Fins (quase) reais

Há um tempo atrás, talvez um mês ou um pouco mais, eu li um livro da Sophie Calle chamado Histórias Reais. Ou, como ela mesma diz no autógrafo que me deu, quase reais. São fragmentos muito curtos, muito secos, de pequenos traumas cotidianos, de corações partidos.

Eu tenho essa teoria sobre os corações partidos. O clichê geral é que a dor é essa coisa descontrolada, esse monstro de sete cabeças que escapa dos seus olhos e das suas unhas e você se corta e se joga no chão e grita e se contorce e faz drama e que você parece tão quieta aí no canto não pode estar tão mal. Não é verdade, a minha teoria (ou talvez a minha hipótese baseada na empiria) é que corações se partem em silêncio. Quando eles se partem mesmo, de verdade, a fundo, muito fundo, a dor retira todo seu ar e você não pode gritar, às vezes, não pode nem chorar.

Dizem que se você perde uma perna ou braço a dor é tanta que seu corpo para de sentir, porque se sentisse você morreria, é tanta dor que ela já deixa de servir como qualquer mecanismo de defesa, é tanta dor que é inútil. Sinto que esse livro da Sophie Calle é um pouco assim. Ele tem uma dor imensa, mas muda, quieta, mínima porque se ela realmente desse vazão a toda essa dor acabaria morrendo.

Quando li o livro anotei que deveria escrever um texto sobre o fragmento chamado Casamento dos Sonhos. Essa palavra ficou escrita em um post-it na minha escrivaninha esse tempo todo eu a via todos os dias e tinha vergonha de mim mesma por te-la escrito. É claro que o texto não é sobre um casamento dos sonhos, não é nem sequer sobre um casamento, é sobre um coração partido. Mas a palavra ali me dava arrepios. Tenho uma amiga que tem dito “amor” e “apaixonada” muitas vezes e minha vontade é bater na madeira sai daqui coisa ruim aquele que não deve ser nomeado. Algo assim. Virei velhinha de igreja que não pode falar “demônio”.

(válido lembrar que no judaísmo não se pode é pronunciar o nome de deus. Sai daqui parte do meu cérebro que resolveu lembrar disso, fora, xô, esse texto não te pertence).

Na verdade virei uma cínica do inferno. Como se eu não fosse antes.

Esse texto não é sobre um Casamento dos Sonhos, é claro, é  sobre como a Sophie Calle desejou se casar no aeroporto com um homem que nunca mais iria voltar. Eu sou tão óbvia às vezes que me dá até ânsia. Eu sou tão óbvia, mas tão óbvia que só pude mesmo rir da minha cara. O que Sophie desejava era casar-se com um homem no aeroporto, deixar que ele fosse, dar uma festa sem ele e voltar para casa sozinha. O casamento era um adeus cerimonializado, como um velório. Me pergunto como cerimonializamos tanto o início de relações, mas não o fim? Eu adoraria ter um velório para os meus relacionamentos, enterrar uma caixinha com as coisas que ficaram, fazer kadish e não poder sair de casa por uma semana, cobrir os espelhos e só usar preto. Cobrir os espelhos seria bastante útil, eu acho.

Isadora, você nunca ia usar nada além de preto, nem nunca mais sair de casa. Ha Ha Ha, essa piada já perdeu a graça.

Eu me lembro da data de início da maior parte dos relacionamentos relativamente significativos que tive, mas não me lembro do fim. Bom, teve um que durou exatos 365 dias então ficou fácil, mas, tirando esse, não me lembro. Gostaria de lembrar, gostaria que fins fossem tão exatos, marcados e limpos quanto inícios. Algo começou ali, você pode não saber bem o que é, como é, mas começou. Quando aquilo termina? Que me importa saber quando começa? Quero saber quando termina. Quando deixo de receber emails, quando deixo de querer contar o que me aconteceu ou comentar um livro, quando quebramos o laço e viramos estranhos.

Fins deixam ranço. Deixam uma memória no ar, no corpo. O quanto é apropriado encostar naquele cara com quem você não exatamente terminou, só deixou de ver? A resposta deveria ser: absolutamente não encoste, porque você o faz e seu corpo esquece, vai quase sozinho e o dele responde mesmo que ele não queira, você nem sabe se quer na verdade, nada disso importa muito exceto o maldito ranço de tensão sexual que ficou entre vocês. E porque aquilo nunca teve um fim limpo você não sabe o como se sente, o quão estúpida se sente, se deveria se sentir estúpida, se parece a menina idiota obcecada, mas é só esse caralho de eletricidade, onde desliga? A essa altura você nem quer mais desligar, se for só isso mesmo, por que não?

Até porque não, não desliga, infelizmente.

Querida Sophie Calle não basta se casar no aeroporto. Não acaba porque você decidiu que acaba. Não se pode acabar, recolher as xícaras, limpar a mesa, apagar a luz e não deixar nada lá. Há um outro fragmento em que você diz que um homem lhe disse que você comia como uma porca, você mal se lembra dele, mas ele está sempre lá, sentado a sua mesa. Achei essa frase tão genial! Uma vez um homem me disse que eu andava como um elefante, eu mandei ele embora há muito tempo e já quase não me lembro do rosto dele, a voz dele há muito esqueci, mas ele está todas as terças e quintas sentado no chão da minha aula de ballet.

Quando voltei ao fragmento para escrever esse texto, percebi que ele se chamava Casamento de Sonho e não Casamento dos Sonhos. Agora sim faz sentido.

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