Porque Lady Lazarus, uma não explicação

Dying

Is an art, like everything else.

I do it exceptionally well.

I do it so it feels like hell.

I do it so it feels real.

I guess you could say I’ve a call. 

Houve uma época em que eu escrevia pequenas narrativas. Pequenas declarações de um eu lírico que era e não era eu. Era eu, mas eu achava que podia disfarçar atrás de palavras que soassem como ficção. Falei muito aqui de coisas que eram reais, mas se transformaram em fragmentos que já não eram, falei da dor imensa que eu sentia dizendo apenas que sentia falta do gosto de cigarros.

Às vezes ainda sinto.

Recentemente descobri que posso até ser escritora, mas não acho que sou da ficção. Gosto mais dos meus ensaios do que de qualquer roteiro, conto ou poema que tenha escrito e estou aprendendo com a Anaïs Nin que talvez eu escreva diários, talvez minhas coisas mais belas, minhas melhor literatura, esteja no que é confissão pura. Talvez.

Escrever um ensaio e descobrir que aquela era minha forma foi, talvez, um dos momentos de maior autodescoberta dessa vida e poucas coisas me fizeram tão feliz. O problema é que há coisas que não tenho coragem de dizer sem o véu da ficção.

É possível dizer que se sente falta do gosto de cigarros. Construir um pequeno poema em prosa sobre essa mania que eu tenho de brincar com isqueiros, encostar meu dedo até o último segundo antes de me queimar. Ás vezes me queimo. Não é um jogo em que se pode ficar melhor, eu acho. Por muito tempo acreditei que eu eventualmente aprenderia o momento exato em que era preciso afastar a mão, mas não, sigo queimando os dedos.

Às vezes tenho um impulso terrível de apagar o cigarro na minha própria pele.

Em outras épocas eu teria construído um texto todo cifrado e poético sobre o que hoje só posso confessar assim.

Tentei escrever um roteiro, um conto, um poema. Não consegui. Preenchi quase cinquenta páginas de diário e guardei três textos no rascunho desse blog. Então escrevi uma carta e achei que é uma das melhores coisas que já escrevi. Talvez eu não tenha mesmo talento para metáforas, só para uma sinceridade brutal, tão crua, tão carne-viva sangrando que torna-se poética.

Talvez meu maior talento seja apagar o cigarro na minha própria pele.

Nunca fiz isso. Nunca engoli o vidro de remédios. Mas brinco com o isqueiro como se não fosse nada, como se eu pudesse um dia ficar melhor nesse jogo. E faço tatuagens. Faço muitas tatuagens. E fumo muitos cigarros.

Mas não publico os textos. Porque uma coisa é apagar o cigarro na minha própria pele, uma coisa é arrancar minhas vísceras e escrever com elas. Uma coisa é um diário escrito do meu próprio sangue, mas acontece que ficou em mim um pouco do seu. E você definitivamente não apaga cigarros em si mesmo, definitivamente.

Talvez só agora eu tenha começado a entender a diferença entre o meu pessimismo e o seu. A diferença é o abandono de si. A diferença é que eu me suicido mil vezes, brinco com o fogo, talvez eu não crie tantas defesas quanto acho que crio, ele acha que eu não crio defesa nenhuma, que nunca viu alguém com tão pouco senso de auto-preservação quanto eu. Talvez. Perguntou se algum dia eu realmente não paguei para ver onde algo ia dar. Não. Nunca. Sou curiosa demais, inquieta demais. Você não pensou duas vezes antes da faculdade de cinema, antes dele, antes de mim, antes de cada texto, antes do primeiro cigarro. Verdade. Mais do que tudo não penso duas vezes antes de cada texto e às vezes pago caro.

É como as tatuagens que eu faço. As cicatrizes que eu escolho e que tem um preço.

Eu nunca achei que fosse dar certo, não foi por isso que eu fiquei. Eu fiquei pelo sangue, pela dor, porque eu acabaria apagando o cigarro na minha própria pele. Não esperava que tanto de você fosse sobrar comigo. Também não esperava ainda gostar de você o suficiente para não querer apagar um cigarro na sua pele.

Herr God, Herr Lucifer

Beware

Beware.

Out of the ash

I rise with my red hair

And I eat men like air.

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