Fossa das Marianas, Tatuagem e aquilo que queremos ser

A Fossa das Marianas é o ponto mais profundo da Terra, ela fica no Pacífico, entre as Filipinas e a Nova Guiné, tem 11.034 metros de profundidade e seu fundo foi tocado por humanos apenas duas vezes (uma delas pelo James Cameron que está pesquisando para fazer Aquaman Azul Avatar 2). Para comparação, o Everest fica a 8.848 metros de altitude e já foi escalado 5.104 vezes por 3.142 indivíduos. Creio que o frio, a pressão e a presença de formas de vida abissais desconhecidas e potencialmente perigosas tornem a descida ao fundo do mar algo mais improvável do que a subida ao topo do mundo.

Mais profundo, obscuro, inacessível e repleto de animais estranhos e letais que a Fossa das Marianas, só o espaço entre quem somos e quem queremos ser.

Não falo da distância entre eu, sentada na minha escrivaninha, fumando um cigarro atrás do outro e escrevendo em um blog que ninguém lê (mentira! muita gente lê esse blog! eu amo vocês, não me abandonem, não me desesperem, que eu não posso ficar sem voceeeeees. Tá, desculpa, parei, voltando) e eu ganhadora do Nobel. Se bem que atualmente tenho pretensões muito mais modestas, quero apenas um Urso de Cristal em Berlim e uma exibição na A Certain Régard em Cannes. Quem nunca fez um filme? Eu? Oras, mas isso é absolutamente irrelevante.

Mas não, não é disso que eu falo.

Falo da diferença entre o que nos identificamos racionalmente como sendo, o conjunto de ideias, valores, identidades que escolhemos ativamente e como nossas entranhas querem se comportar. Dou um exemplo: em Tatuagem (filme maravilhoso, aliás), temos dois protagonistas que são um casal, Clécio e Fininho. Clécio é um ator, diretor de um cabaré anarquista, partidário da mais profunda liberdade, da vida fora das caixinhas, do amor livre. Porém, quando em uma festa, Fininho transa com outro cara do cabaré, ele sente ciúmes. Porque assim é a vida. Porque é abissal e impenetrável o espaço entre quem somos e quem queremos ser.

É uma cena delicada e um trabalho de atuação primoroso que nos mostram o quanto o próprio Clécio se sente mal por sentir ciúmes. Ele sente ciúmes e ainda se sente pior porque rejeita racionalmente esses ciúmes. Fininho argumenta que foi ele mesmo quem lhe ensinou que ninguém é de ninguém. Clécio sabe, ele sabe. Mas dói mesmo assim.

Cheio de animais famintos e desconhecidos esse espaço entre quem somos e quem queremos ser. Cheio de bichos pré-históricos, monstros que se instalaram ali anos atrás e permanecem escondidos, vivendo em zonas que a ciência diria que a vida se torna impossível. Na época em que eu ainda tinha Discovery Channel, nada me fascinava mais do que documentários sobre peixes de zonas abissais, aquelas coisas horrorosas com dentes para fora e lanterninhas na cabeça, nem mesmo documentários sobre gatos grandões (o que é um tigre senão um gato grandão, não é mesmo?).

Entre as muitas coisas pelas quais eu nutro uma obsessão estranha, estão monstros de todos os tipos e formatos. Zumbis, especialmente, mas ets, vampiros, lobisomens, chtulus, monstros marinhos, etc, etc. Me fascina essas representações do que a humanidade tem de mais repulsivo e obscuro, dessas coisas obscuras que vivem dentro de nós, mas precisamos manifestar na forma do outro assustador. Romero nunca se enganou, os zumbis somos nós.

A Fossa das Marianas, obscura, misteriosa e impenetrável, é o espaço entre meu eu estudado, minha opinião na questão Israel-Palestina e meu medo ao ler lista de mortos em um atentado. Entre a crença de Clécio no amor livre e o ciúmes que sente de Fininho. Entre o discurso feminista daquele cara e a vontade que ele teve de chamar de vadia a menina que o trocou por outro.

Nós escolhemos valores nos quais acreditamos. Escolhemos um ser humano que queremos ser. Lemos, pensamos, discutimos, sabemos tanto, almejamos tanto. Mas somos feitos de uma matéria desgovernada, de átomos e hormônios e células e poeira de estrelas e o que quer que seja. Somos feitos de passado, de sombras, de traumas, de sonhos, de coisas que entram por baixo da nossa pele e nem vemos.

Eu quero acreditar no amor, mas não consigo. Ela quer não ser monogamica, mas não pode. Ele quer acreditar que não almeja mais do que tempo para tomar cerveja a noite, mas é mentira. Ela quer fazer algo inconsequente e trava. Caímos em um buraco de 11.034 metros cujo último visitante foi um cineasta dos piores que infelizmente não foi comido por um peixe pré histórico.

Na minha tendência a imaginar cenários improváveis, a me sentir atraída pelo estranho e o obscuro, eu imagino os animais das zonas abissais do oceano como mágicos relatos de uma outra época, como capazes de viver um milhão de anos. Ou como ets. Ou posso mesmo acreditar que exista ali embaixo uma comunidade de seres humanos digna de um romance de Júlio Verne. Posso fantasiar mil vezes o estranho e posso fazer o mesmo com o espaço escuro dentro de mim. Porque não posso descer ao fundo de nenhum deles. Precisaria de um batiscafo do exército americano (por que não russo?) para isso e ainda assim o que eu poderia ver? O que se pode ver a 11.034 metros de profundidade?

3.142 seres humanos tocaram o ponto mais alto da Terra. 3 o mais profundo.

 

(esse texto é um ensaio para um ensaio, uma tentativa de jogar ideias que eventualmente virarão um texto mais longo, elaborado e possivelmente menos engraçadinho.)

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2 comentários

  1. Engraçado esses números: faz comparação perfeita com a vida real. Onde quem sobe e aparece é mais apreciado do quem desce em busca de auto-conhecimento. Engraçado e triste. Ainda não vi Tatuagem, mas está na lista. Acho lindo isso de lutarmos contra o que somos, ensinados ou não, a sentir e ser. Dói mesmo. Mas acho que sempre saímos melhor do outro lado, mesmo que com cicatrizes.

  2. OI Isa, gostei muito do seu texto. A metafora eh genial. Mas foi como ver um trailer de um filme que parece otimo. Voce nao ve a hora de estrear.

    Fiquei imaginando o filme original, onde nossa destemida heroína sequestra o submarino do JC (criando uma ruptura nas filmagens do proximo Titanic ou do Aquaman) e cataloga a vida marinha, a sensação, o processo de chegar no fundo de si mesmo. Que monstros ela veria? a partir de que ponto pararia de ver a luz da superficie? algum mito a vista (Lula Gigante, Moby Dick)? Acho que ninguém voltaria pra superficie do mesmo jeito. Ate JC parou de filmar depois de ter chegado no fundo e começou a dar uma de Jacques Cousteau (ironicamente tb JC). O cara ficou tao ecopsicotico que batizaram uma nova especie de sapo na Venezuela de Pristimantis jamescameroni.

    E gosto da ideia da assimetria… todo dia tem uma noite, um sol uma lua, um verão um inverno, um preto um branco. Nem sempre sao simetricamente perfeitos… quantos talentos ou tracos nossos tem um lado B escuro? Ate porque, quanto maior a estrela, maior a sombra.

    Parabéns pelo talento.

    MM

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