Banho turco, Avalon e mau olhado

Como toda boa menina de quinze anos levemente esquisita, eu tive uma fase bruxa. Li As Brumas de Avalon, fiquei obcecada e comprei essências, acendi velas na banheira e pedi coisas pra deusa. O problema é que eu sempre fui uma pequena cética e nunca consegui acreditar em nada disso, mas ainda assim, até hoje, a ideia de mulheres meio bruxas me fascina.
Ontem de manhã acordei e fui a um banho turco. Não tinha muita ideia do que esperar, exceto piscinas quentes, talvez. O engraçado é que justamente a piscina não era quente.
O que realmente acontece é ser esfoliada, lavada e massageada por uma turca seminua gorda e com cara de bruxa. Claro que eu também estava seminua: até cheguei de biquíni, mas a parte de cima dele foi arrancada assim que a turca pôs a mão em mim. A mulher usava uma calcinha e um sutiã pretos de renda e em determinado momento, enquanto lavava uma australiana de piercing no mamilo, tirou o sutiã, não sei bem por que. Ela tinha cara de mulher que assim que você entra na casa dela te enche de comida e diz que está magrinho, por qualquer motivo achei que isso devia ser essencial pro processo.
Achei engraçado que ela era mandona da mesma forma que minha tia-avó judia é mandona, do tipo que manda como quem sabe o que é melhor pra você. Nessa história de ser massageada, lavada e sei lá mais o que, precisei virar de frente e de bruços várias vezes e ela sempre indicava isso com um tapinha na minha bunda e/ou no lado da coxa. Eu sempre fui meio chata com gente desconhecida me tocando, mas ali eu não me incomodei, é como se aquela mulher que lembrava minha vó (mesmo não lembrando em nada minha vó) realmente soubesse o que é melhor pra mim e tivesse toda a autoridade necessária para me dar um tapa na bunda.
Ela ria como quem sabe tão mais do que eu, como se eu fosse tonta de um jeito bonitinho, como se eu não soubesse nada de nada. O riso dela era um grande you know nothing Jon Snow. E acho que ela estava certa.
Quem também ri para mim dessa forma é a velha judia húngara que tira mal olhado em quem minha avó me leva de vez em quando porque aparentemente esse meu gosto por cemitérios me faz ficar pegando uns encostos. Não sei, tem coisas que eu prefiro não perguntar. Mas de vez em quando sou levada nessa mulher que mora em um apartamento enorme e antigo como existem mil em Copacabana. Vocês não sabem, mas eu chutaria que mais da metade da população do bairro é composta por velhinhos judeus vindos do leste europeu (dado que uns 95% é de velhinhos de qualquer religião e proveniência). Ela pega minha mão, ri de mim, diz qualquer coisa em ídiche para minha vó, mexe em umas águas e por fim amarra uma fitinha vermelha no meu punho. Não entendo nada, mas se ela diz que tirou o mal olhado, quem sou eu pra discutir? Dona Raquel aprova efusivamente o símbolo de proteção tatuado na minha nuca, diz que ele faz parte do trabalho, eu só precisava parar com essa mania de visitar cemitérios toda vez que viajo.
Não acredito em mal olhado, nem na Dona Raquel. O hamsa na minha nuca tem a ver com o colar que eu usei todos os dias durante anos, a ponto de virar algo que lembrava todo mundo de mim, meu símbolo. Virou minha primeira tatuagem por isso. Mas as poucas pessoas que conhecem a senhora minha tia-avó sabem da impossibilidade de se ganhar uma discussão com ela, então continuo sendo levada no apartamento da rua Anita Garibaldi para sentar na frente de uma velha húngara meio bruxa.
Eu gosto dessas mulheres que acham que sabem o que é melhor pra mim. Que agem como se fossem portadoras de um segredo milenar e que riem de mim porque eu obviamente ainda sou tão inocente e tão tolamente convencida de que sei muita coisa. Sou tola a ponto de não acreditar em mal olhado.
Quando a velha turca me virou de frente e começou o misto de lavação e massagem, ela apertou especialmente o lugar onde devem ficar meu útero e meus ovários. Foi bem a hora que tive essa sensação, de estar em um lugar que me lembrava Avalon, o tempo em que eu quis ser bruxa e todas essas mulheres que parecem saber algo tão precioso só porque são velhas e só porque são mulheres. Eu gosto da forma como elas riem pra mim, gosto de me sentir ainda tão jovem, de como elas perdoam minha burrice com a desculpa da inocência.

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