O cinema como janela

Eu marco meus anos em São Paulo pela Mostra. Lembro até hoje da primeira: outubro de 2006, eu ainda estava meio aqui, meio lá, fazendo só metade das matérias, dividindo quarto, minhas roupas ainda moravam todas em São José dos Campos.

Eu estudava à noite, tinha uma tarde livre e decidi ver três filmes. O primeiro deles não me lembro o nome, mas era um documentário sobre movimentos de paz em Israel, no Cine Sabesp que na época, se não me engano, se chamava Cine Uol. O filme atrasou um tanto e eu fiquei sentada em uma mesinha, tomando café e lendo Crime e Castigo. Depois descobri que atrasou porque o motoboy tinha sofrido um acidente. Começamos bem, eu e a Mostra.

O filme atrasou e eu saí correndo desesperada para o segundo filme. Vamos enfatizar que eu morava em São Paulo há dois meses e não passava todos os dias da semana aqui, obrigada. Peguei um taxi porque afinal o filme tinha atrasado e nunca ia dar tempo de eu chegar de ônibus e tinha aquela chance de uns 80% de eu pegar o ônibus errado. Pedi para descer no Conjunto Nacional, jurando que o filme era no, então, Cine Bombril. Não era, era no Reserva. Bati todos os recordes de corrida pela Paulista (essa modalidade disputadíssima da Mostra, só menos movimentada que a corrida pela Augusta) e cheguei.

O filme chamava Três Mães e era egípcio/israelense. Lembro até hoje porque foi aí que eu entendi a Mostra. Nunca teria visto esse filme de outro jeito, nunca teria ouvido falar nele, mas me apaixonei. Lembro desse filme como não lembro de outros mais importantes ou que vi a menos tempo.

Meu terceiro filme se chamava Azul Escuro Quase Negro, mas nesse dia chovia. Sempre chove na Mostra, é um jeito de dificultar as corridas de obstáculo enquanto engole a pizza do Pedaço da Pizza, esse alimento base da dieta da Mostra. Chovia e eu corri pela Paulista e fiquei encharcada. Desisti.

Esse ano, finalmente, vi esse filme, depois de dois downloads com defeito. Quase achei que não devia ter visto, que era um sinal, sei lá. É um bom filme, nada excepcional, acho que eu teria gostado mais dele naquele outubro de 2006.

Vi mais filmes nessa primeira Mostra, vi meu primeiro Amos Gitai, meu primeiro filme de algum país perdido no leste europeu, meu primeiro Kiarostami. Na Mostra eu vi filmes bósnios, turcos, romenos (antes de ser cool ver filme romeno), tailandeses. Esse ano vou até ver um filme do Cazaquistão. Gostaria de ver um filme do Quirguistão, só assim acreditaria em um país com esse nome.

Na Mostra eu vi o Wim Wenders ao vivo. Ao vivo e a cores, ali, sentadinho na minha frente. Eu até fiz uma pergunta para ele e ele olhou diretamente para mim quando respondeu. Melhor que isso só quando a Liv Ullman disse que eu tinha nome de bailarina, me deu um abraço e disse que tudo bem se eu ainda não sabia o que era. Também vi o Kiarostami, ele assinou meu guia da Mostra do ano passado, aquele da Folha que a gente pega de graça. A Mostra me deixou ver ao vivo as polaroids do Tarkovski.

Já vi filmes horrendos na Mostra. Infelizmente o recorde ficou com o Festival do Rio, pena, acho que momentos ruins são importantes na construção de um relacionamento. Se alguém foi comigo, eu posso rir por anos desses filmes ruins.

Naquela primeira Mostra, lá em 2006, eu entendi o que tinha vindo fazer em São Paulo. Eu era uma aluna do primeiro ano de cinema recém saída de uma cidade chata de interior e lá estava eu, vendo um filme húngaro na Augusta. Foram sete anos, sete Mostras. Meu namoro mais longo durou quatro, minha amizade mais longa durou dez. A Mostra está ali no meio. Eu mudei, meu olhar mudou e a Mostra me formou como pessoa quase tanto quanto como cineasta. É, afinal, uma verdadeira experiência formadora de caráter ter dez minutos para chegar do Frei Caneca ao Cinesesc.

O cinema não muda o mundo, eu nunca achei que mudasse, mas ele é uma janela. Pelos filmes eu vi lugares e ouvi línguas que não sei se vou ouvir de verdade. No cinema eu descobri que as angústias de uma menina da Geórgia poderiam ser iguaizinhas as minhas. O cinema não muda o mundo, mas ele te ajuda a descobrir que mundo é esse e eu quero, mais que tudo nessa vida, ver o mundo.

Por isso, sete anos depois, eu ainda sinto calor no coração quando vejo a primeira vinhetinha da Mostra. Seja bem vinda, 37ª.

A primeira, porque depois da décima já quero jogar um sapato no projecionista.

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