Van Gogh e madeleines

A memória funciona de um jeito estranho. Eu fui a Amsterdam quando criança e não lembro de nada além de ovelhas, moinhos na estrada para Delft e a casa da Anne Frank.

Lembro bem da casa da Anne Frank e de como achei muito, muito legal que alguém morasse atrás de uma estante, em um esconderijo secreto. Na época, eu não conhecia o horror. Li o livro uns anos depois, quando eu acho que já tinham me contado sobre o horror, mas quando eu ainda não podia entender. O livro não fez muito para que eu entendesse, acho que porque é um livro sobre isso: a inocência que não pode entender o horror que ela mesma vive.

Acho que aprendi a palavra holocausto aos sete anos de idade, quando fiquei esperando no jardim do museu de Jerusalém, mas levei anos para entende-la. Quando entendi, passei mal ao ver uma pilha de sapatos.

Mas voltando à memória, que funciona de maneiras tão estranhas que me fez discorrer dois parágrafos sobre algo que absolutamente não era o assunto do texto: eu não lembrava nada de Amsterdam além dessas poucas coisas e com certeza não me lembrava do museu Van Gogh, até ver o quadro do quarto.

Eu estudei em uma escola bem hippie, sempre conto isso, e nossa aula de artes era uma mistura de fazer desenhos com história da arte: nós aprendíamos sobre Chagal e fazíamos anjinhos de argila, sobre impressionismo e pintávamos impressões do por-do-sol, sobre Van Gogh e desenhávamos nosso quartos.

Eu não lembrava disso, mas quando vi o quarto exposto em uma parede vermelha, eu lembrei. Do meu quarto de criança, das aulas de artes, de quando ouvi pela primeira vez que Van Gogh tinha cortado a orelha, da primeira vez que ouvi que aquele quadro, ainda hoje meu preferido, ele pintou antes de se matar com um tiro.

Eu adorava a professora que me ensinou sobre Chagal, eu adoro Chagal até hoje. Eu adorava como ela não pensou duas vezes antes de contar para crianças de dez anos que um pintor tinha se matado, que talvez ele fosse homossexual, o como ela queria que nós entendêssemos o tormento naquela arte. Talvez ela tenha sido responsável por meus caminhos posteriores, pela minha afinidade com a arte que é tormento.

Há tanta coisa que eu não me lembro e que de alguma forma é tão parte de quem eu sou. Eu tinha esquecido dos carnavais deitada na grama do clube, dos pasteizinhos de catupiry que a gente comprava quando chegava no Rio, do primeiro dia que eu toquei piano. Talvez eu não lembre até hoje do real primeiro dia que eu toquei piano e esse que tenha me voltado seja o segundo, ou terceiro, não sei.

É bobagem pensar que nos lembramos do que é importante. Nos lembramos do que o acaso decide lembrar. Lembramos do que conexões químicas aleatórias decidiriam armazenar, de fragmentos, cacos, pedaços.

Quando me serviram café na Turquia, eu me lembrei de American Gods: “black as night and sweet as sin”. Adoro essa frase, mas ela tinha completamente escapado da minha memória.

Se não lembro de mim mesma, se não lembro dos livros que eu amo, me pergunto o que vou lembrar de você.

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