Meu primeiro sutiã, ops, filme iraniano

Às vezes eu me pergunto de quem raios foi essa ideia de viver de escrever, mais precisamente quando são 2 da manhã e acabei de terminar um seminário sobre cinema, pós-modernidade e religião, ainda preciso escrever a crítica de um filme passado no Laos, sou encarada por incontáveis post-its com os textos que estou devendo e aceito um frila em que preciso escrever um roteiro contando a história de um heroi (com cliffhangers  e plot twists) para uma marca de infusores de aroma. Sim, isso mesmo, um roteiro sobre um heroi para vender infusores de aroma e o público alvo são donas de casa. No momento que me mandaram o email confirmando eu nem cabia em mim de felicidade: meu primeiro roteiro pelo qual serei paga!

Pois é.

Você acha que a pessoa saudável, bem ajustada e normal um dia acorda e diz “acho que vou fazer faculdade de cinema, por que não? Parece uma boa ideia testar os limites da dignidade humana”? Não, a pessoa era estragada desde cedo, não recomendo escolas hippies e criações alternativas. Me lembrei disso porque nesse projeto de ver um filme para cada lugar do mundo decidi rever Kirikou e a Feiticeira (que é francês, mas é um pra cada lugar do mundo oras, não só os lugares exóticos) e fiquei pensando se realmente contava como rever. Explico: o ano é 1998, eu tenho, portanto, 9 para 10 anos de idade e estou sendo puxada muito delicadamente pela minha mãe pelas ruas de Paris. Estou, obviamente, injuriada e entediadíssima e puta porque aquela mulher do Louvre não me deixava ficar sentada sozinha no canto da sala enquanto minha mãe andava por aí (sim, minha mãe me largava no canto de lojas, museus, restaurantes, etc, acho que ela pensava que eu era tão chata que ninguém ia querer roubar, bad parenting ftw).

Bem, estou sendo arrastada violentamente como uma noiva das cavernas puxada delicadamente pela rua quando vejo uma fila de crianças em um cinema de rua. É uma fila enorme de crianças e tem um pipoqueiro e elas parecem tão felizes! Bom, pelo menos mais felizes do que eu. Estaciono na frente da fila e informo que quero ir ao cinema. Minha mãe argumenta que eu não vou entender nada, já que não falo francês, mas absolutamente não me importo, quero ir ao cinema e começo a chorar porque tenho saudades de casa, do meu gato, de guaraná, das minhas amigas, estou fora de casa a pelo menos um mês e não aguento mais.

A tendência a ser rainha do drama e ameaçar pular da ponte por qualquer coisa também começou cedo.

Deve ter sido um choro doído, eu tenho talento pra sofredora, porque a resposta foi ok. E assim, aos 9 anos de idade, entrei saltitante em uma sala de cinema para ver Kirikou e a Feiticeira, em francês. Me digam se esse ser humano pode dar certo na vida?

Vi meu primeiro filme iraniano aos dez anos de idade. Mas calma, não precisa chamar  o juizado porque, embora eu fosse largada para ser sequestrada em lugares públicos, o filme era adequado: vi Filhos do Paraíso e O Balão Branco quando não era mais velha que os protagonistas. Vi A Viagem de Chihiro no cinema e me lembro de um filme holandês em um vhs emprestado. Encontrei o filme na internet recentemente, mas nenhuma legenda em nenhuma língua que eu entenda, eu já fui mais hipster, vejam só. Vi O Balão Vermelho e desejei mais que tudo um balão vermelho.

Enquanto estou lembrando de tudo isso e considerando que “vejo filme iraniano desde os dez anos de idade” seria uma boa biografia nova em algum lugar,  chega o email de um frila de tradução de um texto de contabilidade. Eu não sei se choro, ou se rio e está tocando o interfone. São 2:20 da manhã. Achei que era um psicopata, eu atraio alguns. Na verdade achei que, pela milésima vez, tinha esquecido de deixar a chave para o cara que estaciona atrás de mim na garagem. Era o vizinho de baixo.

Tenho um novo vizinho de baixo que reclama do barulho inexistente. Não sei se maravilhosamente esquizofrênico ou um x-men que acha que o barulho de um gato andando no apartamento de cima é insuportável. Não sei qual das duas possibilidades apresenta menos riscos a minha integridade física, mas chuto que seja a esquizofrenia. Não sei o que fazer com o vizinho, já que não posso diminuir um barulho que não existe e ele me diz “vou acordar as 8 da manhã, a senhorita que não faz nada”.

Só desligo o interfone e desisto. São 2:30, me falta um texto inteiro e acordo as 7:15.

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