Bashevis Singer e a estranha permanência das coisas

Há alguns dias eu comecei a ler os contos do Bashevis Singer, as tais “collected stories” no original que não é original e que saiu aqui em uma daquelas edições listradas da Companhia,  com uma tradução que me faz sofrer. Eu estou só no sétimo conto de 47 e me parece cedo para vir falar sobre ele, mas já nesses contos algo me chamou atenção: o ponto do Bashevis Singer é a permanência.

Isso me surpreendeu enormemente porque toda literatura judaica, sobretudo toda literatura idiche, pós-haskalá, ainda mais pós segunda guerra, me parecia a literatura da impermanência, das mudanças, da perda das raízes. Não que eu seja a grande especialista em literatura judaica, inclusive larguei no meio uma matéria sobre isso, mas eu li uma quantidade razoável dela. Só nesse ano eu li Jó, do Joseph Roth, um livro sobre o esfacelamento do mundo judaico tradicional e  As Aventuras de Augie March, do Saul Bellow, que começa com um judeu afirmando “sou um americano”.

Mesmo o Sholem Aleichem, o tema dele parece ser a consciência de que aquele mundo, aquele universo isolado e hermético de aldeiazinhas russas estava morrendo, é dele, afinal, a peça que inspirou O Violinista no Telhado. E tem aquele conto maravilhoso, que eu não sei como ficou em português, mas em inglês se chama “On Account of a Hat”, sobre o momento em que um judeu percebe que entre ele e um oficial russo não há nada tão essencialmente distinto.

Até o Philip Roth, que você supõe já superou essa coisa toda, o homem já é a segunda geração nascida nos Estados Unidos e tal (acho curioso: Philip Roth tem a idade dos meus avós, mas é a segunda geração nascida lá, a primeira “não filha de imigrantes” que no caso da minha família, sou eu) tá lá em Portnoy’s Complaint com um moço sofrendo porque bate punheta e não consegue ser um bom menino judeu, quer ser um bom menino judeu, mas é bem mais legal pegar aquela loira com cara de vagabunda e bater punheta. (é óbvio que não pode bons meninos judeus baterem punheta, insira mãe judia aqui fazendo comentário constrangedor sobre como a coisa vai “afinar”)

Mas não pro Bashevis Singer. Seguindo a tradicional tendência a obsessão, ele conta sempre a mesma história, sobre o mesmo lugar, que pode se chamar Frampol ou Kreshev, mas é sempre uma vila polonesa, igual, todas iguais, como a que ele nasceu, a que meus avós nasceram, a que o pai do Art Spiegelman nasceu, etc, etc. E a história é sempre, de alguma maneira, a mesma.

É a história de como o pecado e a transgressão serão punidos e de como a permanência traz felicidade. Alguns desses contos são narrados por um demônio que consegue de fato corromper sua vítima, mas ela é sempre punida. Outras falam de alguém que teve a chance de mudar tudo, esquecer o passado e as raízes e se viu angustiado até o momento em que retomou aquilo que sempre fez, que sua família sempre fez, que séculos e séculos de antepassados sempre fizeram.

Me surpreende muitissimo esse  homem que morreu em 1991, que viu a segunda guerra, que saiu da Polônia, foi morar nos Estados Unidos, escrevendo sobre um mundo em que a corrupção é punida, os valores são estáveis e não há fluidez, incapacidade de crer nos valores ou angústia pela identidade. Todos sabem seu lugar, aceitam a punição por seu pecado, enxergam-se como parte de um mundo que funciona assim, sempre funcionou. Acho que tudo isso faz sentido quando se pensa que ele escreveu em ídiche a vida toda.

Eu não acho que um dia li um autor moderno tão preocupado em narrar as coisas que ficam e, mais que isso, crendo nas coisas que ficam. Porque algumas coisas ficam. Quando eu leio esse livro eu reconheço os ditados, boa parte deles eu sei em ídiche, eu sinto o cheiro das comidas, eu lembro da minha tia-avó brigando comigo porque com essa mania de cemitérios eu devo ter um dybbuk. Algumas coisas ficam, basta pegar um filme de dois anos atrás dos irmãos Coen. Mas ninguém se lembra de falar delas em frente a angústia do que não ficou, da identidade que não se tem.

Bashevis Singer é uma voz de um outro mundo, morto muito antes dele escrever. Ele narra coisas que soam como lendas, não por causa dos golens, demônios e espíritos maus, mas porque tudo é permanente. Eu nunca cheguei a sonhar com um mundo de permanência e nenhum escritor nunca soou tão próximo, em uma certa camada, e tão abissalmente distante de mim.

(Em tempo, é Chanukah, hoje é a sexta noite e esse livro, mais as pessoas que vejo carregando comida na rua me fazem pensar se latkes sobrevivem no correio entre Rio de Janeiro e São Paulo)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s