Mademoiselle Chambon, ou porque desejo é mais cinematográfico que amor

Eu gosto muito de filmes que parecem ser sobre amor, mas são sobre desejo. Amor `a Flor da Pele, Casablanca, Quase Famosos, Last Night, A Primeira Noite de um Homem, Asas do Desejo… Amor `a Flor da Pele é um dos meus filmes preferidos justamente por isso, ele não é sobre amor, mas sobre desejo, sobre a tensão não concretizada entre duas pessoas.

Talvez seja por isso também que A uma passante seja um dos meus poemas favoritos.

Mademoiselle Chambon é um desses filmes que é bom justamente porque não é sobre amor, é sobre desejo. É um daqueles mil dramas franceses em cidade do interior: um pedreiro (não é bem um pedreiro e pedreiros de cidadezinhas francesas não são exatamente como os nossos, mas vá lá) e a professora do filho dele se apaixonam. Mas ele é casado, a mulher acabou de engravidar e o mundo dos dramas franceses é o mundo real, afinal.

Ele se apaixona pela forma como ela toca violino. Pela música, pela capacidade de produzir beleza. Eu não sei direito por que ela se apaixona. Talvez pela paixão dele, porque ele a lembra de quem ela foi, ou talvez simplesmente por ele, tímido, simples. É tão difícil isso de por que as pessoas se apaixonam.

Mas o filme é todo sutil, todo construído no não dito. Em olhares, gestos, palavras. Ele é todo permeado de desejo, tão delicado e tão claro ao mesmo tempo. Eu vejo poucos filmes conseguirem ser tão bem construídos no que é a matéria mesmo do cinema: as imagens. Nada, absolutamente nada, é dito. Mas tudo está ali, concreto dentro do filme, quase gritante em neon vermelho e ainda assim velado.

Mademoiselle Chambon é um filme sobre duas pessoas que se encontram e sentem o ar mudar, algo acontecer, mas esse algo nunca acontece. Eu sou especialmente fascinada com esses momentos e fiquei sinceramente impressionada por um filme que conseguiu captar isso, imprimir na tela essa coisa tão fugidia, tão fugaz e sem peso que é o desejo.

Porque amor tem peso, lastro, ele fica e te afunda. Desejo só te faz estremecer e passa, mesmo quando ele é forte ele retira o peso, te faz achar que tá ok pular no precipício, você não pesa nada mesmo, não tem como cair. Não quer dizer que eu não goste do amor, mas acho que me artisticamente me interessa mais o desejo. É curioso sentir sua própria alteração de peso quando passa do desejo para o amor.

No fim, o casal chega a fazer sexo, mas o filme segue sendo sobre desejo, sobre algo que poderia ser e não foi. Como a carreira de violinista da protagonista. Como toda a vida dela, aparentemente. Gostei disso também, um filme sobre um amor que poderia ter sido e não foi na vida de uma mulher que é toda um poderia ser e não foi.

Mademoiselle Chambon é quase uma Lady Chatterley antes de acontecer. Ela é tão cheia de desejo e isso é transparente quando ela toca violino, toda dor sempre transparece na música, é inevitável. Mas ao mesmo tempo ela é delicada, magra, se move com tanta suavidade, como se quase não ocupasse espaço, quase não tivesse peso.

E no fim o filme acaba com o desejo do espectador. Que não fosse um drama francês, mas um romance americano. Que as coisas acontecessem de um jeito menos vida real e desejo fosse o suficiente. 

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