Roma de Fellini

Já há alguns dias eu sinto falta de Roma. É engraçado, porque eu diria que Roma não é minha cidade, não é dos lugares que eu mais gostei no mundo. Algumas cidades, Paris, Nova York, Amsterdam, eu tenho vontade de ficar para sempre. Jerusalém eu sempre fico um pouco feliz de ir embora, mas amo com todo o meu coração e vou dizer, sem pensar duas vezes, que é o lugar mais bonito do mundo. Não Roma.

Minha sensação com Roma é que eu preciso voltar. Que não foi daquela vez, depois talvez. Como aquele cara que não deu certo dessa vez, mas quem sabe daqui um tempo, nós parecemos funcionar tão bem.

Não sei do que sinto falta em Roma. Sinto falta do que não cheguei a viver. Não cheguei a me perder pelas ruazinhas, a andar sem rumo por aí, a aproveitar a claustrofobia da cidade e a sensação maravilhosa de quando ela se abre em ar nas praças. Fazia frio e chovia sem parar, talvez seja isso. Talvez Roma seja para o verão, para vestidos leves e sandálias.

Talvez Roma seja para quando eu esteja sozinha. Detesto viajar sozinha, mas em Roma eu quis não ter mais ninguém. Quis sentar nos cafés e beber vinho sozinha, quis escrever, quis me achar.

Talvez Roma seja para menos bagagem. Sozinha, no calor, sem esperar nada. Já foi visto o Vaticano, a Vila Borghese, o Coliseu, o Castelo Sant’Angelo. Certamente voltarei no castelo Sant’Angelo, a vista lá de cima foi tão, mas tão do outro mundo que até fiquei enjoada. Foi tão linda que me deu vontade de morrer e acho que nada nunca foi tão lindo a ponto de me dar vontade de morrer, nem Jerusalém. Quando tudo já foi visto não existem expectativas, Roma é para quando eu não esperar mais nada dela.

Eu esperava de Roma. Esperava que ela fosse a Roma de Fellini e ela foi. Aliás, acabei de assistir Roma, do Fellini, mas já sentia falta da cidade há alguns dias. Do sorvete de mel, do vinho no almoço, daqueles brincos que comprei.

Roma nunca vai ser minha. A minha Roma vai ser sempre do Fellini. Minha Paris não é do Godard, é minha, mas Roma é do Fellini. Woody Allen sabe disso, Roma nunca pode ser de mais ninguém. Mas acho que eu esperava que a Roma de Fellini pudesse ser a minha, que a Fontana di Trevi a noite pudesse de alguma forma ser algo meu, separado dele. Não pode.

Roma é a cidade que não é minha e nunca vai ser. Para onde eu preciso voltar sem esperar nada, sem levar nada, sem ninguém atrás. Eu preciso voltar já conhecendo, já íntima, já com história, mas como se fosse novo, de novo. Como quem termina, se perde por aí e volta.

Acho que entendo por que tenho sentido falta de Roma. Talvez seja o lugar em que afinal eu vá me encontrar, já que não é meu.

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