Brincando lá fora

Acho que, se nesse momento, alguém me pedisse qualquer conselho, sobre qualquer coisa, eu diria: vai viajar.

Faz um tempo, em um dos dias que faço o que sei que não devo, entrei na etsy atrás de uma capinha nova pro celular, sabendo que nunca sairia de lá apenas com uma capinha de celular, e me apaixonei por uma ilustração. Era só um globo e em cima dele escrito “go play outside”. Me apaixonei porque é tão simples, vá brincar lá fora, sai de casa, menina!

Não comprei a ilustração na época, pelo provável motivo de pobreza, mas estou comprando nesse exato minuto. Comprei também, um pouco antes de viajar, um relógio com um mapa no fundo. É um lindo relógio, mas não acho que foi por isso que comprei, mas porque de alguma forma ele parecia me dizer que é hora de ir, que sempre é hora de ir.

Acabei de voltar de viagem e confesso que fiz muito esforço para não sentar e chorar no meio do aeroporto de Amsterdam. Estava um pouco cansada da Turquia, é verdade, mas poderia tão facilmente ficar ali no caminho. Nem era uma questão de Holanda, ou Europa, eu só queria continuar viajando mesmo.

Viagens parecem ser aquele pequeno intervalo na sua vida de verdade, aquelas interrupções que acontecem entre os momentos em que você está realmente vivendo, mas eu, sinceramente, acho que é o contrário. Todo o tempo em que eu estou trabalhando, cumprindo prazos, lidando com frilas estúpidos, enfiando o pé na lama, pegando garoa e perdendo o ônibus só existe como intervalo necessário para o tempo em que não estou aqui, o tempo em que estou realmente vivendo.

Eu gosto da minha vida, mesmo. Mas vida, por mais que você goste, vira rotina. Eu não reparo na forma como o sol de São Paulo bate no meu rosto, não vejo se as cores na feira se coordenam de forma interessante, esqueço com muita frequência o quanto o Rio de Janeiro é bonito. Mas quando você não está, existir vira novidade. O calor do sol da Capadócia, o cheiro do ar de Istanbul, a forma como o vento de Paris bate no meu cabelo, os meus passos nas ruas de Paraty, eu reparei em tudo isso. Estar ali torna-se algo mais completo, você está por inteiro, é preciso sentir todos os gostos, ouvir todos os sons, estar onde se está.

Tenho enorme dificuldade de estar onde estou, quero sempre estar onde não estou. Quero sempre aquilo que não tenho, exceto quando estou viajando.

Consigo antever comentários dizendo que isso é uma questão minha, que reparar no mundo ao seu redor, que existir plena e inteiramente no momento em que se está é uma questão interna. Pode ser. Se for esse o caso, assumo minha total incapacidade. Assim como algumas pessoas nunca conseguirão assobiar, ou andar de bicicleta, ou jogar xadrez, eu nunca conseguirei me sentir totalmente presente no lugar onde estou, a menos que viaje (também nunca vou conseguir jogar xadrez, mas essa é outra história).

Faz semanas que eu estava me batendo com uma pergunta que preciso fazer. Semanas que eu procurava essa pergunta que eu sabia que precisava fazer, mas não sabia bem qual era. No meio da viagem, em algum momento, eu soube. Porque eu estava ali. Porque eu estava sentindo o sol no meu rosto e não girando em torno do mesmo assunto sem parar, como a louca obcecada que sou. Tão longe de casa eu encontrei minha pergunta e fiquei um pouco mais em paz.

Por outro lado, todo o caminho entre o aeroporto de Amsterdam e o de São Paulo, todas as longas doze horas de voo, foram um crescendo da minha angústia. Gostaria de saber qual teria sido a reação do cara do meu lado se eu tivesse realmente caído no choro como era minha vontade. Já chorei em um avião, foi um voo de 14 horas e chorei por todas elas, convulsivamente.

Não chorei dessa vez, mas quis. Quanto mais perto de São Paulo, mais eu queria chorar, mais eu queria fazer as perguntas erradas, mais eu voltei a doer por aquilo que anda doendo. Me pergunto se tenho a mesma relação com relacionamentos: se uma vez que a novidade some e a rotina se instala, eu fico angustiada, ansiosa, com vontade de chorar e de ir embora de novo.

Mas a verdade é que a angústia volta, mas não volta por inteiro: eu realmente achei minha pergunta. Gosto de pensar que algo em mim muda cada vez que volto de viagem, que minhas roupas mudam, meu jeito de sorrir ou de prender o cabelo muda, que eu volto outra. Sei que é pretensão achar que vou voltar outra de cada passeio de algumas semanas que dou, mas acho que volto é mais eu mesma.

Está aí outra consequência de sair: cada vez que eu saio, eu aprendo um tanto sobre mim mesma. Sair é descobrir exatamente o que me incomoda, o que eu não quero, o que é importante, do que eu sinto falta. Nessa viagem eu definitivamente descobri do que sinto falta e está corroendo meus órgãos, mas foi bem importante descobrir o tamanho dessa falta.

Não queria, de verdade, voltar para casa. Preciso ensinar meus gatos a viajar e pedir um emprego na National Geographic. A Simone me contou de um casal de mochileiros que viaja com a gatinha deitada na mochila, é isso que eu preciso fazer, inclusive acho que Cléo e Gatsby seriam viajantes muito charmosos, aquele focinho preto do Gatsby tem todo um ar de explorador do século XIX.

Também preciso pedir meu visto para o Camboja. Lavar minha mochila. Viajar de novo. Acho que nesse gastei cada centavo meu viajando. Estou negativa em dois bancos, estou devendo rios de dinheiro pra minha mãe e minha avó. Não me arrependo. Definitivamente, não me arrependo. Acho que vou me arrepender menos ainda quando chegar no Taj Mahal.

080

(escrevi loucamente nessa viagem, enchi páginas e páginas de caderno, a maior parte dos textos vai entrar aqui aos poucos, tento alternar para vocês não enjoarem)

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