Em que enfim eu falo de Bergman

Das muitas coisas que me doem nesse mundo, talvez a principal delas seja a incapacidade das pessoas de se comunicarem. Digo isso e acendo um cigarro e saio desorientada por uma cidade italiana usando um lindo casaco vermelho. O que? Não pareço a Monica Vicci? Nem de longe? Droga.

Caso exista algum ser humano no planeta que ainda não me ouviu falando disso, eu escrevo um mestrado sobre Ingmar Bergman. Meu tema é o silêncio de Deus, ou como, se Deus é indiferente e se recusa a responder às perguntas dos homens, todo sentido é retirado e os seres humanos ficam jogados em um mundo de sofrimento inútil. Bem resumidamente é isso. Só que minha hipótese, e o Bergman confirma ela muitas vezes em entrevistas por aí, é que ele acredita em uma resposta, em um sentido, e esse sentido existe justamente na capacidade de duas pessoas se comunicarem, se encontrarem de alguma forma. Ele vai mesmo dizer que somos salvos não por Deus, mas pelo amor.

Mas Isadora, e Cenas de um Casamento?

Sim, eu vou chegar lá, embora Cenas de um Casamento seja um dos momentos otimistas do Bergman (eu disse isso, e eu estou certa porque ele disse que eu estou)

O fato de que podemos ser salvos pelo amor não quer dizer que seremos salvos pelo amor. Que duas pessoas possam olhar uma para outra, entender, cuidar, enxergar, não quer dizer que elas farão isso. O Bergman sempre mantem isso como possibilidade, mas varia na crença nessa possibilidade: quando estava apaixonado por uma Bibi Andersson de 19 anos, ele acreditava e Morangos Silvestres é a prova; a trilogia do silêncio e Persona acham que andamos como cegos egoístas pelo mundo, tão focados em nós mesmos que não conseguimos ver a mão do outro; Gritos e Sussurros acredita em milagres, na uma única pessoa que é melhor que o resto; Cenas de um Casamento acredita, sim, que um dia você chega lá.

Darei spoiler porque se você não viu o filme/a série, você está errado. Depois de se separarem do jeito mais cruel, miserável e violento possível, Johan e Marianne seguem a vida, se casam com outras pessoas e então, eventualmente, tem um caso. No fim, eles se encontram. Eles compartilham algo, cuidam um do outro, encontram sentido nesse relacionamento. É frágil, fugidio, acontece em uma cabana escondida. Sim, tudo isso é verdade, mas eles estão lá. No fim, há encontro.

Por que eu estou falando tudo isso? Ano passado, em um seminário em que falei sobre meu trabalho, alguém na plateia perguntou qual era minha opinião pessoal. Eu respondi que concordava com o Bergman: existe, é possível, mas é tão absolutamente raro, é tão, mas tão fácil que passe na nossa frente sem que sejamos capazes de ver, é milagre.

É mais fácil não ver. Eu namorei anos alguém que não sabia nada de mim, alguém que me comprou uma aliança. Tá ok, vocês podem parar de rir agora, não, sério, chega. É, eu sei, é bem engraçado.

Mas não é engraçado. Não é engraçado que alguém possa conviver com outra pessoa por um tempo considerável e não saber nada dela, ser incapaz de enxergar. Eu não acho que ele um dia pudesse ter enxergado. Não era, obviamente, questão de tempo. Que ele não me conheceu porque não teve a chance. Ele só não conseguia sair de si mesmo, olhar para fora e, portanto, enxergar uma outra pessoa.

E isso acontece tantas vezes. Não foi só uma vez que alguém se apaixonou (ou achou que se apaixonou) por mim, mas não era eu. Alguém com quem eu não poderia possivelmente estar, que não poderia possivelmente estar comigo. Eu entendo, mal tenho 1,57, tenho dois gatos, tricoto, falo com uma voz de criança fofa e às vezes até bato palmas quando dou risada como se tivesse cinco anos, pareço mesmo uma coisa adorável. Mas não sou.

Não é modéstia, eu gosto de muitas coisas em mim, mas eu sou instável, pessimista, cínica, tenho pouca afinidade com monogamia e considerável com a garrafa de vodca, já dispensei um cara razoavelmente legal (quer dizer…) porque ele começou me ligar. Não tenho (muitos) problemas com isso, gosto até de muitas dessas coisas, só não é alguém com quem alguns desses caras poderiam estar. O que quer que eles procurassem, não era eu, não poderia ser eu. Mas eles não conseguiram sair deles mesmos o suficiente pra ver isso, não conseguiram se descolar das suas expectativas o suficiente pra enxergar que havia uma outra pessoa na frente deles, conhecer essa pessoa e aí, talvez, gostar de mim.

Ás vezes acho que já me olharam e viram uma ex-namorada. O resto desse parágrafo teve três versões, nenhuma delas aprovada no balanço entre overshare e honestidade.

Quando o Bergman fez Cenas de um Casamento ele já estava casado com a Ingrid, com quem ele ficou 25 anos e que foi o verdadeiro amor da vida dele, não a Liv Ullman. Ele diz isso em “A Ilha de Bergman”,  e ela diz em “Liv e Ingmar” que ele a chamava de “meu Stradivarius”, não se pode realmente amar um Stradivarius. Mas enfim, ele estava casado, resignado, diz em entrevistas que seu modo de produção e sua criatividade haviam mudado, ele era menos inquieto, mais conformado, mais tolerante com as próprias falhas e as dos outros, mais ciente do quão imperfeito é o mundo.

E assim, quando ele diz que Cenas de um Casamento é otimista, eu entendo. No final, eles se enxergam. Enxergam a si mesmos como seres humanos falhos, miseráveis e terríveis, enxergam tudo que fizeram um ao outro e a eles próprios e, principalmente, enxergam o outro. Enxergam a pessoa na frente. É mais do que se pode esperar de duas pessoas, é mais do que conseguir estabelecer um relacionamento funcional, é de verdade um milagre.

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