não gostei.

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