Simpatia pelo demônio

Não me interessa o sossego. Em Trilogia Suja de Havana, o Pedro Juan Gutierrez diz:

Não me interessa o decorativo, nem o bonito, nem o doce, nem o delicioso. Por isso sempre duvidei de uma escultora que foi minha mulher durante algum tempo. Havia em sua escultura um excesso de paz para que pudesse ser boa. A arte só serve para alguma coisa se é irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e desespero. Só uma arte irritada, indecente, violenta, grosseira, pode nos mostrar a outra face do mundo, a que nunca vemos ou nunca queremos ver, para evitar incômodos a nossa consciência. 

Pronto. Nada de paz e tranquilidade. Quem consegue o repouso no equilíbrio está perto demais de Deus para ser artista. 

É um pouco isso. Parece clichê, é um enorme clichê, mas alguma arte efetivamente nasce do equilíbrio, da paz de espírito? Existe arte que não seja, em um primeiro ímpeto, a vontade do artista de expurgar uma inquietação? Não me interessa a paz de espírito, a serenidade, definitivamente não me interessam.

Demorei muito tempo para descobrir isso. Que não me interessa o equilíbrio, o sossego,  silêncio. Passei tempo demais, um tempo cruel, e fiz esforço demais, um esforço quase suicida, para estar em paz e afinal descobrir que não me interessa, não quero, não gosto. Não consegui descobrir isso sozinha, precisei dos desencontros, precisei sobretudo do contraste entre eu e os outros.

Mas eventualmente descobri. Que me interessa o caos, o barulho, a inquietação, a instabilidade. Ladies and gentlemen, we’re floating on space e eu gosto de poder sentir isso o máximo possível. Pode ser que eu esteja dizendo isso porque ando muito entediada. É um tédio enorme, um tédio universal, onipresente, existencial, Camus, por favor, vem cá e me tira desse tédio.

Estou, de fato, terrivelmente entediada. E preencho meu tédio com todo tipo de barulho, gente, gosto, cheiro, álcool, cigarro, sexo que posso encontrar. Deus do céu, como Kierkegaard ri de mim em sua tumba dinamarquesa nesse momento.

Mas não é isso.

Esses dias me peguei pensando por que me interessam tão pouco as viagens para o meio da natureza, por que, afinal, minha viagem dos sonhos é sair no meio do caos de Mumbai? De certa forma até me interessa a imensidão, a calma e a natureza, mas só se for para escutar meu próprio caos. Tenho pensado muito em reservar um hotel na praia, pegar o carro e ir passar uns dias. Só mar, areia, sossego e eu. Para ouvir o barulho de dentro, para mexer naquele roteiro, para finalmente terminar aquele ensaio. Nunca vou terminar aquele ensaio enquanto não parar para ouvir minha obsessão, mergulhar na minha obsessão, nessa minha maldita obsessão com os três metros de perna que tem aquela menina.

Quero procurar silêncio para conversar com meus próprios demônios, nunca vi uma conversa com o demônio que não fosse interessante. Me interessa muito o demônio. Mas não me interessa o sossego. Absolutamente, não me interessa.

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