Lana, a rockstar

Eu me lembro até hoje quando indiquei Lana Del Rey para uma amiga: “você precisa baixar, ela é absolutamente vazia, é maravilhoso”. Talvez isso só faça sentido pra amiga em questão, mas não tinha nada, nada mesmo, de pejorativo nessa minha frase. Eu gosto da Lana, gostei desde o início, gosto a ponto de ter tentado ir ver um show em Paris mesmo que ele custasse mais que o ingresso do Planeta Terra todo.

Não consegui ver o show porque os ingressos, para as duas datas, já estavam esgotados três meses antes do show. Curiosamente, ainda havia lugares para o Leonard Cohen, que tocaria no mesmo lugar em um mês. Vamos recapitular: Lana Del Rey, com seus dois anos de fama, esgota o Olympia mais rápido que o senhor Leonard Cohen. Eu gosto dela, já disse ali em cima, mas sério? sério mesmo?

O que me levou ao Planeta Terra não foi o show dela, foi o Beck. Mas além de todas as maravilhas, incluindo a filial do inferno que virou aquele asfalto, o horário dos dois show bateu. Vi 45 minutos de Lana, 45 minutos de Beck, perdi Loser, mas tudo bem porque todo mundo sabe que boas mesmo são Lost Cause e Where It’s At. Da Lana perdi o final, que dado aquele show todo, fiquei curiosa para ver.

Desde o início a conversa girava sobre a “autenticidade” da Lana Del Rey X Elizabeth Grant: a boca é silicone? É verdade que ela tem um caso com o dono da gravadora? Ou que é filha de milionários e o pai pagou pra Video Games viralizar? Eu achava isso engraçado, o quanto importa mesmo, ainda mais no mundo da música pop, se a moça é de verdade ou não é? Mas aparentemente, nesse caso importa.

Importa porque Lana cria um círculo sem fim: ela é uma imagem construída cantando sobre construir uma imagem. Você roda em torno do mesmo assunto e não tem nada ali, é só imagem mesmo. Eu acho de uma sinceridade maravilhosa, de um cinismo sem fim (sou sempre fã do cinismo) e também um tanto incômodo. Tanto que quando, no início do show, eu achei que tinha visto algo de verdade, aquilo me confortou.

O que sobe no palco é uma moça mais ou menos da minha idade, mais menininha do que mulher fatal, mais bonita do que nos clipes e nas fotos, extremamente simpática, parecendo genuinamente feliz. eu confesso que fiquei feliz, que achei que escreveria um texto dizendo que afinal, Lana Del Rey era de verdade. Então ela desce, abraça e beija os fãs, ganha presentes, ursinhos, coroa de flores e pelo telão tudo vai parecendo mais e mais distante, mais e mais artificial. De repente ela é de fato Jackie Kennedy e eu me sinto vendo uma transmissão da tv americana na década de 60 que quer me lembrar o quanto a primeira dama é sofisticada e humana e maravilhosa e que guerra fria?

E é aí que eu entendo que, proposital ou não, tem uma ambiguidade sutil nesse jogo: ela mesma diz “I even think I found god in the flash bulbs of your pretty cameras”. Não é falsa a felicidade da cantora, mas a gente continua no domínio da absoluta falta de espontaneidade.

Meu primeiro show foi Red Hot Chilli Peppers em 2002. Isso faz 11 anos. Nesses 11 anos eu vi uma quantidade considerável de bandas maiores e menores, mas só algumas vezes vi um verdadeiro rock star no palco, aquele domínio do público que é quase místico. Mick Jagger, óbvio, Dave Grohl, que não deixa o público esquecer a aura do Nirvana, que não deixa de ser o cara mais legal do mundo, Eddie Vedder e Lana Del Rey. Eu vi o Jack White e a Beth Ditto e eles são absolutamente incríveis, mas existe uma certa coisa mágica que acontece quando alguém tem o público tão completamente na palma da mão.

Há dois jeitos de conseguir isso: sendo Mick Jagger, Dave Grohl ou Eddie Vedder, reis em seu próprio domínio, deuses a sua maneira, com um misto de energia espontânea, nostalgia, adolescência, rebeldia, aquele rock de sempre. Ou entendendo as regras e agindo segundo elas, como Lana Del Rey. Ela sabe o que precisa fazer, sabe quando precisa passar uma bandeira do brasil no meio das pernas, quando precisa recitar a rotina do “faz tanto tempo que eu queria vir, prometo nunca mais deixar vocês esperando”. Lana tem só dois anos de fama, em abril estava em sua primeira turnê europeia e agora já está aqui, ela não deixou ninguém esperando, mas é a fala necessária e, portanto, ela a repete.

Não consigo dizer que não me incomoda. Incomoda. Ver ela conduzir uma plateia tão eficientemente sem um pingo de espontaneidade me incomoda. Não desgosto, ainda acho um tanto maravilhoso, talvez porque me incomode.

(em tempo: ela canta bem sim, bastante bem, embora eu não ache que isso importa)

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