Para onde voltar

” It’s a mystery of human chemistry and I don’t understand it, some people, as far as their senses are concerned, just feel like home.”

Eu sou uma pessoa de muitos erros. Eu não me arrependo de muita coisa, exceto daquele namorado, o show do Smashing Pumpkins que eu não fui, do dia que eu não dormi em Tel Aviv e da última vez que eu bebi demais, mas isso é mais consequência da minha resignação do que ausência de motivos para tal. Talvez tenha começado por eu ser filha de pais hippies, mas a verdade é que sou bem errada.
Entre todos esses erros dos quais não me arrependo, estão a faculdade de cinema, os milhares de reais que estou devendo pra minha família e essa mania de fazer meu lar em pessoas, não lugares.
Eu tenho, desde sempre, muitas casas: a casa da minha mãe, da minha tia-avó, a minha própria, a do meu tio. Eu tenho a lembrança do cheiro e do gosto de São José dos Campos, Rio de Janeiro, São Paulo e Afula. Eu me sinto perfeitamente em casa em todos esses lugares, tenho tantas lembranças de infância da pracinha enganadora do castelo vazio em Copacabana quanto da estátua esquisita na frente do refeitório do kibutz. E justamente por isso nenhuma delas pode ser meu lar. Lar deveria ser um só, aquele único lugar de onde se sente falta e para onde se quer voltar; onde, uma vez do lado de dentro, há a sensação de pertencimento. Eu nunca tive isso.
Eu estou fora de casa há 11 dias, sinto uma falta tremenda dos meus gatos, mas acho que termina por aí. Sinto, por outro lado, falta de pessoas, mas já não sei como voltar pra elas.
Tempos atrás eu fiz meu lar em alguém, eu podia encostar a cabeça no ombro dele e sentir que era ali onde eu devia estar. Essa pessoa foi meu lar por anos, mesmo depois que ele já estava muito longe de casa, mesmo depois que eu sabia que ele nunca ia voltar. Até que eu não soube voltar pra ele e meu lar, tudo que eu guardei dentro dele, se perdeu pra sempre. Eu perdi o mapa, a rota, a chave, não sei. Sei que fiquei trancada para fora de onde eu me sentia em paz.
Eu devia ter aprendido, mas não aprendi. Eu troco de lugar como se nada fosse, poderia abandonar São Paulo em um piscar de olhos, poderia trocar meus planos de Paris por qualquer outro, poderia viver em um barco, desde que eu soubesse onde encontrar algumas pessoas. Parece sábio isso de pelo menos dividir entre algumas pessoas, certo? Eu aprendi, se eu perder, não perco tudo. Não é.
Eu perco meus pedaços por aí, eu me perco em cada um que faz eu sentir que pertenço e eu pertenço a muita gente. Eu sei dizer adeus a lugares, mas não posso dizer adeus a ninguém porque eles levam junto uma parte do que me acolhe, daquilo que eu chamo de lar. E pessoas mudam tão rápido, tão mais rápido do que lugares, e me trancam pra fora. Ou eu mudo e perco a chave. É tão delicado esse encaixe, não poderia mesmo durar.
A Camille diz que home is where it hurts. É mentira. Fosse isso, meu lar seria dentro de mim mesma, ou eu não teria dificuldade de chamar de lar as mil casas por onde passei. Lar é onde não dói, é onde eu finalmente me sinto confortável na minha própria pele. E para mim isso sempre dependeu de estar ao lado de alguém.
Eu fico bem sozinha, como boa viajante que sou. Tentei mesmo cortar os laços, achei que podia ser tão desapegada de seres humanos quanto de apartamentos e foi aí que descobri que os usava de lar. Eu posso ficar longe, sinto saudades, mas a essa altura da vida já sou muito boa com saudades, porém preciso saber que está ali, que posso voltar, que posso voltar onde quer que esteja. Mas as vezes eu não posso.

Ainda assim, não me arrependo.

(Está confuso esse texto, o que acho apropriado, já que está confusa a autora dele)

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2 comentários

  1. “Eu sei dizer adeus a lugares, mas não posso dizer adeus a ninguém porque eles levam junto uma parte do que me acolhe, daquilo que eu chamo de lar. ”

    Acho que esse é um dos melhores que já li por aqui . 😉

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