Todo desapego de se ter um reader

É muito desapego ter um reader. Eu tenho um kobo, comprei mês passado porque decidi parar de entupir meu não tão grande apartamento com livros: eu já tenho duas estantes abarrotadas, alguns livros exilados no quartinho de empregada, outros na casa da minha mãe e tinha acabado de comprar uma terceira estante que já estava quase cheia, fora a prateleira que fica no meu quarto que abriga as HQs e a coleção Mulheres Modernistas que mora separada por motivos estéticos. Chega, eu quis gritar uma noite! Alguma hora vou chegar em casa e meus gatos terão morridos soterrados por livros, chega, chega, chega. Comprei um kobo.

Meu primeiro livro no kobo foi Barba Ensopada de Sangue (muito bom livro, aliás) durante a Flip. Foi meio coincidência, mas achei apropriado, já estava levando uma porção de livros para serem autografados, sabia que ia voltar com mais algum, podia economizar esse espaço. Em dezembro eu viajei para Israel e Itália com 5 livros na mala! Rory Gilmore c’est moi, era uma viagem de um mês, em Israel eu fico enfiada no kibbutz do meu tio sem ter o que fazer e sempre leio pra caramba, blá, blá, blá. Foi lindo, li todos eles, mas na volta precisei carregar Anna Karenina na mão porque já não tinha espaço na mala (eu sei né, ok levar cinco livros, mas não podia ser nada menos tijolo?).

Fui com o kobo e em parte foi a melhor coisa que eu fiz. Na Flip você já carrega caderno, câmera, livro pro autografo e assim levar o livro que eu estava lendo não acrescentava peso. Também era útil de ler nas filas, uma mão só, levinho. Imagina ler Ulysses na fila? (eu leio muito em filas, em pé no ônibus e tal, Ulysses quase me matou). Foi útil, foi lindo e maravilhoso, mas quando eu acabei e voltei para um livro de papel quase quis chorar de emoção.

Esse mês eu li meu segundo livro no kobo por conta de uma matéria que estou fazendo e ouvinte na Usp, como é uma matéria de literatura e bem, eu já tenho muitos livros, decidi ler todos os livros dela digitalmente. Também ajudou, eu mantinha um livro pesado em casa (O Museu da Inocência no caso, do qual falarei em um mês) e saia por ai livre e leve com meu reader. Eu já estava mais adaptada e foi aí que entendi o que me incomoda nele: é muito desapego.

Eu marco livros, grifo, anoto, risco, deixo recadinhos para mim mesma nas margens, emprestar livros é, para mim, um exercício de overshare. E eu sinto falta disso. Porque o kobo me deixa grifar e até fazer algumas notas, mas não é a mesma coisa que riscar, circular muitas vezes uma palavra, encher de !!!! aquela passagem que me define. Eu gosto da concretude do livro, eu gosto de me derramar no livro. Eu praticamente gosto de abraçar livros.

Acho que tem algo no peso do livro. Segurar Ulysses aberto era um sacrifício quase tão grande quanto ler o negócio. Você sofre com Ulysses, sofre lendo, sofre de dor nas costas, dor no punho, falta de posição, mas meu deus como vale a pena! Midnight’s Children, por outro lado, é grande mas leve. Minha edição pelo menos é. E o livro também é longo, um tanto difícil e sofrido, ocupa um puta espaço na bolsa, mas é leve.

Meus livros são quase meu lastro, eu não posso ir embora de vez, sabe? eu tenho meus livros! Como eles vão viver sem mim? Quem vai amar essa edição listrada de NW tanto quanto eu? Tenho planos de um doutorado fora e vou gastar uma fortuna enviando caixas de livros para a França.Mentira, não vou, porque desapego até dói, mas eu desapego fácil.

Estou fazendo mala para viajar de novo e nela vai uma edição relativamente leve de Catch 22, porque preciso devolver ao proprietário em um futuro próximo e só por isso, e o kobo. Não foi bem uma escolha voluntária, mas forçada pelos meus vôos de Pegasus Airline que só permitem 15kg de bagagem e são três semanas, quero estar bonita nas fotos, então vou gastar esse limite com roupas. Estou sofrendo, estou abraçando meus livros e querendo levar um Bashevis Singer de 760 páginas, mas não vou. Pretendo ler The Ocean at the End of the Lane e sei que vai ser sofrido, sei que vou querer riscar e sujar e amar, mas também sei que vou superar depois do primeiro capítulo. Eu não gosto do kobo, como não gosto de ser desapegada, mas é preciso se acostumar.

Esses dias alguém me contou que ia embora, que tinha até comprado um kindle. Foi nesse momento, quando ele me disse isso, que eu acreditei que ele realmente ia, não estava fazendo como eu, que anuncio toda semana que vou me mudar para a Índia com a roupa do corpo (aliás, pode ser que eu realmente vá para a Índia, de verdade verdadeira, mas conto isso depois). Alguém que chega a comprar um kindle é certamente alguém que se desapegou o suficiente para ir embora.

Eu comprei meu kobo faz um mês, nem sei do que raios eu estava me desapegando. Eu já sabia dessa viagem, já sabia dos 15 kg de bagagem, não sabia que talvez vá para a Ásia de mochila. Mas nem sei se foi por isso. Eu não gosto dele, mas uso cada vez mais. Do mesmo jeito eu não gosto do meu desapego, mas uso cada vez mais.

 

(mas é claro que continuo comprando livros e entupindo meu apartamento com eles)

kindle-girl-beach

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4 comentários

  1. Estou aqui antecipando essa dor.

    Nem tenho e-reader, e nem sei quando vou chegar a ter um, até agora não me animei com essa ideia. Porque acho que tenho essa mesma relação com os livros físicos que você descreveu. Me dá uma satisfação imensa olhar minha estante carregada de livros, de olhar um em particular, abrir, folhar algumas páginas, ver o que acabei sublinhando, encontrar dedicatórias que eu nem lembrava mais que existiam – E AS DEDICATÓRIAS, MEU DEUS? COMO ELAS FICAM?

    Como vou me mudar ano que vem, pretendo levar todos os livros comigo, mas sei que vou ter que fazer uma baita peneirada para aliviar a carga. Vai ser difícil. Mesmo com um kobo ou kindle ou whatever, vou querer esses volumes que já estão há anos comigo pertinho de mim. ❤

  2. Esse ano ainda não comprei nenhum livro físico pra mim, só de presente (aliás, taí um negócio que perde 90% da graça no formato digital também)

  3. Ótimo texto!
    Estou tentando fazer a mesma coisa, principalmente em relação à quadrinhos, ler as edições em formato digital, mas tá difícil…
    Sou um acumulador nato, eu acho.

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