Com açúcar, com afeto seria um título muito óbvio

Eu nunca fui dada a grandes demonstrações de sentimento. Não que eu não sinta com toda a intensidade do mundo, não que meu sangue não ferva sempre, o tempo todo, e a minha inquietude seja tanta que tudo que eu quero é continuar indo, quero tanto que nem vou, porque tenho medo de ser devorada por dentro. Mas é como se tudo isso não pudesse passar da minha pele, como se ela fosse sempre morna do sangue fervendo por dentro.

Isso tem um lado bastante ruim, mas tem outro, o das delicadezas. Eu acho muito bonito, e muito terrivelmente triste, aquele dia em que eu simplesmente fiquei parada, chorando em silêncio, tremendo, enquanto via ele ir embora e meu mundo desmoronar. Acho até que parei de respirar, dentro do casulo do meu cabelo muito longo que eu cortei inteiro uma semana depois.

Eu sou, isso sim, dada a delicadezas quando demonstro afeto. A notas em livros, presentes pequeninos, recomendações de música, a ser bastante boa em dar presentes mesmo que eles não sejam grande coisa. Gosto de achar que dou presentes precisos de uma forma sutil. Gostaria de escrever assim também. E sou dada também a doces.

Uma amiga me diz que levou um fora daqueles que doem, daqueles que você acha que nunca mais vai passar e lembra da Anna Karina dizendo que se apaixonar é um hábito nojento, então eu asso um bolo. Bolinhos (nunca cupcakes) para um dia ruim e tráfico de biscoitos por uma casa onde farinha de trigo foi banida pra uma pessoa doente. E quando alguém legal faz aniversário e pede para levar alguma coisa na festa eu nem considero comprar, faço biscoitos de canela e rum porque gosto de biscoitos, de canela, de rum, do aniversariante.

Minha melhor lembrança dessa última vez que estive em Paris é a de um restaurante indiano onde uma amiga da minha mãe que gosta muito de mim me levou. Eu mencionei, enquanto fazia compras em um mercado de pulgas, que gostava demais de comida indiana e ela nem pensou duas vezes antes de me arrastar por Montparnasse até o melhor curry da minha vida. Essa amiga da minha mãe me deu dois presentes: o dia em que eu disse que era muito bonita a mesinha na casa dela e ela me contou que tinha trazido do Vietnã e eu percebi que poderia chegar ao Vietnã (ou a qualquer outra parte); e esse restaurante indiano, onde provavelmente vou para chorar em cima do curry e sentir minhas entranhas aquecidas de pimenta quando morar em Paris e os dias forem difíceis.

Um dos meus lugares preferidos dessa cidade, que tem sido cada vez menos generosa, é a casa da Simone, que é também das minhas pessoas preferidas dessa vida. Porque ela sempre vai te alimentar, absolutamente sempre. Se depois de comer até não poder mais duas vezes você disser que o dia foi ruim, ela surge com sorvete; se chegar as três da manhã de uma terça, vão te fazer sanduíches. Não é, obviamente, pela comida, é pelo cuidado.

Nesses doces vão tempo, atenção, aqueles erros que eu sempre cometo tipo queimar a parte de baixo do biscoito. E vão coisas que eu gosto. E açúcar faz as pessoas felizes. São como pequenas bolinhas de calor e serotonina feitas manualmente.

Eu cozinho para os outros para demonstrar afeto. Eu raramente digo o quanto gosto das pessoas, mas cozinho e compro os presentes que são resultado de horas infinitas de observação silenciosa, que são também pequenas demonstrações de que eu prestei atenção.

Não sou dada a escândalos, exigências, cenas, gritos. Sou dada a cuidado, sutilezas e detalhes. A biscoitos como demonstração de carinho. A passar desapercebida.

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1 comentário

  1. E aí eu choro no meio do trabalho…
    Eu amo o fato de que a gente concorda que açúcar é amor, chocolate faz parte da manutenção da nossa sanidade e chá é um abraço líquido.

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