You’re so vain, you’re probably think this post is about you

Me interessa muito a mentira na literatura.

Não a ficção, a invenção óbvia das histórias, o “faz de conta”, a mentira mesmo. Como quando a Marguerite Duras diz que O Amante é absolutamente biográfico e depois escreve O Amante da China do Norte em que detalhes são diferentes. Como os diários da Anaïs Nin que seriam diários, mas mesmo? o Franzen falando que mais de um diálogo nos ensaios do David Foster Wallace são inventados.

Aliás, me interessa muito a mentira e pronto.

Mas na literatura me interessa essa linha da autobiografia, esse dizer que algo é verdade, mas tomar a licença de alterar a verdade porque afinal é literatura. Como O Museu da Inocência.

E eu esqueci de avisar, mas é um pouco o que acontece aqui.

Eu esbarro muito com ter que explicar esses textos. Não exatamente o que eu quis dizer, mas se estou bem, o que aconteceu pra ter escrito, etc, etc e algumas vezes dei a resposta “eu estou melhor do que quis parecer ali”. Não do que pareceu, do que eu quis parecer.

Esse blog é autobiográfico? Sim, sem dúvidas. Tudo que eu escrevo é. E eu quero escrever, ensaios, roteiros. Mas não sou dada a muita ficção, a invenções, a vernizes sobre aquilo que eu quero dizer. Em parte por pura incapacidade, em parte porque a literatura que mais me tocou na vida é essa sem muito verniz, Sylvia Plath é minha escritora favorita, mas Marguerite Duras, Hemingway, o tanto que eu fiquei fascinada com a Anaïs Nin. De todo o Philip Roth, o que achei mais interessante foi a delicadeza da sinceridade de Patrimony e a crueldade de nem trocar os nomes em Deception.

Mas não sou Philip Roth (aliás, judaísmo, ouvi dizer que você vinha com uma porcentagem aumentada de genialidade, onde está a minha? vamos acelerar?) e isso é um blog, não um livro. E a chance (e a óbvia habilidade, mas acho que não preciso ficar repetindo isso) que ele tem se se fundir na história e ser esquecido como homem, existir só como escritor, eu não tenho. E as vezes eu preciso justificar os textos.

Acho justo, acho principalmente justo que eu precise pagar pelo que exponho. Eu já tive essa briga comigo mesma muitas vezes, porque, ironicamente, eu sou uma das pessoas mais fechadas desse mundo. Eu nunca digo para alguém o como eu me sinto em relação a ele, mas escancaro em um texto sem maiores problemas e sim, isso me causa problemas. Mas é um preço que eu resolvi pagar(ou não resolvi, mas não consegui não arriscar, como nunca consigo não arriscar).

Às vezes, por incrível que pareça, eu deleto textos, decido não postar. Às vezes também, eu minto. Para me proteger, para proteger algum outro, ou simplesmente porque a vida, mesmo a minha toda cheia dos acidentes dramáticos, não é lá muito literária e nem sempre o como eu me sinto dá um bom texto. Muitas vezes o texto adquire o próprio ritmo, a própria fluidez e para que o raciocínio feche melhor o que está expresso não é exatamente o que eu sinto e tudo bem, eu não assinei nenhum termo de compromisso com a sinceridade aqui.

Eu posso começar falando com alguém, mudar de interlocutor no meio do texto e nunca avisar, não preciso avisar, se do ponto de vista da narrativa não faz diferença com quem eu (a pessoa atrás do computador, não a voz narradora do texto) estou falando. Eu posso escrever sobre algo muito antigo como se fosse o presente, porque é mais forte assim, porque eu prefiro. E porque eu gosto desse quebra cabeças. Eu gosto de esconder e mostrar e mentir e jogar uma quantidade enorme de mim aqui e ao mesmo tempo as vezes mentir. Eu gosto da personagem, ela me ajuda a gostar mais de mim.

A personagem com menos filtros e mais neuroses, com mais coragem de viver a dor e que não precisa respirar fundo, recolher os cacos e funcionar. Às vezes esse blog tem uma dor que meu eu real não pode se autorizar a sentir, não sem desmoronar completamente. A personagem, mais obcecada, neurótica e sofredora do que eu, sente para que eu não enlouqueça. Embora seja a mais absoluta verdade que eu viva tentando não enlouquecer, eu muitas vezes estou um tanto melhor do que parece aqui.

E eu gosto tanto da ambiguidade, do quebra cabeça, de ser desestabilizada como leitora sem saber o que é verdade ou mentira, que decidi por esse post. Não é uma justificativa para alguém, é uma semente de desconfiança em tudo que vocês lerem daqui pra frente. Eu falo a verdade, ou blefo? Com quem eu falo? Ele existe? O que você, que provavelmente teve algo comigo que justifique ser personagem de um texto, realmente sabe sobre mim?

Recentemente eu tive muita raiva por alguém que esteve por aqui um bom tempo não saber nada de mim, mas honestamente, o que eu deixei que ele soubesse? O quanto eu não menti? Eu minto no meu próprio diário.

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1 comentário

  1. Pois seja vã e saiba que esse poema foi inspirado por esse texto. Fazia tempo que não escrevia nada de poesia (here)… Tenho me dedicado à um diário íntimo (there). Nos poemas sempre fiz essa mistura de realidade, passado, imaginação, essa troca de locutor… No diário, não. Talvez por isso publique um e o outro não. Enfim…

    http://cenicitas.com/2013/12/01/kismet/

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