Da arte de desapegar

Acho que gosto muito de chorar em aviões. Aviões e aeroportos. Em aeroportos deve ser porque tem sempre alguém chorando mais do que eu, alguém se despedindo para sempre, porque você não parece extremamente frágil ou patética chorando em um aeroporto. Me sinto sempre extremamente frágil e patética quando choro, embora às vezes ache que seria menos ridículo do que simplesmente encarar meus sapatos e soltar frases desconexas.

Aviões eu não sei. Mas já chorei muito em aviões. É terrível para a pessoa do lado porque ela nunca sabe se te oferece um lenço, uma água, se pergunta o que aconteceu e corre o risco de ouvir uma menina louca discorrendo sobre tudo que aconteceu com ela. Ele não sabe que eu nunca discorreria sobre tudo que aconteceu comigo e provavelmente só inventaria uma mentira qualquer, como uma vó que morreu de câncer ou um cachorro atropelado. Uma vez chorei por 17 horas inteiras. Cinco entre Tel Aviv e Madrid e mais 12 entre Madrid e São Paulo, vi a face do desespero no homem sentado ao meu lado.

Minha mãe estava na Croácia essas duas semanas e foi ao museu dos relacionamentos partidos em Zagreb. Em algum momento liguei para minha vó para dar notícias e contei isso, ouvi: “nossa, mas tá aí, nesse museu você ganhava uma exposição individual”. Fico me perguntando que tipo de vida eu levo quando minha avó sabe que eu tenho relacionamentos falidos o suficiente para encher um museu. Porque eu de fato tenho. Relacionamentos, pseudo-relacionamentos, semi-relacionamentos, não-relacionamentos. Depois de um tempo você desapega de nomenclaturas e passa a contar só quantas vezes acabou bebendo vinho barato enquanto chorava no chão da sala. Também gosto bastante de chorar no chão.

Nem sempre acabo bebendo vinho no chão da minha sala, mas sempre acabo chorando. Sempre. Mesmo quando eu realmente queria terminar. Acho que o vinho no chão da sala é reservado para os que eu não queria. Não se pode beber por cada relacionamento que acaba, afinal, ninguém aqui quer desenvolver uma cirrose antes dos trinta.

Algo que você aprende quando tem suficientes relacionamentos falidos é a dosar a tristeza. Há fins para sorvete, vinho, vodca e tequila. Tequila deve ser guardada para um misto de dor, raiva, do outro e de si mesmo, desejo de vingança e uma tendência para auto-sabotagem. Tequila é sempre uma má ideia e você vai acabar mais arrependido daquela terceira dose na noite passada do que do relacionamento que acabou de perder. Uma missão bem sucedida.  Há fins para Fiona Apple, The Smiths, Joni Mitchell e Elliot Smith. Há fins para Radiohead também, eu ouvi falar, me sinto uma pessoa de sorte por nunca ter passado por um desses. Se eu ouço Joni Mitchell em vez de Fiona Apple sei que ao menos o fim só é triste porque é fim. É sempre triste quando é fim.

Sempre acabo chorando porque acho desencontros uma coisa bastante triste. A incapacidade de sincronizar, de querer a mesma coisa ao mesmo tempo, de estar no mesmo lugar. Acho triste também o quanto já me conformei com isso.

Nunca vou entender pessoas que me dizem estar buscando algum tipo de desapego. Das pessoas, das coisas, das sensações. Eu sou bastante desapegada, das pessoas, das coisas e das sensações, mas eu acabei desapegada porque perdi coisas demais. Eu perdi casas, família, melhor amigo, uma gata, pessoas aos montes. Perdi tanto que uma vez ele me disse que ter ficado foi a grande coisa corajosa que eu fiz. Não foi, porque acabei perdendo a mim mesma. Perdi de tal forma que não consigo confiar no que ganhei.

Nos últimos tempos eu ganhei muita coisa. Pessoas, mais do que tudo. Mas eu não consigo me apegar, não consigo contar com elas ou confiar que estarão ali, eu continuo preparada para perder. A arte de perder realmente não é difícil de dominar, é, pelo menos, bem mais fácil do que a arte de ganhar.

Ainda não sei ganhar, também não sei pedir. Só sei pedir desculpas por ter achado que poderia contar com alguma coisa. Desculpas por ter acreditado que tinha ganhado. Desculpas por ter me apegado.

Mas há boatos de que, em algum lugar, alguém ouviu The Lumineers depois de um fim, apenas feliz pelo que foi.

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