Greta Garbo, ou a pequena solidão quando a luz se apaga e o filme começa

The first thing that reading teaches us is how to be alone

Às vezes eu acho que gosto de ficar sozinha um pouco demais. Sozinha, sozinha mesmo, sem nenhum outro ser humano dentro do campo de percepção dos meus órgãos do sentido. Aquela coisa de ficar sentada no meu canto lendo enquanto outra pessoa lê no outro sofá e ninguém fala nada não configura sozinha.

Talvez por isso eu goste tanto de cinema também.

Eu acho um pouco engraçado quando alguém diz pra mim que gosta muito de cinema, nossa, gosta tanto de cinema e fica tentando me fazer entender. Eu sei, eu respondo, é o que eu faço da vida. E muitas vezes eu vejo o pequeno abismo de compreensão se abrir enquanto a pessoa tenta entender o que leva alguém a achar que é uma boa ideia transformar essa coisa que ela gosta tanto em trabalho.

Há algo na sala de cinema. O subtítulo de “Cada Um Com Seu Cinema”, que desses “filmes coletivos” é o que eu mais gosto, diz “ou essa pequena pontada no coração quando a luz se apaga e o filme começa”. Eu acho que sempre seguro a respiração alguns segundos entre o último patrocinador e a primeira cena de um filme.

Eu gosto muito de literatura, eu leio constantemente, sem parar, mas minha obsessão ficou no cinema pela possibilidade do não dito. O que me move são as cenas em que um jogo de profundidade, um gesto, um movimento da câmera para a direita, uma cor ao fundo, diz muito. Em que eu capto um mundo no que não foi dito.

Talvez porque eu tenha muita dificuldade de dizer. Talvez porque mesmo minha escrita, que é toda da confissão, da exposição, do diário, seja feita nas entrelinhas. Meu diário é feito de entrelinhas.

Estou lendo Henry e June, o relato da Anaïs Nin a respeito do envolvimento que ela teve com o Henry Miller e a mulher dele e que na verdade é uma versão editada (não no sentido de cortada, mas de melhorada mesmo) dos diários dela e me surpreende a clareza. Ela é absolutamente clara o tempo todo, com nomes, fatos, sentimentos. Eu já tinha lido os diários da Sylvia Plath e da Virginia Woolf e eles eram mais parecidos com o meu, um derramamento daquilo que sobra, sem preocupação de fazer sentido, com tanta coisa inconfessável confessada nas entrelinhas.

Mas nas entrelinhas com frequência se está sozinho.

Na sala de cinema também. No escuro não se vê os estranhos e na tela grande é possível ignorar completamente qualquer coisa que não seja aqueles 24 quadros por segundo. A verdade a 24 quadros por segundo, segundo Godard, muito ironicamente. Mas talvez seja.

Hoje, na sala de cinema, eu finalmente consegui contemplar o tamanho da minha dor e ver de frente o tamanho do abismo que eu ia cair. Que eu vou cair, inevitavelmente. E eu percebi que a única saída vai ser deitar no chão da minha sala e nunca mais atender ninguém, não responder nenhuma mensagem, sumir da internet, não abrir a porta. Eu achei que quisesse falar sobre isso, mas não quero. Eu quero ficar sozinha, quero guardar para mim.

Quero ficar completa e totalmente sozinha. Como na solidão de se estar em uma sala de cinema e não conseguir ver o filme.

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