Um elogio ao clássico cafajeste

Clássicos são clássicos por um bom motivo. Vestidos pretos, musicais da Metro, brigadeiro, Rolling Stones e Bob Dylan. Eles resistem ao teste do tempo, aos kilos a mais, à velhice, às drogas, a simpatia pelo demônio. Eles são confiáveis, você sempre sabe o que esperar, mesmo quando erram, você sabe o que esperar. Um álbum decepcionante do Bob Dylan será ainda assim um álbum do Bob Dylan. Como um filme ruim do Woody Allen.

Eu achei que nunca leria Guerra e Paz, um relacionamento longo demais para se entrar conscientemente, mas fui convencida com o argumento “é um clássico”. Não só comprei como é com ele que ocuparei minhas tardes de sol de janeiro (para o calor infernal, nada melhor que se imaginar no inverno russo). Tenho tanto respeito pelos clássicos que me deixei até mesmo ser convencida a comprar Dom Quixote, se vou chegar a ler, aí já é outra história.

Mas tenho apreço por essas coisas que entram no panteão, que permanecem apesar do tempo, da ruína, da pós-modernidade que destrói tudo. Eu gosto da ideia de que algumas coisa o tempo não muda.

Como o clássico cafajeste.

Poucas coisas nessa vida são mais confiáveis do que o clássico cafajeste.

Vamos para um pouco de história: há muito tempo atrás (exatamente quanto tempo será omitido para preservar a identidade das partes envolvidas) eu ficava com um cara que tinha namorada. Ela sabia. Todo mundo sabia. Ele não ligava. Eventualmente eu arranjei outro e desisti dele. O Clássico Cafajeste, como bom egocêntrico orgulhoso que é, ficou ofendido, teve ciúmes, fez cena. A única saída possível era lembra-lo que, hum… ele tinha uma namorada! Lembrei-o disso de forma muito sutil e delicada, jogando um all star na cara dele.

Nessa época eu ainda não tinha aprendido a virtude dos clássicos. Tivesse eu ficado com o Clássico Cafajeste e muito choro, drama, decepção e corações partidos teriam sido poupados. Veja, você nunca vai achar que ele é o amor da sua vida, mas ele nunca vai pegar as tralhas e desaparecer da noite pro dia te deixando uma mixtape cuja última música é Adeus Você. Ele vai continuar ali, porque ele aprecia a constância. Nunca vai terminar com a namorada também, mas nunca vai te dizer que irá.

Constância é algo que eu nunca apreciei verdadeiramente. Gente que faz planos e segue os planos, gente que obedece um plano de leitura, gente que começa uma série e vai até o fim sem começar mil outras no meio. Meu Deus, como o cérebro de vocês funciona?

A ironia e o charme do Clássico Cafajeste é que a última coisa que você imagina é que ele seja constante, acho até que ele se sentiria ofendido se você dissesse isso pra ele. Seu livro preferido é On The Road, ele não diz, porque pega mal depois dos quinze anos, diz que é Franny and Zoey, lê também Henry Miller, John Fante, Hemingway. Diz que um dia vai te levar para escalar o Kilimanjaro, mas não vai. O aventureiro e o cafajeste são dois homens diferentes. O cafajeste não assume riscos, você até o convida para o ano novo em Cuba, mojitos, você vai usar seu decote mais profundo. Mas ele claramente não aceita, o que você acha que existe ali, um relacionamento?

O Clássico Cafajeste não te leva para escalar o Kilimanjaro porque isso pressupõe fazer algum tipo de plano com você e isso ele não faz. Ele não faz promessas, nunca. Quer coisa mais confiável? O Clássico Cafajeste tem uma rotina, um meio ambiente, um habitat. Ele tem algumas facetas diferentes, se apresenta sob algumas formas: o amigo que topa aparecer na sua casa 1:30 da manhã para beber cerveja, jogar GTA e obviamente fazer sexo. Mas nem pense em convida-lo para uma cerveja. Também pode ser aquele menino do seu círculo social que todo mundo sabe que não se deve tirar da roda. Você sai com ele no sábado, mas se na terça a amiga te pergunta se pode, a resposta é óbvio que sim.

O Clássico Cafajeste, para ser verdadeiramente um clássico, um Humpfrey Bogart, Play it Sam, play it for the old days, não engana, não mente, não faz promessas. Às vezes acontece dele vir com um cara de bom moço e não fazer esforço nenhum para te avisar que é só a cara. Mas isso é omissão, não mentira. Clássicos levam tempo para se tornar clássicos e pode ser que você já tenha passado por um antes que ele tenha adquirido todas as habilidades necessárias, recomendo dar uma segunda chance, o revival do Clássico Cafajeste nunca decepciona. Até porque, principalmente se ele quer operar em um determinado círculo social, é importante fazer certas coisas direito para ter a fama certa.

Antes que me acusem de machismo, o Clássico Cafajeste vem nos dois gêneros, é que estou aqui contando da minha experiência de vida, já disse várias vezes que esse blog é sempre sobre meu próprio umbigo. Alguns me acusariam de contrapartida feminina, especialmente na variante mesmo círculo social, mas não, não tenho a constância necessária. E, ao contrário do verdadeiro exemplar, eu minto, muito, com gosto.

O Clássico Cafajeste da minha vida, sim, ele mesmo, aquele do início do texto, diz que eu sou o demônio disfarçado. Como bom demônio, eu tenho um gosto por clássicos, Mefistófeles era um grande conhecedor de filosofia grega. Meu estereótipo na constelação dos red flags de relacionamento é outro, sou um tanto Daisy Buchannan, inconstante até o último fio de cabelo, constância me cai muito bem. Claro que há outras formas de encontra-la, mas os clássicos são clássicos.

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1 comentário

  1. Eu acho que o cafajeste clássico e o demônio disfarçado precisam um do outro porque os dois são capazes de aceitar a narrativa falsa sem acreditar nela. Acho que pra conseguir atingir a constância da cafajestice charmosa é preciso que a amante seja uma pessoa que aceite o fato de ser a outra sem gerar um drama maior do que precisa, senão o negócio fica irritante.

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