Mais perto dos trinta

25.

Vinte e cinco.

Então meu balão não caiu e só me restou fazer vinte e cinco. Ou talvez tenha caído e esse texto vai entrar mesmo assim e vai ser absurdamente macabro. No caso, por favor utilizem como meu próprio obituário, acho que será um bom obituário.

Em vinte e cinco anos eu fui pianista prodígio, tenista promessa, vocalista de banda, cineasta falida e acadêmica resignada. Eu tive cabelo loiro, rosa, roxo, mais loiro, platinado, ruivo. Eu fiz um piercing e quatro tatuagens. Eu aprendi inglês, francês e alemão, mas nunca me dignei a melhorar o espanhol que aprendi em casa. Eu aprendi a ler hebraico e cirílico, mas não sei dividir a conta no restaurante.

Eu li Irmãos Karamazov, Anna Karenina, Ulysses e No Caminho de Swann, mas nunca li Garcia Márquez. Eu andei quatro dias até Machu Pichu, vi o sol nascer em Masada, me engracei com um garçom de Nápoles, vi corpos carbonizados em Pompeia, andei de balão na Capadócia e comprei uma passagem para Cingapura.

Eu fui a outra. Eu sentei no chão do aeroporto de Tel Aviv e chorei como se meu coração tivesse sido arrancado de dentro. Eu morei junto. Eu tive outro. Eu virei três doses de tequila, usei um pole dance e andei sozinha de madrugada pelo centro de São Paulo só porque tinha levado um fora. Eu levei outros foras. Eu levei um não-fora. Eu censurei a última frase desse parágrafo porque bateu no limite do meu overshare.

Eu aprendi a fumar, parei de fumar, voltei a fumar. Eu descobri que não gosto de maconha, mas acabei comendo pastel frio da geladeira da minha avó por causa de larica. Eu bebi até passar mal mais vezes do que gostaria. Eu fui a uma rave no deserto, sentei no chão e jurei que ia morrer de bad trip.

Eu também já achei que ia morrer de tristeza, de coração partido, de vazio. Eu tatuei meu pulso porque tive um impulso que me deu medo. Eu achei que não ia voltar, mas voltei. Eu vivo com o eterno medo de não voltar.

Eu fugi muito. Eu esperei muito.

Eu tive tanto medo do vazio que preenchi esses vinte cinco anos com mais coisas do que parecem caber neles. Agora, olhando aqui do alto do meu balão, eu me sinto orgulhosa. Ao mesmo tempo eu sinto que talvez seja hora de abandonar tanta coisa.

Eu fiz vinte e cinco e eu fiz muita coisa em vinte e cinco anos. Eu fiz vinte e cinco anos em cima de um balão e achei que nada melhor para alguém que ameaça o tempo todo sair voando desgovernada se você não segurar firme. Mas eu desci, o balão desceu e eu resolvi segurar firme.

Talvez sejam simbólicas e irônicas as escolhas que a vida me deu as vésperas dos vinte e cinco, como se quisesse me jogar na cara que eu cresci, que eu tenho vinte e cinco anos na cara e agora eu dou conta sim. Não sei se dou, eu só consegui escolher porque já não aguentava mais ficar deitada em posição fetal chorando no chão da minha casa, mas vamos ver. Vamos ver onde eu estou aos vinte e seis, se vou ter visto elefantes na Índia, se vou ter conseguido defender um mestrado, se eu esperei.

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3 comentários

  1. Acho que essa é uma das coisas mais legais que li nos últimos tempos. Talvez a coisa que mais me estapeou nos últimos dias no mês do meu aniversario.
    E o que pode ser melhor do que ler algo que te estapeia ?
    Não sou sado Isa, mas gostei dos teus tapas.

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