O pior que podemos ser

Then a good man and a good woman
Will bring out the worst in the other

Acho que uma bom indicador de quando um relacionamento acabou, ou de quando ele deveria acabar, é o momento em que as duas pessoas passam a ser capazes de trazer o que há de pior no outro.

“Mas gente, é a menina dos relacionamentos disfuncionais dando conselhos amorosos!”

Calúnia, saí dessa vida, agora só me relaciono com seres humanos perfeitamente normais e bem ajustados, pergunte pras minhas amigas.

(Agora é a hora que vocês fingem que acreditam)

Enfim.

É um fato universalmente reconhecido que quando alguém reclamar do sexo oposto na minha frente, eu vou dizer: “não são os homens/as mulheres, é a humanidade”.

Eu tive na vida um caso do “clássico cafajeste”: o clássico cafajeste ficava comigo enquanto tinha uma namorada, depois teve crise de ciúmes quando eu arranjei outro, passou anos perdido na vida e reapareceu, só para fugir por medo de compromisso, de novo. Clássico. O tipo de caso que, quando eu conto, arranca inevitavelmente, de alguma mulher presente, o comentário: “mas homem não presta mesmo”.

Não, não é isso. A humanidade que não presta.

Porque eu também tenho medo de compromisso. Porque eu não tive o menor escrúpulo de me esfregar por aí com o namorado de uma menina que eu conhecia. Porque eu também menti e mantive distância e machuquei pessoas do mesmo jeito que ele fez. Se não fiz com ele é porque estava mais sozinha, cansada, decepcionada, disposta a ficar com alguém no momento. Eu estava mais disposta a engolir o medo de que ele me machucasse e não fugir, ele não estava disposto a fazer o mesmo.

Mas nós dois tínhamos o mesmo potencial para sermos pessoas horrorosas.

Não é aquela sua ex-namorada louca, não é aquele meu ex-namorado idiota, é a humanidade. Falando assim, parece que estou legitimando todo medo de se envolver que tem alguém que já teve um relacionamento péssimo, mas não é bem isso. Pessoas são uma merda e uma coisa que junta duas pessoas tem o dobro de potencial para ser uma merda, mas há arranjos e arranjos.

Há arranjos que trazem o melhor em alguém (essa frase é real, eu estou sendo otimista, está liberado dar print e usar para me torturar depois).

Já tive gente que me fez focar a inquietude criativamente, ser rebelde com causa, finalmente ler aquele livro, finalmente fazer aquela viagem. Já estive com alguém e senti que, com ele, eu era a melhor versão de mim mesma. Ou com alguém que me inspirava a fazer as coisas que eu quero, não ficar tão perdida nesse mar de vontades e projetos desorganizados que é minha cabeça. Já ajudei alguém a achar a música dele, outro a ver a graça em uma garrafa de vinho e um parque, também já trouxe o melhor em alguém.

Mas também já fiz alguém ficar tão desesperado a ponto de revirar minha gaveta de calcinhas e ler meu diário. E ele fez eu gritar o quanto queria trepar com outro. Já defendi posições horrorosas só para discordar de alguém, já fiz aquele outro cara parecer tão mais legal só para esfregar na cara, já vi fazerem coisas semelhantes.

A mesma pessoa já me fez ser a melhor versão de mim mesma que eu um dia posso ser e anos depois dizer coisas de que eu me envergonho. Descobrir que a mesma pessoa podia fazer os dois foi o mais dolorido de tudo. E aí acabou. Quando eu vi nós dois sendo o pior que poderíamos ser, eu me resignei. Meu coração partiu quieto e se conformou. Anos de poderia ser e não foi e afinal já não poderia ser.

Talvez (taaaaalvez) eu seja pessimista demais, admito. Mas se tem algo bom que vem com esse ceticismo para com relacionamentos é a capacidade de ver com clareza quando as coisas acabam. Eu testemunho incontáveis casais sendo crueis um com o outro, se machucando, sendo o pior que podem ser e ficando juntos, quase sempre por conta de uma ideia de amor que eles tem.

É fácil achar que amor é conto de fadas, que ele te transforma para melhor, que ele dá sentido. Pode ser que tudo isso seja verdade. Acho que tudo isso é verdade justamente porque a outra face também é: porque ele pode trazer o pior que há em você quando é hora de ir embora. Ir embora é sempre algo terrivelmente difícil e muitas vezes terrivelmente necessário, mas mais difícil ainda é reconhecer que se precisa ir.

Não me interessa o amor conto de fadas, não me interessa achar que ele vai dar sentido a minha vida e que tudo vai virar um mundo cor de rosa com lua de mel no Nepal. Só me interessa me apaixonar se for para ser o melhor de mim mesma e saber que, daqui um tempo, estaremos sendo o pior que podemos ser.

Fill me up
Then pour me out
Therein lies the doubt

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